Dar sinal, subir no ônibus, descer no terminal, pegar o segundo ônibus - às vezes o terceiro - descer próximo a algum equipamento cultural. Essa é a realidade de quem mora na região periférica de Fortaleza. O Cineteatro São Luiz, o Theatro José de Alencar e o Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura são exemplos de alguns dos equipamentos que ficam concentrados em uma faixa central da Capital.
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A distância não é o único empecilho. Ademar Gondim, professor de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que o consumo cultural não está ligado somente ao deslocamento. "Tem-se um gasto também com alimentação e ingressos, se for uma família, o gasto é ainda maior, então é uma sequência de fatores", elucida.
No fim de novembro, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor) informou que o valor da passagem inteira sofreria um aumento de R$ 0,90. Ou seja, em 2026, uma viagem de ônibus passou a custar R$ 5,40 ao invés dos R$ 4,50 praticados até 2025. O fortalezense ganhou uma barreira adicional no seu dia a dia para poder acessar os espaços de cultura em momentos de lazer.
Em uma Cidade onde os principais equipamentos culturais estão localizados no Centro e no seu entorno, o transporte público deveria ser um forte aliado. A professora de dança Maria Cecília Ribeiro relata que tenta sempre optar pelos modos coletivos de deslocamento, principalmente ônibus. "Como moro muito afastada de lugares que ocorrem eventos culturais, preciso sair muito cedo e pego muitos ônibus para conseguir chegar nesses ambientes", explica sobre sua dificuldade de transitar entre o bairro Jangurussu e os polos culturais.
A professora de dança não é a única que relata esse tipo de problema. O rapper e estudante de História Venicius Alejandro compartilha do mesmo dilema: "Para quem mora nas periferias no geral, não só o meu bairro (Curió), o fator deslocamento sempre está sendo levado em consideração". Ele ainda diz que percebe uma "hiperconcentração dos polos culturais da Cidade", o que dificulta e desmotiva a saída de casa.
Nesse sentido, o docente da UFC Ademar Gondim acredita que uma maior oferta de ônibus para essas regiões durante o dia e a noite - e também aos finais de semana e feriados - poderia melhorar o quadro. "Assim, mais a população se sentirá motivada a sair de casa e com a menor necessidade de apelar para um aplicativo de carro ou moto", analisa.
O estudante de História Ronald Santiago, por exemplo, mora na Barra do Ceará e percebe que, aos finais de semana, "o ônibus demora bem mais para passar". Além de não se sentir seguro: "A maioria dos eventos ocorre no período noturno e os ônibus acabam se tornando vulneráveis aos assaltos".
Já Vitória Ramos, estudante de Letras, mora no bairro Conjunto Palmeiras e relata que seu principal meio de locomoção é o transporte público e qualquer deslocamento demanda muito tempo. "Quando me planejo para algum evento, já sei que vou ter que sair cedo e me preparar para pagar um veículo de aplicativo caríssimo na volta". Ela explica que, além do valor da passagem, é sempre "uma aflição voltar tarde da noite no veículo de um desconhecido".
Os três universitários entrevistados possuem o chamado Passe Livre Estudantil - benefício instituído por lei municipal em novembro de 2023 e que garante duas passagens gratuitas em dias letivos para alunos dos níveis fundamental, médio, técnico e superior.
Entretanto, apesar de Vitória, Ronald e Venicius possuírem a gratuidade na rede de ônibus durante a semana, as dificuldades, por vezes, os fizeram optar por carros de aplicativo ou mesmo por não saírem de casa.
Da mesma forma, a professora de Dança Maria Cecília Ribeiro conta que já deixou de participar de oficinas de arte nos Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cuca) e de apresentações no Theatro José de Alencar (TJA).
A professora conclui seu pensamento com um desabafo: "Eu não consigo fazer uso do meu direito porque os eventos acabam tarde, tenho receio e, às vezes, a falta de dinheiro para as passagens de ônibus ou para viagens por aplicativo é desgastante e desmotivadora".
Em nota enviada ao O POVO, a Secretaria de Cultura do Ceará (Secult-CE) afirma que "compreende a mobilidade urbana como um importante vetor de acesso da população aos espaços e programações culturais". E referente aos moradores das periferias que enfrentam barreiras de distância, tempo e custo de deslocamento, a pasta pontua que "ampliou nos últimos anos a sua rede de equipamentos culturais na Capital e nos demais municípios".
Venicius Alejandro, morador do bairro Curió, concorda que "existem alguns equipamentos pela Cidade, que oferecem sim programações culturais, normalmente ligados a áreas de juventude, de pequeno e médio porte". "Mas é fato que eventos e equipamentos culturais com mais investimento e diversidade de atrações são voltados para o Centro", finaliza o estudante.