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Sebos em Fortaleza utilizam internet para manter vendas na pandemia

Donos de sebos em Fortaleza mantêm negócios durante a pandemia e se adaptam ao meio digital para preservar cultura da leitura na Cidade
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Dona Estela e Seu Geraldo estimam que tenham mais de 200 mil obras no local
 (Foto: Thais Mesquita)
Foto: Thais Mesquita Dona Estela e Seu Geraldo estimam que tenham mais de 200 mil obras no local

A partir das páginas de um livro, é possível se deparar com uma gama de informações que podem se transformar em conhecimento. Não só conhecimento, aliás: é possível se aventurar pelo gosto na leitura e ter lazer. O universo literário é vasto. Nada melhor, então, que acomodá-lo em um local de encontro e de partilha de vivências como os sebos. Durante a pandemia, porém, muitos enfrentam desafios para se manter - e em Fortaleza não é diferente. Uma alternativa foi a venda de seus itens pela internet para continuar a oferta de leitura na Cidade.

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Os caminhos para o início de Geraldo Paulo Duarte no ramo da venda de livros se apresentaram quando ele passou a auxiliar um vendedor de revistas na calçada da rua Guilherme Rocha. Meses depois, ouviu que “dava para esse negócio”, e então o homem vendeu seu ponto para Geraldo. Esse marco ocorreu 50 anos atrás. A trajetória do Sebo O Geraldo começava a se concretizar.

Hoje com 80 anos, Seu Geraldo mantém seu estabelecimento agora na rua 24 de Maio e junto com sua cunhada, Estela Alves, 48. Se perguntar quantas obras estão disponíveis no catálogo do sebo, receberá a informação de que existem mais de 200 mil títulos - e a conta só aumenta.

“Nós temos comprado bibliotecas particulares de pessoas que têm se desfeito de muitos livros, né? Então só tem aumentado o acervo. Eu já não me habilito a chutar quantos títulos temos aqui, mas mais de 200 mil com certeza nós temos”, garante Estela.

Entre os assuntos mais buscados pelos clientes, estão livros que abordam espiritismo, esoterismo e ciências sociais. As obras raras e antigas também se destacam no acervo, com livros que remontam à década de 1920, por exemplo.

O catálogo possui majoritariamente obras literárias - a parte de CDs e DVDs fica mais a cargo de sua esposa, responsável pelo sebo Albaniza Livros. Sebos, aliás, acabaram virando negócios da família de Seu Geraldo, tendo até filho dono de uma loja do segmento e irmão também trabalhando com livros. “Só não tem mais gente porque a família é pequena”, comenta.

Estela e Seu Geraldo chegam ao estabelecimento sempre às 8 horas. Atualmente, entretanto, as portas só abrem às 10 horas, devido ao decreto estadual. Assim como outras atividades de comércio, a pandemia afetou seu negócio, pois houve diminuição no comparecimento de clientes ao local. “Vendemos menos e compramos mais”, comenta Seu Geraldo. Dessa forma, uma alternativa encontrada para enfrentar esse cenário foi a adesão à venda pela internet.

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Antes da pandemia, a loja não tinha perfil no Instagram. Assim, foi preciso se adaptar a um novo cenário de vendas de livros. “Nós nos salvamos com o Instagram”, reflete Estela. Na conta, há fotos dos livros disponíveis no acervo, e então os clientes entram em contato para comprar as obras. Hoje, o perfil tem mais de cinco mil seguidores na rede social, e são vendidos livros para todo o País.

O percurso de mais de 50 anos com venda de livros traz uma bagagem relevante sobre a existência de sebos, indo além do comércio de obras e alcançando traços sociais de interação, como pontua Seu Geraldo: “Os sebos têm uma importância muito grande para a sociedade. A gente conversa com o povo, né? As pessoas vêm para cá, passam horas por aqui andando e escolhendo algo, tem encontro, tem conversa”, define.

Para Seu Geraldo, vender livros “é tudo” e representa sua forma de sobrevivência. Ele afirma que não teve chances em outros trabalhos e passou a se identificar com sua ocupação atual. Além disso, sente que ajudou na formação de leitores em Fortaleza. “As pessoas gostam de vir para cá também. É muito bom”, relata.

O ambiente literário no qual Seu Geraldo está imerso há mais de 50 anos acabou sendo realidade também para seu filho, Janderson Duarte. Hoje com 27 anos, foi há cerca de cinco que ele montou seu próprio sebo, intitulado JD Livros, a partir da ajuda de seus pais. O estabelecimento se localiza na rua Pedro I.

O seu negócio foi mais afetado em 2021 que em 2020. Ele tem a percepção de que o poder de compra de clientes diminuiu com o passar dos meses, o que acabou levando as pessoas a focarem seus ganhos em áreas mais essenciais, como alimentação e saúde. No ano passado, Janderson fazia entregas diariamente, mas neste ano houve momentos em que ficou “sem apurar absolutamente nada”. Entre as despesas enfrentadas, estão contas de energia, aluguel do ponto do sebo e também internet.

Em meio a esse cenário, uma alternativa foi o uso de redes sociais. Janderson lembra que o movimento de compras de livros do sebo por meio do Instagram aumentou. A loja já possuía perfil no Instagram antes do início da pandemia, e na época contava com aproximadamente 600 seguidores. Hoje, mais de 4 mil pessoas seguem a conta. “Não é um número absurdo, mas ajuda bastante. Hoje nós enviamos para todo o País”, acrescenta.

Quem visita o espaço se depara não só com livros, mas também com LPs, revistas em quadrinhos, CDs e DVDs. A busca por esses materiais é grande, segundo Janderson, mas o foco do sebo realmente são as obras literárias. Os exemplares que chegam vêm a partir de “garimpo” e da oferta de outras pessoas que estão tirando itens de suas bibliotecas particulares.

Engana-se quem pensa que a relevância dos sebos está unicamente associada a livros com preços mais acessíveis. Sobre o assunto, Janderson comenta: “As pessoas pensam que os sebos são importantes apenas porque os livros são mais baratos que os livros novos. Esse talvez seja o principal fator, mas nos sebos você encontra obras esgotadas e também edições raras”. Em seu acervo, há exemplares de obras das décadas de 1940 e de 1950.

Feliz por trabalhar no segmento, o livreiro também recebe agradecimentos de várias pessoas pela tradição dos sebos, o que ressalta a importância dessa área: “Me sinto feliz e realizado trabalhando nesse ramo. Dificilmente vou enricar com esse trabalho, mas é gratificante e muitas pessoas me agradecem por manter viva essa cultura”.

Em Fortaleza, a calçada também pode se tornar um ponto de encontro literário. Assim, de segunda a sexta-feira é possível encontrar, na Rua Major Facundo, a Livraria da Calçada, biblioteca de livros mantida por Alexandre Maciel, 37. Sua paixão pelos livros o levou a ocupar o espaço no Centro após não encontrar emprego e “partir para o ramo da informalidade”.

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O livreiro desenvolve sua atividade de venda de livros há mais de uma década. Ele já “perdeu as contas” de quantas obras possui em seu acervo, mas observa que os livros mais procurados são os de filosofia, sociologia e psicologia. De fato, o catálogo traz grande quantidade de exemplares, pois Alexandre leva aproximadamente duas horas para montar toda a sua estrutura.

As origens dos livros de seu acervo são variadas, pois o responsável pelo sebo tem parcerias com algumas editoras e distribuidoras e também adquire obras de bibliotecas particulares. “Tem também o público que passa por aqui que algumas vezes vem vender livros”, acrescenta. Alexandre costuma vender seus livros também no Mercado São Sebastião, mas aos domingos e em feriados.

Em relação à influência da pandemia sobre suas atividades, ele afirma que esse período afetou seu sebo, mas ele também percebeu que houve aumento na busca de livros pela internet. Hoje o Instagram também é ferramenta de anúncio dos livros de seu catálogo. Ele tem o sentimento de que as pessoas passaram a ler mais durante a pandemia.

A percepção de Alexandre não é por acaso. A pesquisa Painel de Varejo e Livros no Brasil, divulgada pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel), aponta que, no primeiro trimestre de 2021, houve aumento de 25% de livros vendidos em comparação com o mesmo período do ano passado. Assim, seriam cerca de 12 milhões de livros contra 9,6 milhões de exemplares. Em março de 2021, foram vendidos mais de 3,9 milhões de obras. Segundo Marcos da Veiga, presidente do Snel, houve concentração no varejo on-line.

Para Alexandre, a importância dos sebos vai além da venda de obras literárias: “O meu trabalho não significa apenas uma venda de livros em si. É uma forma minha de subsistência, sim, mas acima de tudo é uma forma de eu realizar os sonhos das pessoas, pois eu sei que, com os livros adquiridos, direta ou indiretamente eu estou contribuindo para o sucesso dessas pessoas, seja como seres humanos ou como profissionais”.

A certeza de Alexandre encontra respaldo na Retratos da Leitura no Brasil. Segundo a pesquisa, da parcela total de leitores em Fortaleza 17% tem como principal razão para ler alcançar crescimento pessoal e 17% tem como objetivo na leitura “aprender algo novo ou desenvolver alguma habilidade”. Do total de leitores fortalezenses, 20% lê principalmente por gosto.

Ainda sobre os leitores na Capital, dados fornecidos pela Retratos da Leitura no Brasil de 2019, pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural e o Ibope Inteligência, apontam que 54% dos fortalezenses são leitores. A estimativa alcança a estimativa de 1,3 milhões de pessoas na Cidade. Segundo a pesquisa, leitor é aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livros nos últimos 3 meses.

As informações revelam também que a maior parte de leitores, correspondente a 52%, pertence a classe C. Além disso, a pesquisa indica que a principal faixa etária é de pessoas de 18 a 39 anos, ocupando 45% do total. Há ainda 62% que não está estudando e 47% categorizado como comprador de livros.

Conheça os livreiros

Perfis no Instagram: @seboogeraldo, @jd_livros e @alexandrelivraria 

O músico Gabriel de Sousa atualmente mantém o sebo virtual Lindo Sebo Delirante
O músico Gabriel de Sousa atualmente mantém o sebo virtual Lindo Sebo Delirante

Virtual desde a origem

Existe o movimento de sebos físicos que passaram a atuar no meio virtual, mas também há lojas que estão atreladas às plataformas digitais desde suas origens. Esse é o caso do Lindo Sebo Delirante, mantido atualmente pelo músico Gabriel de Sousa. O sebo possui site próprio para expor seu catálogo e também realiza essa ação no Instagram.

As atividades da loja foram iniciadas em 2017, e na época Gabriel atuava junto com Giovanna Damasceno, sua companheira. Ela já trabalhava em sebos, mas acabou saindo e, na mesma semana, os dois decidiram montar um sebo próprio. Sobre a opção pela virtualidade, Gabriel comenta: “É algo que eu acho que sempre vai ser. É uma questão de ter tempo também, com o virtual nós ganhamos mais tempo e conseguimos economizar recursos”.

Para responder às demandas, o músico estabelece um horário fixo. Mesmo com site próprio, as vendas acabam ocorrendo mais pelo Instagram e pela plataforma Estante Virtual - esta, aliás, tem sido a mais rentável. Ele estima que o catálogo do Lindo Sebo Delirante tenha por volta de 250 títulos, mas muitos ainda precisam ser cadastrados.

Na rede social, o “carro-chefe” das vendas, segundo Gabriel, tem sido literatura estrangeira, enquanto que no site e na Estante Virtual a procura é maior por livros acadêmicos e relacionados às áreas de filosofia, história e sociologia.

Muitos livros do acervo foram adquiridos a partir de procura do músico no Movimento Emaús, organização não governamental sem fins lucrativos sediada no bairro Pirambu (Cristo Redentor). Com a pandemia, entretanto, Gabriel tem diminuído a frequência de suas visitas. Outra forma de aquisição é a partir da compra de terceiros, mas sempre com olhar atencioso e específico sobre as obras.

Gabriel sente que no início da pandemia as vendas foram melhores. Para ele, houve uma diminuição no poder aquisitivo de muitas pessoas, o que causou essa redução nos valores adquiridos pela sua loja.

O músico entende que a importância dos sebos não atinge só o aspecto econômico e de ruptura de mercados dominantes como a Amazon, mas também reflete no “apego” às obras literárias e à interação social. Além disso, defende a oferta de bibliotecas públicas que possibilitem um acesso maior aos livros pela população.

Manter um sebo, principalmente na pandemia, acarreta desafios para seu dono. Gabriel aponta esse cenário e o prazer que sente, contudo, ao trabalhar nesse ramo: “Acho que no virtual você precisa ter uma maior intimidade com o cliente, no sentido de oferecer mais fotos dos livros, uma descrição melhor, até também para saber como pechinchar. A dificuldade de trabalhar com sebo, no meu caso, é porque eu estou sozinho e são muitas funções, mas é muito prazeroso trabalhar com livros. Eu gosto muito”.

Onde encontrar: @lindosebodelirante no Instagram e site do Lindo Sebo Delirante

 

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