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Vida&Arte visita exposição "Um Atlas para Hélio Rôla" no MAC

Artista Hélio Rôla e curadora Flávia Muluc acompanham Vida&Arte em visita à exposição "Um Atlas para Hélio Rôla" no MAC
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FORTALEZA, CE, BRASIL, 14.10.2021: Exposição guiada Hélio Rola.  A exposição conta com obras de 1968 até 2021 somando mais de 400 obras e está exposta no MAC - Dragrão do Mar. Retrato Hélio Rola (Foto: (Thais Mesquita/OPOVO))
Foto: (Thais Mesquita/OPOVO) FORTALEZA, CE, BRASIL, 14.10.2021: Exposição guiada Hélio Rola. A exposição conta com obras de 1968 até 2021 somando mais de 400 obras e está exposta no MAC - Dragrão do Mar. Retrato Hélio Rola

Atlas, na mitologia grega, é um dos titãs condenado por Zeus a sustentar nas costas o peso dos céus. Em suas errâncias, Atlas conheceu os caminhos do mundo, seus espaços, becos e vielas — e nomeia, entre tantas cartografias, uma coleção de mapas. O historiador de arte alemão Aby Warburg (1826-1929) elaborou, em 1924, o "Atlas Mnemosyne": um conjunto de painéis que intentam, a partir de uma organização esquemática e não linear de suas imagens, contar uma história desde uma perspectiva que resiste a significações estáveis. Aberta ao público em setembro de 2021 , a exposição “Um Atlas para Hélio Rôla” reúne mais de 400 trabalhos do artista cearense que completa 85 anos nesta segunda, 18 de outubro.

Inventário das criações, “Um Atlas para Hélio Rôla” é o Atlas Mnemosyne de Aby Warburg no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC) no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A mostra é composta por obras das coleções do MAC Dragão, da Pinacoteca do Estado do Ceará e do acervo particular do artista. Entre desenhos, pinturas, ilustrações, esculturas, xilogravuras, postagens de Internet e colagens, mais de 50 anos de "Hélio Rôla, o múltiplo", como brinca o cearense. A curadoria é de Flávia Muluc, pesquisadora no campo da arte e das imagens que desde 2010 colabora com Hélio em projetos e exposições.

"É uma experiência de visitar uma anarquia", define o escultor, gravador, desenhista, ilustrador e pintor nascido na Fortaleza de 1936. O Vida&Arte acompanhou Hélio e Flávia numa visita guiada pela mostra no MAC, um passeio iniciado em trabalhos de 1968 até 2021, uma mostra em construção. "É uma experiência anárquica de observador: vê isso, vê aquilo… Numa exposição que o tempo se mistura, deixamos o observador criar ele mesmo. É uma multiplicidade de provocações visuais", continua o artista.

Nos atlas de Warburg, esmiuçando o fio da memória de aulas de Semiótica na universidade, as imagens são dispostas em painéis pretos. Ao adentramos o MAC, entretanto, é o ocre das paredes repletas de molduras e cores que atrai o olhar. "Quando o Hélio está finalizando uma obra, ele diz 'tá faltando um amarelo'. O Hélio tem uma perspectiva muito solar. Onde tem ocre, tem essa junção das obras. O Didi-Huberman (filósofo francês) reflete que esses espaços onde a gente suspende o tempo são espaços de pura criatividade e invenção de narrativas", explica Flávia. "É criar entre as brechas", adiciona Rôla.

"Como dar conta de um percurso múltiplo, multifacetado e com mais de 50 anos de uma pessoa que faz tudo ao mesmo tempo?", questionou-se Flávia ao iniciar o processo curatorial. "A ideia era viver uma experiência coletiva no museu. Selecionamos as temáticas com o Núcleo Educativo do MAC, imprimimos as imagens, colocamos num fundo preto e começamos a identificar as aproximações, exercitar o que o Etienne Samain fala sobre a imagem que nos olha e o que ela nos diz — ouvimos essas imagens". Na entrada da exposição, "a primeira selfie" de Rôla — uma pintura colorida retratando a cabeça do artista que repousa num profundo azul — é um convite.

Nessa suspensão de uma ordem temporal, tão comum em galerias de arte, “Um Atlas para Hélio Rôla'' é ruptura na lógica de redução das obras ao seu momento de produção. Rôla estudou na Sociedade Cearense de Artes Plásticas em 1949, mas também graduou-se em Medicina em 1961 e finalizou o doutorado em Bioquímica pela Universidade de São Paulo. Dividiu-se entre a fisiologia e as tintas e, de 1967 a 1970, pesquisou pintura com Joseph Tobin e Agnes Hart no Art Student's League nos Estados Unidos. Em 1981, concluiu ainda um pós-doutorado pela Université de Paris XI. Como telas, as paredes do museu unem todos esses movimentos em aerografias, colagens e acrílicos. O tempo, dentro do museu, é subjetividade.

Hélio e a artista Efímia Rôla, sua esposa há quase seis décadas, abandonaram os ruídos de um ateliê na Praia de Iracema para buscar sossego em meio à Lagoa Redonda. Na mudança, muitas obras ficaram úmidas e pegaram cupim. O artista rasgou os trabalhos danificados, uniu os pedaços de papel, remontou sobre estruturas, colou, criou novamente. "É o reciclador que existe em cada um de nós, né? Sempre tem uma coisa que quebra e você quer segurar, juntar pedaços, dar um certo sentido. Na minha obra, eu faço algumas provocações aqui e ali e o sentido quem dá é o observador, reflete. Primeira sala da exposição no MAC, Paper Art tem fragmentos de 1970, 1980, 1990, anos 2000… De início, o visitante compreende que a unidade é a desordem. "Se alguém quiser procurar na exposição algo homogêneo, é esta sala. Tudo é retalho", elabora.

No piso superior, entre xilogravuras inconfundíveis e retratos de rostos retorcidos nas telas, o visitante conhece também o Hélio Rôla artivista — registros sobre guerras, pestes, fome, desencontros, provocações políticas e socioambientais em cada pincelada: o artista que abriu a Caixa de Pandora e observou com olhos atentos. Ainda em 2016, pintou personagens usando máscaras. Rôla é tech, digital, um cientista engajado que uniu arte e ciência e propaga-se nas redes sociais. "Minha ideia é provocar reflexão, algum comentário. Mandar uma imagem via Facebook, por exemplo, como uma sedução criativa. Ao me valer dessa habilidade como artista plástico, eu aumento a probabilidade que a minha opinião ou me pitaco vá além", acredita.

A série "Iracema By Night", pesadelo cult de Rôla perante a destruição da Praia de Iracema pintado em tons escuros; e a coleção "Casinhas", coloridos e urgentes registros de cidades que abandonaram os lampiões e se perderam entre carros, ocupam o piso inferior do MAC ladeadas pela mostra “Um desvio nem sempre é um atalho”. Ao final, o mapa costurado por Hélio e Flávia nos conduzem ao presente. Retomamos as palavras do artista para a curadora estampadas na parede: "Futuro não é a proposta. A proposta é não perder a perspectiva do presente, a única dimensão que experimentamos".

"Um Atlas para Hélio Rôla", com curadoria de Flávia Muluc

Quando: de quarta a domingo, das 9h30 às 12h30 (acesso até 12h) e das 14h30 às 17h30. Em cartaz até 21 de novembro

Onde: Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)

Agendamentos de grupos de até 12 pessoas via e-mail: agendamentomuseus.cdmac@idm.org.br

Mais informações: (85) 3488-8621

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