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Profissionais refletem sobre impactos do incêndio da Cinemateca

Profissionais do audiovisual e gestores culturais refletem sobre o apagamento gradual da memória e seus impactos para o futuro da cultura brasileira
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Cinemateca já havia sido atingida por incêndio em 2016 e por enchente em 2020 (Foto: Redes sociais/Reprodução)
Foto: Redes sociais/Reprodução Cinemateca já havia sido atingida por incêndio em 2016 e por enchente em 2020

"O incêndio na Cinemateca é uma tragédia anunciada. Toda nossa cultura das artes sofre um 'cala a boca' neste momento. Mas vamos renascer, tenho certeza. Das cinzas, vamos renascer. É sagrado o eterno retorno". A visão da atriz Fernanda Montenegro, publicada em suas redes sociais, é uma mensagem de esperança, mas também resume o que aconteceu com as chamas na Cinemateca Brasileira. No último dia 20 de julho, o Ministério Público Federal já havia alertado sobre o risco de incêndio. Não só: a instituição ainda enfrentava um processo de precarização que acarretou em alagamento, troca de gestão, demissão de funcionários e atraso nos salários. Em agosto de 2020, a Secretaria Especial da Cultura havia entregado as chaves do imóvel, e a Sociedade Amigos da Cinemateca assumiu temporariamente em janeiro de 2021 até que surgisse uma nova organização.

"É uma tragédia programada, organizada. O fogo na Cinemateca funciona como uma metáfora da relação de um governo fascista com as artes. A cultura da morte, da destruição. Evoca claramente a fogueira da Inquisição. É como se o fogo nos alertasse: 'voltamos no tempo. Estamos sob a barbárie de um governo que destruirá qualquer vestígio de civilidade'. Cinemateca, Amazônia, Pantanal, pandemia... o fogo destruindo o Brasil", opina Bete Jaguaribe, coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor e diretora do Porto Iracema das Artes.

Para ela, esse movimento de descaso já tinha sido alertado há anos pela classe artística. "O governo Bolsonaro trata a experiência humana com escárnio. O que se perdeu na Cinemateca Brasileira é parte de uma experiência cultural que virou alvo preferido desse governo maldito. Mas, infelizmente, não é surpresa", afirma.

Essa é a mesma visão de Camila Vieira, pesquisadora e curadora de cinema. "O incêndio da Cinemateca, que me deixou muito estarrecida, representa um grande luto, uma tragédia que já tinha sido anunciada, porque não foi a primeira vez que as autoridades do Governo Federal foram alertadas do risco de isso acontecer", indica. Para ela, "tudo isso é mais um reflexo de como o Governo Federal tem interesse zero na cultura como patrimônio. E eu digo mais: não é irresponsabilidade, eles simplesmente estão colocando em prática um projeto muito bem calculado de destruição do nosso País".

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Entretanto, a situação é sintomática e pode ser observada há anos, de acordo com Cláudia Leitão, professora e pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), além de ex-secretária de cultura do Estado do Ceará. "Esse simbolismo das cinzas, do apagamento e da fuligem é muito importante para a gente refletir sobre os rumos que o Brasil está tomando há algum tempo. Eu diria que a gente precisa ir muito antes da chegada do presidente Bolsonaro ao poder", afirma. Mas ela continua: "O incêndio representa a falência do Estado, que não tem um concurso público para cargos permanentes, vive de cargos comissionados e terceiriza trabalhos".

É um processo, segundo a docente, que reforça os ideais de um grupo minoritário e que detém o poder. "O apagamento da memória interessa às narrativas que estão construindo imaginários a partir de fake news, de mentiras. Uma mentira repetida várias vezes para uma população alienada se torna quase uma verdade. O interesse é manter o obscurantismo, é não entrar no século XX".

Galpão da Cinemateca Brasileira pegou fogo noite de quinta-feira, 29(Foto: RONALDO SILVA/AE)
Foto: RONALDO SILVA/AE Galpão da Cinemateca Brasileira pegou fogo noite de quinta-feira, 29

Dentre tantas reflexões que surgem com as chamas e que ainda permanecem sem respostas, uma se destaca: como ficará o futuro da cultura brasileira? "Com relação ao apagamento sistemático da nossa memória e do nosso passado, isso é muito grave. Como nós podemos falar do nosso presente sem entender exatamente qual foi o caminho que percorremos dentro da nossa cultura? Como podemos prospectar possibilidades de futuro se esse passado está sendo constantemente ameaçado e apagado?", pondera Camila Vieira.

Para Bete Jaguaribe, que é professora de futuros profissionais do audiovisual, a pergunta ganha maior impacto. "É desesperador! A memória audiovisual do País destruída. A experiência artística e cultural dialoga com o que vivemos, com o que construímos. É como se abrisse um espaço em branco, sem referências, sem nada. O apagamento do passado atinge o presente, o futuro e o próprio passado". Ela finaliza: "Nossos pesquisadores, nossos jovens realizadores ficam sem referência. A destruição da Cinemateca Brasileira me atinge violentamente. Dirijo uma escola de artes. Sou professora de Cinema Brasileiro. Como lidar com essa tragédia?"

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