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Análise: 'All Her Fault' constrói um drama familiar sufocante
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Análise: 'All Her Fault' constrói um drama familiar sufocante

Minissérie "All Her Fault" parte de uma situação corriqueira para construir um drama familiar sufocante sobre o sequestro de uma criança
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Minissérie
Foto: Peacock/DIVULGAÇÃO Minissérie "All Her Fault" está disponível no serviço de streaming Prime Video

Logo nos primeiros segundos do episódio inicial, "All Her Fault" (algo como Tudo Culpa Dela) não pede licença e empurra o espectador para dentro do desespero absoluto de uma mãe que não sabe onde está o filho. Não há aquecimento, nem exposição didática. Há angústia. A partir desse instante, a minissérie constrói uma narrativa que avança com precisão cirúrgica, sempre consciente de que qualquer passo em falso e, qualquer spoiler, podem comprometer por completo a experiência. Inclusive por isso ela exige tato até de quem escreve sobre o assunto, no caso, eu. Prometo fazer o possível.

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Concebida desde a origem como minissérie, "All Her Fault" entende o valor do fechamento. Não há gordura narrativa, nem desvios gratuitos. A razão é simples: cada detalhe funciona como peça de um quebra-cabeça montado com rigor até o episódio final, quando todas as respostas são, ainda bem, entregues. Não se trata de um fim aberto ou preguiçoso. Ao contrário: o arco é fechado com convicção, respeitando a própria história, uma escolha cada vez mais rara no ecossistema do streaming. Não por acaso, a produção recebeu indicação ao Globo de Ouro na categoria de melhor minissérie.

Adaptada do romance homônimo da irlandesa Andrea Mara, a obra assume riscos ao se distanciar do livro em pontos cruciais, especialmente no desfecho. Sem revelar nada, vale registrar que as diferenças são relevantes e revelam uma opção clara da televisão por outra cadência emocional e narrativa. O debate entre leitores e espectadores tem rendido nas redes sociais e é saudável, mas o que importa aqui é que a versão audiovisual se sustenta plenamente em suas próprias decisões.

O impacto da série passa, inevitavelmente, pelo trabalho de Sarah Snookd, premiada como melhor atriz no Crítics Choice mais recente. A australiana, conhecida mundialmente pela espetacular série "Succession", entrega uma atuação dolorosa e profundamente humana, sem recorrer a excessos fáceis. Ao seu lado, Jake Lacy, o pai da criança sequestrada e rosto familiar para quem viu "The White Lotus", compõe um personagem atravessado por culpa, dúvida e fragilidade. Na investigação, Michael Peña, visto em "Narcos", confere densidade ao papel do detetive principal, trabalhando mais com olhares e silêncios do que com discursos explicativos. O mérito, porém, não se restringe aos protagonistas: o elenco inteiro opera em alto nível, algo essencial para uma trama que exige credibilidade em cada direção.

"All Her Fault": experiência sufocante

Narrativamente, é uma experiência sufocante. Mais do que um thriller sobre sequestro, a série discute confiança, distração e automatismo. Em um mundo acelerado, onde adultos confiam demais uns nos outros, terceirizam cuidados e vivem no piloto automático, uma tragédia pode nascer de um detalhe ignorado. A história também atravessa temas como tecnologia, ambiente escolar e a falsa sensação de segurança que se constrói em círculos sociais aparentemente estáveis. A direção ataca o tempo todo com suspeitas, espalha dúvidas e convida o espectador a desconfiar de todos: amigos, colegas de trabalho, familiares, vizinhos. Em determinado momento, o choque não vem apenas do que acontece, mas da percepção de que qualquer um ali poderia estar envolvido.

A polícia tem papel central nesse jogo de tensões. A investigação avança de forma orgânica, sem atalhos, e reforça a atmosfera de permanente inquietação. Para pais e mães, o impacto é ainda mais visceral, mas o desespero atravessa qualquer espectador disposto a se deixar levar pela história, que é muito bem contada.

Produzida pela Peacock, "All Her Fault" já é o maior lançamento da história da plataforma nos Estados Unidos, consolidando um momento positivo do streaming, que já havia emplacado sucessos recentes como "O Dia do Chacal". No Brasil, a minissérie está disponível no Prime Vídeo, já incluída no pacote regular, sem necessidade de pagar algo a mais.

Antes de terminar, posso aqui me permitir uma dica ao leitor: assistir a minissérie quando houver tempo para uma maratona completa - são cerca de sete horas que passam com desconfortável rapidez. A vontade de saber o que acontece é constante. E um conselho final: tente se blindar de spoilers nas redes sociais e onde mais for possível. O impacto do capítulo derradeiro depende disso. Em "All Her Fault", saber antes da hora não é apenas perder uma surpresa, mas é comprometer uma experiência construída com cuidado, precisão e coragem narrativa. E olha que quem escreve isso é alguém que não liga para spoilers.

 

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