Caso me pedissem para definir "Sonhos de Trem" em apenas uma palavra, melancólico seria a escolhida. Porém, o texto terá cerca de quatro mil caracteres, então é possível dizer muito mais, incluindo que se trata de um filme muito bonito e de rara delicadeza. Bonito não apenas pelas paisagens amplas e hipnóticas do interior dos Estados Unidos no início do século XX, mas sobretudo pela forma como transforma uma vida comum em uma jornada quase épica sem jamais forçar grandiosidade, apesar das tragédias presentes. Clint Bentley, na direção, escolhe um caminho arriscado, que é o da contemplação, e acerta ao confiar que o silêncio e a observação dizem mais do que qualquer excesso dramático.
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A história acompanha Robert Grainier, interpretado de maneira absolutamente brilhante por Joel Edgerton, um homem tímido, simples e que exerce a função de lenhador, atravessando décadas marcadas pela Primeira Guerra Mundial, a expansão das ferrovias pelo país e, especialmente, pelas grandes derrubadas de árvores nas florestas. É alguém que vive afastado da esposa e da filha por longos períodos, algo que o perturba demais, encontrando pelo caminho outras pessoas, outras vidas, sempre em trânsito, mas também desgastadas. Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que a melancolia não é um estado passageiro do personagem - ela é perene. Grainier carrega uma tristeza silenciosa que não paralisa, mas o acompanha constantemente.
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O paradoxo que sustenta o enredo está justamente aí. Apesar do trabalho físico extenuante, da solidão e das perdas, Robert é um homem amável, genuíno, de gestos contidos e profunda humanidade. Edgerton constrói essa figura sem qualquer afetação, apostando no olhar, na postura, no tempo interno do personagem. Não é à toa que sua atuação vem sendo reconhecida na temporada de premiações, com indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em filme dramático, tendo como um dos concorrentes o brasileiro Wagner Moura. É uma performance de enorme rigor e sensibilidade.
"Sonhos de Trem" é baseado no livro de Denis Johnson e exige atenção plena do espectador porque a proposital lentidão tem detalhes fundamentais. Cada diálogo importa, especialmente os noturnos em volta das fogueiras, carregados de humanidade, reflexão e uma sabedoria que nasce da convivência e do cansaço compartilhado. Toda palavra carrega peso dentro de uma narrativa que se constrói mais pelo acúmulo de experiências do que por acontecimentos espetaculares. O recurso do narrador desde o início funciona como um fio condutor elegante, literário, reforçando a sensação de memória, de lembrança revisitada, além de muito trabalho de pesquisa dos produtores para retratar uma época difícil e que sufocava os trabalhadores braçais.
Tecnicamente, o filme é irrepreensível. São imagens de uma beleza impressionante, valorizando a pequenez do homem diante da natureza. A captação do som também brilha e as paisagens não são apenas cenários, mas parte da dramaturgia. Ao longo de quase 80 anos de vida, Robert vê o mundo passar diante de si, observa a velocidade das transformações, sem jamais ser engolido por elas. Essas mudanças não o atingem diretamente porque ele permanece como um observador, alguém que atravessa o tempo como uma triste testemunha e não como agente.
É uma pena que o filme pouco tenha ficado em cartaz nos cinemas dos EUA - no Brasil, nem isso, decisão da Netflix, plataforma na qual o longa está disponível - porque, embora funcione muito bem na televisão, o impacto das imagens na tela grande certamente seria ainda mais grandioso.
"Sonhos de Trem" não é para consumo apressado. É uma experiência emocional que pede dedicação, de preferência sem interrupções. Ao contar a trajetória de um homem comum, o filme fala de todos nós, do que se perde, do que permanece e da melancolia nossa de cada dia, que atravessa o tempo sem pedir licença.