Nem toda despedida representa o fim de uma história. Para a sensação de que os feitos de alguém que foi embora permanecem, costumamos usar a palavra "legado", como determinação daquela marca no mundo. Assim, Rita Lee partiu em maio de 2023, mas deixou eterna a transformação social, musical e estética do rock nacional — o seu legado.
Há 50 anos, a nomeada rainha do rock brasileiro celebrava o lançamento do álbum de estúdio "Fruto Proibido", em parceria com a banda Tutti Frutti, na época formada por Luis Sérgio Carlini (guitarra), Lee Marcucci (baixo) e Franklin Paolilo (bateria). Esse trabalho é considerado revolucionário na carreira de Rita e na música do País, pois foi com ele que a artista chamou a atenção para sua carreira solo e gritou pela liberdade da mulher rockeira.
Expulsa do grupo Os Mutantes, onde era vocalista, também foi com "Fruto Proibido" que Rita Lee estreou sua parceria com a gravadora Som Livre e escancarou ao Brasil que o rock também era feminino. Com disco rosa-choque, vestido, cabelo comprido e um teclado (instrumento não comum ao gênero até então), a artista debocha do machismo e conservadorismo do estilo musical.
Nesse projeto, cujas canções são assinadas por Rita Lee, a artista traz ideias do feminismo. Na faixa que abre o disco, "Dançar Pra Não Dançar", ela exalta a liberdade do corpo feminino por meio do exemplo da bailarina norte-americana Isadora Duncan, pioneira da dança moderna com movimentos livres.
Em "Luz Del Fuego", Rita segue exaltando a autonomia da mulher. Desta vez, ela evoca a vedete brasileira, conhecida como símbolo de naturalismo e nudez. Foi a partir deste disco que a rainha do rock passou a homenagear mulheres que confrontavam a moralidade machista de seu tempo, como posteriormente fez nas canções "Pagu", "Elvira Pagã" e "Todas As Mulheres do Mundo".
O deboche de Rita Lee era ouvido em volume máximo nas rádios. Na música que nomeia o álbum, "Fruto Proibido", a artista encarna a personagem bíblica Eva para ironizar a mulher como uma maliciosa pecadora. "Quem foi que disse que eu devo me cuidar?", indaga.
Já em "Ovelha Negra", uma das principais faixas da carreira, o discurso é claro: a dificuldade do governo ditatorial e das próprias famílias em aceitar o rock e todos os estereótipos.
Quando Rita Lee começou a cantar, o rock nacional ainda vivia um contexto de marginalização, era associado a bandidos. Porém, com o sucesso de "Fruto Proibido", as canções da artista chegaram às demais camadas sociais, tocando nas rádios, nos comerciais de TV nas trilhas sonoras de novelas.
Deste álbum, as músicas "Agora Só Falta Você" e "Esse Tal de Roque Enrow" foram para o folhetim "Bravo!" (1976), de Janete Clair e Gilberto Braga. "Ovelha Negra", por sua vez, repetia em diversas propagandas televisivas.
Depois de "Fruto Proibido", Rita Lee deixou de ser a ex-vocalista de um "grupo de malucos" que canta "música de bandido" para se tornar a artista rockeira mais famosa do Brasil, com canções repletas de ironia, sarcamo, erotismo e romantismo.
É cor de rosa choque
Certa vez, em Londres, Rita Lee entrou na boutique Biba, famosíssima na época. Sentou, pediu para experimentar uma bota prateada meia-pata que ia até seus joelhos e disse para a vendedora que o modelo não estava cabendo. Enquanto a moça ia atrás do novo tamanho, Rita saiu correndo e nunca mais devolveu o calçado.
Pelo menos, a peça furtada foi bem aproveitada. O item, visto em diferentes registros fotográficos, compôs seus looks nos anos 1970, tanto em shows quanto em materiais de divulgação da sua nova temporada musical, ao lado da banda Tutti Frutti.
O maximalismo sempre foi o mínimo de Rita Lee. Ela, que se espelhou em Bowie, Lennon e Jagger, misturou, coloriu, se fantasiou. Rita nunca separou o conjunto espetáculo moda música, e manteve o combo sempre vivo, dentro e fora dos palcos.
Com figurinos coloridos e reciclados do baú dos Mutantes, o grupo estreou com um "disco-Titanic", como a própria Rita define. O fiasco veio com uma reviravolta. Em 1975, com então 27 anos (fãs de rock se arrepiam com essa idade fatídica), o álbum "Fruto Proibido" é tudo e mais um pouco, inclusive esteticamente falando.
Nessa nova fase, a cantora era ela. Sobre o palco, se divertiu e dançou. Elementos cênicos e figurinos conversavam entre si: árvores com frutos era o cenário para uma artista que abusava de chapéus, luvas longas, collants, botas… Tudo com muita personalidade, atitude, coragem. De se vestir, de se expor, de ser voz.
Só para lembrar: a ditadura militar vigente considerou a capa do álbum uma reprodução da "atmosfera lúbrica de cabaré francês". Mesmo com as músicas já liberadas dois anos antes, o disco precisou ser recolhido e ter sua capa modificada.
Na foto do álbum cor-de-rosa, o teclado no chão, a penteadeira bagunçada, o cabideiro repleto de estampas e texturas e as roupas jogadas na poltrona, assim como sua postura sobre o móvel, entregam que ela está à vontade. O vestido claro e fluido é feminino e a saia levemente caída, deixando a perna à mostra, dá um toque de sensualidade.
A meia preta traz a subversão tão característica da cantora e a espadrilha amarrada até a panturrilha é o elemento que entrega: estamos nos anos 1970! O olhar sensual também diz que agora há uma mulher no comando. É livre, rebelde, disruptiva, criativa. Não seria tudo isso um tanto quanto rock'n'roll?
Bendito seja!
Vestindo uma camiseta azul marinho com a estampa de Marilyn Monroe por baixo de uma jaqueta jeans US Top, de tênis Bamba e óculos de John Lennon. Lá estava eu cantando "Ovelha Negra", do alto dos meus 15 anos, entoando a plenos pulmões no pátio do Colégio João Pontes o verso: "Quando alguém está perdido/ Procurando se encontrar".
Rita Lee nos libertava de todas as amarras e nos impulsionava para seguir adiante. Mesmo que o ambiente político fosse a sombria repressão da ditadura militar e a censura. A abertura política só viria dez anos depois, e com o trauma da morte de Tancredo Neves. Cinco décadas nos separam de um álbum que se tornou pedra fundamental da música pop no Brasil, do rock, ou como preferem chamar, pop-rock, o "Fruto Proibido", de Rita Lee & Tutti Frutti (banda formada inicialmente por Lee Marcucci, Luís Sérgio Carlini, Franklin Paolillo, Guilherme Bueno, Gilberto Nardo e Rubens Nardo, estes os queridos irmãos gêmeos com quem tive a alegria de trabalhar em dois discos - meu primeiro e o segundo, "Cenas & Dramas").
Também participou do "Fruto Proibido", o lendário saxofonista Manito (ex-Os Incríveis). Produzido por Andy Mills, músico e técnico americano que veio ao Brasil naquele ano com Alice Cooper, e ficou por aqui, o álbum desdobra-se em muitas histórias e significados, como todo grande disco.
Quando Rita escrevia e cantava "Ovelha Negra", essa busca de rumo, de um caminho na vida, meio sem destino, de sonhos e fantasias, ressoa no desejo de liberdade dez anos depois na Legião Urbana, quando Renato Russo dizia: "Será que nada vai acontecer?". E vai continuar ecoando porque essa procura de sentido para a vida permanece. Só muda a perspectiva 50 anos depois.
Rita inaugurou de forma magistral num álbum de capa belíssima e censurada, porque segundo "eles", evocava um ambiente de cabaré, o protagonismo feminino do rock na indústria cultural no Brasil, antecipando a "onda" do BRock que ganharia as paradas de sucesso a partir dos anos 1980. Antes, Gal Costa já havia cantado divinamente o "perigo na esquina" com sua atitude rock and roll, mas Rita era a autora que já havia deixado sua marca de talento e inovação em sua passagem pelos Mutantes, e se afirmava cada vez mais como autora, assinando letras com perspicácia e ironia, embaladas de crítica social e humor - essa marca que associamos para sempre à sua presença estelar na música brasileira.
São muitas as contribuições, referências e inspirações do "Fruto Proibido", mas além do clássico blues "Cartão Postal" (parceria dela com Paulo Coelho), do diálogo da mãe se queixando com um médico da entrega da filha ao mundo do rock em "Esse tal de Roque Enrow" ("Ela nem vem mais pra casa e odeia meus vestidos") em outra parceria com Coelho, agradeço à Rita por ter nos apresentado (pelo menos a mim, na nascente adolescência) as figuras de Isadora Duncan (1877-1927) e Luz Del Fuego (1917-1967). "Faça como Isadora, que entrou para a história por dançar como bem quisesse" - "Dançar pra não Dançar". "Eu hoje represento a loucura mais o que você quiser. Tudo que você vê sair da boca de uma grande mulher". Santa Rita das loucas, bendito seja esse fruto proibido.
Autobiografia Musical
Até este domingo, 17, é apresentado no Cineteatro São Luiz o espetáculo "Rita Lee, uma Autobiografia Musical" - com ingressos esgotados. A montagem é estrelada por Mel Lisboa, que interpreta a artista nos palcos há mais de 10 anos.
"A Rita era uma mulher de ação. Ela era coração e já quebrava paradigmas por ser quem era, por fazer o que fazia. Não precisava levantar uma bandeira, embora as letras dela sejam ousadíssimas. A forma que ela compunha era super ousada, de uma maneira irreverente e alegre", explica Mel sobre a percepção ao pesquisar para o papel.
A atriz destaca ainda o impacto que a obra de Rita Lee teve no cenário político da época: "Ela foi a compositora mais censurada da ditadura militar. A gente costuma pensar que foi alguém como Chico Buarque, mas ela quem foi mais censurada de todas. Ela incomodava muito a ditadura, foi até presa grávida". Reverenciar a cantora em cena é, como complementa a intérprete, "deixar evidente quem foi essa mulher e o que ela representou".
Jardim Suspenso
Em celebração aos 50 anos do álbum "Fruto Proibido", a banda Jardim Suspenso realizou um show com os sucessos do projeto no início de agosto. "Sempre quis que a banda fizesse um show homenageando algum disco da Rita", afirma Joanice Sampaio, vocalista e idealizadora do grupo.
Como a maioria das músicas de "Fruto Proibido" já constavam no repertório, Joanice decidiu fazer um show especialmente sobre o álbum no Teatro Chico Anysio: "Foi lindo, foi maravilhoso. Tivemos uma receptividade muito forte por parte do público, um encontro de gerações. Uma galera mais nova curtindo músicas de uma época em que nem eram nascidos. Fazer as músicas de Rita Lee é sempre um prazer! Uma prova de que 'Fruto Proibido' e Rita Lee são atemporais".
Tudo é tão simples
Que Roberto de Carvalho me perdoe, mas a melhor fase de Rita Lee foi com o Tutti Frutti. Aliás, adoro artistas que demarcam bem as fases de sua carreira – Caetano Veloso é mestre nisso. Para as novas gerações, qualquer single ou disco é alardeado como uma "nova era". Não é assim, é preciso que cada fase seja um mergulho, uma experimentação, um tempo de maturar ideias. E isso não se faz com um lançamento só.
Rita experimentou muitas loucuras sonoras e estéticas enquanto esteve com os Mutantes, testando figurinos, instrumentos estranhos e formas de compor. Com Roberto, ela tornou-se estrela pop, abriu avenidas no mercado para tocar em novelas, rádios, mega espetáculos. Não deixou de transgredir, mas vestiu uma máscara meio cínica para ferir os caretas sem maltratar muito.
E com o Tutti Frutti? Ah sim, com o Tutti Frutti é somente rock and roll, mas eu gosto (Jagger, Mick). E "Fruto Proibido" é o filho médico desse casamento de Rita com a banda, o motivo maior de orgulho. Aqui ela não canta com a "voz de cantora de bossa nova", como ela mesma dizia. Pelo contrário, solta cada palavra com verdade, inteligência e descaramento.
Com a mesma postura meio diva, meio preguiçosa muito bem retratada na foto da capa, Rita Lee puxa para si o protagonismo e conta suas histórias de forma até então inédita. Entre os novos colaboradores, Paulo Coelho emplaca logo três parcerias. Entre elas, o blues arrastado e magnífico “Cartão Postal”, que já ganhou regravações de Cazuza, do cearense Arthur Menezes e mais uma penca de gente.
Mas essa não é a melhor fase de Rita Lee somente por que ela estava livre do controle dos irmãos Baptista. Não bastasse ela ser quem é e estar curtindo o desbunde, o Tutti Frutti é uma banda fodástica. Se tem dúvidas, preste atenção na bateria de Franklin Paolilo em “Esse tal de rock and roll” – que ainda conta com um solo de sax genial do mestre Manito. Aliado às guitarras do gigantesco Luis Carlini (que tirou o solo final de “Ovelha negra” de um sonho) e ao baixo vigoroso de Lee Marcucci, eis uma das formações mais incríveis do rock nacional.
Foram cinco discos de Rita com o Tutti Frutti, desde o experimental “Atrás do porto tem uma cidade” (1974), passando pelo ao vivo “Refestança” (1977) – dividido com Gilberto Gil – até chegar à despedida com “Babilônia” (1978). Este último já marca a transição para a fase “Roberto marido produtor”. O som é menos cru, a produção é mais trabalhada e o repertório ganha mais cara de rádio. Faixas como “Miss Brasil 2000”, “Jardins da Babilônia” e “Agora é moda” mostram o novo caminho que a rainha do rock nacional iria trilhar. Ela estava fadada a ser a roqueira doidona que toda dona de casa admira. Mas antes botou o pé na lama e concebeu uma obra prima de rock cru, enérgico, potente e luminoso.