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Mário Sanders: o artista cearense apaixonado pelas questões urbanas
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Vida & Arte

Mário Sanders: o artista cearense apaixonado pelas questões urbanas

Do bordado às artes gráficas, cearense Mário Sanders usa criatividade para tratar de questões urbanas em seu trabalho
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Obra
Foto: Mário Sanders/Divulgação Obra "Basquiat (Brooklyn)", de 2025, acrílica, carvão e bordado manual

O músico britânico David Bowie tinha apenas 26 anos quando lançou seu sexto álbum de estúdio, intitulado “Aladdin Sane”. O disco foi outro exemplo na carreira do cantor de sua capacidade de se reinventar. Apelidado de “Camaleão do Rock”, criou personagens como Ziggy Stardust e explorou diferentes gêneros musicais.

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Bowie morreu há dez anos, mas deixou legado que continua sendo reverberado. Ele poderia não saber, mas “Aladdin Sane” seria referenciada em uma obra de arte de um artista cearense. Em 2023, cinco décadas após o lançamento do álbum, Mário Sanders eternizou o trabalho de seu ídolo em um bordado manual.

A obra fez parte da série “Desejo”, uma das mais recentes de Sanders. Artista plástico, designer gráfico e ilustrador, o profissional se destaca em trajetória versátil, com uma característica que se assemelha à de David Bowie: pulsar sua arte por diferentes caminhos - e, nesse caso, superfícies.

 

Nascido em Aquiraz, Mário Sanders é nome importante das artes cearenses. Ele passou a consolidar seu repertório na cena do Estado a partir dos anos 1980. Ele usa traços e texturas para pensar o cotidiano urbano, mas também pesquisa mídias como pintura, objetos, bordados e desenho digital.

Mário Sanders já recebeu algumas premiações em iniciativas como Salão de Abril, Unifor Plástica, Listel Teleceará e Salão Norman Rockwel do Desenho e da Gravura em Fortaleza, Mostra do Desenho Brasileiro em Curitiba e Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco.

“Costumo dizer que nós, da minha geração, não escolhíamos ser artistas. Não era uma opção. Hoje, qualquer pessoa pode ser artista e de boa. Antes, não era uma decisão que você tomava de uma hora para outra”, aponta Mário. A inclinação à arte, para ele, veio do ambiente familiar.

“Vivia em uma comunidade de cultura indígena, em um terreno onde minha bisavó era matriarca, meu avô era pescador e fazias as tarefas de pesca. Minha avó era rendeira e minha mãe era rendeira e bordadeira. Eu nasci e vivi entre linhas. Eu vivia nesse ambiente. Eu convivia com isso”, relembra.

A série “Desejo” é uma de suas várias criações. Nela, contempla, a partir do bordado manual e da tinta acrílica sobre tela, as relações do desejo a partir de sentimentos que vão além do consumo e do pertencimento, como o desejo do afeto, da admiração, do gosto e “principalmente da qualidade e profissionalismo que caracteriza cada motivo concretizado em um produto final”.

O tal desejo é representado pelo coração, órgão “que comanda o sentimento e que dá vida a cada desejo despertado”, na avaliação de Mário Sanders. Esse sentimento é visto na coleção a partir de marca de roupa, de automóvel, perfume, time de futebol, movimento musical e, claro, de um cantor.

E, se é para querer ter alguma coisa, precisa ter uma forma bacana, na avaliação do criador. “O bordado que eu fiz com o símbolo do Prince, por exemplo, eu acho um trabalho maravilhoso. É uma marca. É você olhar e dizer: eu me identifico com isso. Então, o ‘Desejo’, a ‘Força do Coração’ é isso”, atesta.

“Eu costumo dizer para as pessoas mais próximas que sou um cronista visual. Gosto de tratar dos temas do dia a dia. Sou um cara apaixonado pelas questões urbanas. Não vou para uma tela simplesmente para pintar um quadro. Eu prefiro contar história, falar de alguma coisa que tem a ver comigo, com o meu cotidiano”, explica.

Entre tantas exposições em sua trajetória, destacam-se coletivas com o grupo Fratura Exposta, Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras, Prêmio Pirelli de Pintura Jovem no Masp e nos principais Salões de Arte Contemporânea do Brasil. Ele relembra as participações nas mostras e a dificuldade de estar nesses espaços há algumas décadas. Era, porém, um “carimbo” da qualidade do trabalho de artistas.

Uma das experiências mais marcantes da trajetória de Mário Sanders foi o coletivo Fratura Exposta, formado por artistas atuantes em Fortaleza na década de 1980. A iniciativa nasceu no Conjunto Prefeito José Walter e o grupo rapidamente se tornou destaque no cenário artístico local e nacional. Seus integrantes chamavam atenção pela qualidade dos trabalhos e pelas suas atitudes artísticas.

Para Sanders, é importante relembrar a trajetória do coletivo, pois compreende que o Fratura Exposta tem importância para a memória cultural da cidade. “Acho que foi o primeiro movimento onde teve, aqui em Fortaleza, a performance. Foi o primeiro movimento onde você teve trabalhos fora da tela, trabalhos recortados, pintados com tinta automotiva… Há uma história sobre isso que precisa ser revitalizada, comentada, recontada, porque hoje há muita gente da periferia aparecendo, mostrando seus trabalhos”, argumenta.

Além de atuar como artista visual, designer gráfico e ilustrador, Mário Sanders faz acompanhamento com grupo de artistas iniciantes na Galeria Leonardo Leal. Há espaço também para poesias, trabalhos com objetos e bordados: “Eu não tenho distinção do que eu faço, não acho que uma área é melhor que a outra, eu gosto de fazer tudo”.

O grande fio condutor acaba sendo, ao final, a criatividade. “Não tem diferença na minha produção, mesmo quando faço objeto ou bordado. Tudo tem na base o desenho, o pensamento, a criatividade. Sempre penso no que vou desenvolver e como farei a partir de uma ideia”, explica.

FORTALEZA, CEARÁ,  BRASIL- 14.04.2024: 25 anos do Dragão do Mar,  O V&A está fazendo uma reportagem sobre os 25 anos do Dragão do Mar. A proposta é retratar o passado, o presente e o futuro do equipamento. (Foto: Aurélio Alves/O POVO)
FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL- 14.04.2024: 25 anos do Dragão do Mar, O V&A está fazendo uma reportagem sobre os 25 anos do Dragão do Mar. A proposta é retratar o passado, o presente e o futuro do equipamento. (Foto: Aurélio Alves/O POVO)

Sanders e O POVO

Após chamar atenção no circuito cultural de Fortaleza, Mário Sanders entrou no time de colaboradores do O POVO, ainda na década de 1980. Ele substituiu o ilustrador Valber Benevides e desde o início tinha o intuito de fazer algo diferente: "Não queria ir ao jornal para caricatura ou charge. Eu queria fazer ilustração de matéria, agregar o meu trabalho de arte ao O POVO".

Assim, contribuiu com o seu posicionamento, indo além do retrato de texto: "Paulo Francis fazia uma coluna sobre determinado assunto. Eu queria falar dele, mas com minha interpretação, não necessariamente transmitir o texto dele com a imagem que ele estava passando. Eu dava a minha história. Fui funcionário do jornal até o início dos anos 1990, até que depois virei colaborador".

 

Acompanhe o artista

  • Instagram: @mariosanders, @sande_sign e @printshop_fortal

 

No Dragão

Além do acompanhamento artístico feito na Galeria Leonardo Leal, Mário Sanders tem loja de gravuras chamada Print Shop no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). "É um trabalho que estou fazendo com Narcélio Grud para divulgar e comercializar obras de gravura - xilogravura, linoleogravura, serigrafia…", conta o artista cearense. A loja funciona de terça-feira a domingo, das 15h às 20 horas.

 

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