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O patrimônio histórico que conecta passado e futuro, e pode ser um bom negócio

Especialistas conversam com o Vida&Arte para debater a ligação entre memória, arquitetura e futuro
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O espaço já abrigou bares, galerias e restaurantes.  (Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE O espaço já abrigou bares, galerias e restaurantes.

Do ponto de vista urbanístico, o desenho da cidade de Fortaleza foi preponderantemente organizado em malha xadrez, dividida em vias radiais que ligam o Centro - antes, a cidade - ao interior. As informações, cedidas pelo arquiteto e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Romeu Duarte, também indicam o crescimento desordenado da Capital por volta de 1930, caracterizado pela industrialização tardia, especulação imobiliária e periferização. Hoje, Fortaleza conta com cerca de 2,7 milhões de habitantes que ocupam este espaços e constroem relações com os mesmos, conectando o passado ao presente por meio das estruturas arquitetônicas que persistem e ganham novos significados.

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A identificação populacional com o lugar que se habita é normalizada como o reconhecimento de costumes culturais, mas pouco se fala sobre os sentimentos despertados na experiência de vivenciar locais que continuam presentes durante gerações. Sem a presença da arquitetura antiga, afirma Romeu, não se pode contar a história da arquitetura cearense. "Há condições da arquitetura antiga ser adaptada a novos usos e continuar existindo e servindo, sem qualquer necessidade de demolição", explica.

Inaugurado em 2020, o Gandaia Club ocupa espaço em um casarão que emoldura, desde o século XX, a região atualmente conhecida como Dragão do Mar. Na Gandaia, definida pelo arquiteto Tiago Cordeiro como um espaço plural, a memória do passado é mantida pela conservação da estrutura original da fachada e a identidade contemporânea surge a partir do uso de cores e da mistura de materiais como como lambe-lambes e painéis. A mesma estratégia foi utilizada na concepção da nova sede da Casa Patuá. Após a demolição do primeiro restaurante, a sócia e chef Deborah Martins encontrou em um imóvel antigo uma nova oportunidade. O projeto mantém a estrutura original com elementos visuais, para que o local permaneça charmoso e se mantenha atual.

O espaço já abrigou bares, galerias e restaurantes.
Foto: FCO FONTENELE
O espaço já abrigou bares, galerias e restaurantes.

Para manter a cidade viva através das características arquitetônicas, Romeu defende o ensino do cuidado com o patrimônio edificado ainda cedo, logo na escola, para "fortalecer a ideia de pertencimento desta manifestação cultural nas pessoas". O mesmo pensamento é corroborado pelo arquiteto e professor da Universidade de Fortaleza, Pedro Boaventura. O profissional afirma que a problemática da falta de conservação patrimonial é endêmica e depende de variantes, como o cenário político e econômico.

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"Claro que nós conservamos o bem arquitetônico pelo seu valor, porque ele representa alguma coisa dentro da história da cidade, da maneira da cidade viver, se reproduzir. Ele atesta um momento de desenvolvimento ou de mudança (...) O que não se percebe muito no Ceará é que isso pode ser rentável", explica. Segundo Pedro, quando há a implementação de uma política cultural na sociedade, estes bens materiais podem entrar como mecanismos culturais que produzem renda e atraem pessoas.

"Falta educação básica, contínua, da população, que a eduque para a noção que a gente conserva não porque é velho, mas porque é viável para a cidade", explica. O tombamento, efetuado pelo poder público, opera como um dos meios de preservação e é aplicado na manutenção de bens com propriedades específicas como, por exemplo, em edifícios que tenham um valor arquitetônico único, ou que possuam valor histórico e cultural, independente das características arquitetônicas.

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Para além do tombamento, a valorização do patrimônio é dada, reforça o arquiteto, pelo ensino que permeia durante a infância e a adolescência, para que não haja um crescimento distante desta questão. O conhecimento permite acessibilidade a locais mais antigos e, assim, a possível manifestação de interesse para dedicar tempo e capital para mantê-los. Em Fortaleza, algumas estruturas conseguem permanecer apesar do tempo e continuam construindo memórias cotidianas. Além dos bens já tombados, um dos espaços que resistem é o restaurante L'escale Palacete, localizado na Rua Guilherme Rocha, no Centro da Capital. Alugado inicialmente por um francês, o local conserva a estrutura original e oferece a experiência de uma Fortaleza antiga nos tempos modernos.  

O setor privado tem papel importante na valorização de objetos arquitetônicos e, para que tenha uma conduta ativa, deve entender o potencial de construções que reflitam a história social. "Eu faço um trabalho muito intenso para as novas gerações gostarem desses patrimônios, para que quando forem empreitar, tenham a sensibilidade", acrescenta Pedro. Embora o processo seja complexo, é possível desenvolvê-lo coletivamente. Para isso, organizações públicas e privadas devem ter mais responsabilidade em relação a questão, promovendo projetos de conservação de patrimônios que "tragam retorno para a cidade, não sejam mantidos de forma vazia e permitam que as gerações entendam aquele bem e o usem para o contemporâneo". 

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