Sinto que meu tempo é outro. Tenho essa sensação desde criança. Não quero dizer, com isso, que estou na geração errada ou algo do tipo. Não me refiro a um tempo geracional ou mesmo etário. Falo de um tempo que a gente não consegue contabilizar, nem colocar no papel com caneta ou lápis grafite, tampouco visualizar nos relógios (seja ele analógico ou digital, de pulso ou de parede). Poderia ser também um relógio mecânico, um de bolso, de sol ou mesmo uma ampulheta. Parece que nenhum deles seria suficiente.
É um tempo incontrolável, que escapa das mãos e corre pelos olhos, se disfarça entre folhas e encontra os poros da pele ardendo do sol em câmera lenta. Um tempo em que se pode acordar, contar as telhas no teto e passar horas olhando o branco da parede antes de, enfim, criar coragem para levantar, se espreguiçar lentamente e calçar as chinelas. Um tempo em que é possível fazer um café da manhã com calma, devagar, sentindo que a vida está ali, sendo aproveitada num pão com ovo.
Muitas vezes, esqueço a contabilidade dos ponteiros do relógio e, quando dou fé — como dizemos aqui no Ceará — estou indo ao encontro, de novo, desse tempo. Cada hora parece cinco minutos. A questão é que isso me coloca num atraso irrefreável em relação ao tempo das demandas, da lógica, daquilo que foi programado para a rotina. Quando percebo, os ponteiros já passaram, os números já mudaram e liga-se um alerta invisível de que é preciso correr.
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Não é sobre prometer e não cumprir. Não é isso. Quando existe determinado compromisso, faço de tudo para cumprir e cumpro. Falo do dia a dia, dos afazeres do cotidiano. Tem quem diga que sou viciada em "enrolar". Tem também gente que acha até que é uma característica hereditária.
Ao longo da vida, até que isso mudou bastante. Algumas medidas de organização ajudaram nesse processo. Tenho chegado no horário marcado, cumprido prazos e exigências com certa antecedência. Temos que jogar o jogo. Ainda assim, quando não há um horário específico, uma demanda a ser cumprida ou um prazo estabelecido, naturalmente essa lógica se fragmenta e eu nem percebo que esse tempo chegou. Eu sei, alguns chamam de irresponsabilidade. Eu também chamo muitas vezes, mas preciso dizer que não é por negligência, imprudência ou falta de cuidado. Simplesmente acontece! Quando vejo, esse tempo já está lá, passando.
Constantemente, preciso encerrar uma tarefa e, quando noto, estou fazendo bolo de banana. Ou procurando uma carta antiga, que não sei onde guardei, sem motivo aparente. Juro, já tentei domesticá-lo. Programo ao menos dez alarmes e listo os passos da rotina para que pareça mais fácil. Na verdade, posso dizer que na maioria dos dias, a cada minuto, tento pensar em fórmulas para colocá-lo no bolso, jogá-lo ao vento, "rebolar no mato".
Às vezes, tento não reparar que ele está vindo ao meu encontro. Levanto de uma vez, tomo banho depressa, como rápido e vou para onde devo ir. Mas inevitavelmente, no meio do caminho, olho um passarinho e penso em quem amo. Lembro de canções que estão na minha memória e as escuto sem precisar de um fone de ouvido. Me esforço para recordar o nome de um rosto conhecido que passou rápido entre os corredores como se isso fosse o assunto mais urgente possível.
De repente, vejo uma castanhola no chão, vou andando e chutando com o pé, tentando calcular quantos passos dou até ela parar. Vejo corações nas folhas, ouço os rangidos de bambus com o vento, reparo numa fila de formigas e tento decifrar para onde vão. Quando percebo, já estou atrasada outra vez.