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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz cinema&série

Ana. Sem título: Um filme sobre inventar e recuperar histórias

Partindo de busca por fragmentos de uma desconhecida artista brasileira que viveu no período da ditadura no País, novo filme de Lúcia Murat desvela aproximações entre mulheres da América Latina
Tipo Opinião
Foto vida pb (Foto: Foto vida pb)
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Os primeiros momentos de "Ana. Sem Título", novo longa da cineasta carioca Lúcia Murat, são importantes por apresentar, de forma precisa, a base na qual a produção se desenrolará nos minutos seguintes. Registros da exposição "Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985", que ocupou a Pinacoteca de São Paulo em 2018, e diálogos da atriz Stella Ribeiro com parceiros de cena em um camarim variam entre si, reunindo elementos-chave da produção. Na preparação para entrar em cena, Stella lê uma citação de "Um teto todo seu", de Virginia Woolf.

"Quando um tema é altamente controverso, não se pode dizer a verdade. Pode-se apenas dar à plateia a oportunidade de tirar suas próprias conclusões enquanto observa as limitações, os preconceitos e as idiossincrasias de quem fala. É provável que a ficção contenha, aqui, mais verdade que os fatos", divide. Propondo uma elaboração do texto em relação ao contexto brasileiro recente, ela e os colegas refletem sobre discursos e bandeiras de figuras políticas que se baseiam em notícias falsas, revisionismos e negacionismos históricos. É numa resposta a isto que parte "Ana. Sem Título".

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Além da citação de Woolf, Stella também divide sobre série de cartas que encontrou, trocadas entre artistas latino-americanas ao longo das décadas de 1970 e 1980, períodos nos quais os países da região passaram por ditaduras. Em diferentes correspondências, há citações somente pelo nome a uma artista brasileira, Ana, o desperta a atenção da atriz.

Ana é alguém sobre quem só se sabe, e nunca muito, a partir de outras pessoas. Apesar de constantemente citada, são poucos os fatos sobre ela revelados nas cartas. Para tentar recompor a desconhecida figura, Stella parte numa busca por vestígios da artista pela América Latina. Com ela, a técnica de som Andressa Clain, o diretor de fotografia Léo Bittencourt e Lúcia Murat. Documentos, fotos e depoimentos de memória vão dando forma e conteúdo à Ana - era negra, bastante combativa, tinha um relacionamento com outra mulher. Além dela, materializa-se, também, um caminho que interliga a brasileira a tantas outras mulheres latino-americanas.

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Cada pedaço de história encontrado pela equipe do filme em um país leva à busca por um novo vestígio em outro país, numa relação cadenciada que, em si, representa as fortes ligações entre diferentes vivências das mulheres que vão sendo, também, reveladas. Entre traços em comum e especificidades, "Ana. Sem Título" aponta uma história geral e irmanada entre elas, marcada por resistência, provocação e esperança.

A partir da busca principal do filme, são desveladas reflexões de raça e gênero, memórias das violências sofridas nas ditaduras e diferentes formas de luta de figuras como a cineasta argentina María Luisa Bemberg, a fotógrafa naturalizada mexicana Kati Horna, a pintora cubana Antonia Eiriz, a artista gráfica chilena Luz Donoso e as Mães da Praça de Maio, associação argentina que reúne mulheres que perderam os filhos por ação do Estado durante a ditadura militar no país.

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Para além do movimento de recuperação histórica, o longa também elabora conexões de todos estes cenários passados com o momento presente, tanto pelo viés da memória quanto pelo das permanências. Falar de Ana acaba sendo falar de tantas. Buscar Ana é, também, buscar a tantas. É revelá-las, celebrá-las, lembrá-las, numa reafirmação histórica importante.

Este texto foi publicado originalmente na ocasião da 44ª Mostra SP

Ana. Sem título

Quando: em cartaz até 4 de agosto, sempre às 19 horas
Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81)
Quanto: R$ 16 (inteira), com exceção das terças, que têm preço promocional de R$ 10
Mais informações: @cinemadodragao

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