Foto de João Gabriel Tréz
clique para exibir bio do colunista

João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz cinema&série

"Farewell Amor" estreia na plataforma Mubi; confira crítica

Farewell Amor apresenta sutil drama doméstico pautado em uma família que não se reconhece mais quando se reencontra depois de quase 20 anos separada
Tipo Opinião
Ntare Guma Mbaho Mwine e Jayme Lawson interpretam Walter e Sylvia, pai e filha que não se conheciam e passam a morar juntos (Foto: divulgação)
Foto: divulgação Ntare Guma Mbaho Mwine e Jayme Lawson interpretam Walter e Sylvia, pai e filha que não se conheciam e passam a morar juntos

Walter, Esther e Sylvia dividem um pequeno apartamento em Nova York, mas são quase desconhecidos entre si - ainda que sejam família. Marido, esposa e filha, os três não se conhecem - e reconhecem - por conta de um contexto que os separou por quase duas décadas. O encontro/reencontro deles é a base dramática de "Farewell Amor", longa de estreia da cineasta Ekwa Msangi, que está disponível no Mubi.

O casal se conheceu ainda jovem em Angola, país natal de ambos, e logo concebeu Sylvia. Problemas econômicos e conflitos civis os forçaram, pouco depois do nascimento da menina, a abandonar a casa. No entanto, os caminhos se dividiram. Walter emigrou para os Estados Unidos, buscando melhores condições, enquanto Esther e a filha foram para a Tanzânia. 17 anos depois da separação, a família consegue se reconectar a partir da emigração das duas para os EUA, para morarem com Walter.

Leia também | Cinema do Dragão divulga funcionamento durante fim de ano

17 anos é, também, a idade de Sylvia, que cresceu sem conhecer o pai. O reencontro da família é, praticamente, o encontro inicial dos dois. Além dessa não-relação, outro ponto de interesse do longa é o não-reconhecimento mútuo entre Walter e Esther, que passaram a maior parte do casamento separados e sem contato.

Nos anos em Nova York, trabalhando como taxista, ele chegou a estabelecer uma relação amorosa com outra mulher. Com o retorno da vida familiar, desfaz o namoro, mas sofre pela confusão de sentimentos. Já Esther, tendo que enfrentar os desafios de criar sozinha a filha em um novo país, acabou aproximando-se de uma comunidade religiosa que lhe concedeu apoio neste processo, tornando-se fervorosa.

Leia também | Confira o que chega ao catálogo da Netflix em janeiro

Some-se a estes contextos e relações o elemento da dança, que adquire importância simbólica e prática na narrativa. Sem revelar tantos detalhes, é possível explicar que foi muito a partir da dança que o casal se conectou na juventude e é, também, pela dança que Sylvia encontra escapes e formas de expressão, ainda que a contragosto da mãe.

Todas as complexidades e nuances dos personagens e suas relações são alçadas a um patamar ainda mais preciso e interessante de desenvolvimento narrativo por conta de uma decisão estrutural: o roteiro - também assinado por Ekwa - baseia-se em espécies de "segmentos" que são, na verdade, momentos em que o longa "assume" os pontos de vista de cada membro da família em relação ao mesmo contexto.

Leia também | Festival do Telecine disponibiliza obras de diretoras pioneiras no cinema

Isso permite que o filme se coloque muito próximo às questões íntimas, reações e visões de mundo específicas de cada um, o que faz com que os personagens adquiram um bem-vindo caráter multifacetado, profundo e complexo. Se de início acompanhamos uma cena sob o ponto de vista do pai na qual a filha pouco aparece, por exemplo, o segmento no qual Sylvia assume protagonismo realça os sentimentos e reações da jovem aqueles fatos ora mostrados.

Esta tentativa de explicação pode até soar algo complicada, mas tudo, ressalte-se, é construído de forma extremamente delicada e natural, sem pesos e aprisionamentos que a estrutura narrativa poderia trazer consigo. A escolha, principalmente, soma muita humanidade não somente aos protagonistas, mas à própria obra. Seria possível que Walter fosse limitado às obviedades de um pai ausente e esposo infiel, ou que Esther fosse retratada de forma unidimensional a partir da crença religiosa. No entanto, o olhar que "Farewell Amor" lança às personagens é de abertura, compreensão, honestidade, carinho.

Leia também | A cantora Maria Alcina será tema de filme biográfico

Farewell Amor

Já disponível no MUBI

Acesse: www.mubi.com

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais