Nas exposições imersivas, olhar não basta. Cinema, arte e tecnologia digital se encontram a fim de promover uma experiência. Em uma busca de implicar o espectador de maneira mais próxima diante de uma obra, o objeto de contemplação torna-se espaço.
Cartografia do Lazer: Um roteiro de diversão e compras por Fortaleza
"Não se trata apenas de cercar o público por imagens ou sons, mas de construir um ambiente sensorial integrado, no qual espaço, tempo, narrativa e corpo operam conjuntamente", defende Silas de Paula, diretor do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE), onde a aposta nesse tipo de mostra tem se destacado - a exemplo da exposição "Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna", atualmente em cartaz no equipamento.
Para Taís Monteiro, fotógrafa e pesquisadora que desenvolve ambiências visuais e pesquisas em arte, cinema e interatividade, o espectador nunca é passivo, mas a proposta de imersão "desloca sua experiência para um campo de presença".
Nas palavras de Antonio Curti, curador de arte e cofundador do estúdio paulistano de arte multimídia Label AYA, a exposição imersiva "reorganiza a percepção" e constrói uma experiência espacial em que o visitante é "envolvido por ela através da relação entre imagem, som, escala, tempo e corpo". Desafia, portanto, as formas mais tradicionais de relacionar-se com o público.
Segundo Silas de Paula, historicamente, "a experiência museal herdou do cinema a lógica da narrativa controlada e do espectador passivo". Na perspectiva do MIS, "o imersivo torna-se um dispositivo de atenção, experimentação e pensamento, ancorado em conteúdos densos como memória, território e história", indo além do entretenimento.
"Espaços sensoriais, trilhas sonoras, ritmo visual e uma construção narrativa que envolve emocionalmente o visitante" são alguns dos elementos listados pelo diretor da empresa paraibana de arte imersiva Luzzco, Jader França, para compor uma mostra. "A imersão acontece quando a experiência desperta sentimentos, curiosidade e conexão, e não apenas impacto visual", conclui.
Sob a mesma ótica, acerca do trabalho realizado pela Label AYA, o artista e cofundador do estúdio Felipe Sztutman declara: "Meu interesse é justamente usar essa mídia com mais atenção ao que ela pode provocar no corpo e no tempo do visitante".
É o exemplo da exposição "O que nos une". Em cartaz no Centro Cultural Fiesp até 1° de fevereiro, em São Paulo, a mostra parte da teoria de que o cérebro humano pode formar redes de cérebros e trabalhar de forma cooperativa para desempenhar atividades cognitivas complexas, defendida pelo neurocientista Miguel Nicolelis.
A proposta é "transportar o público para dentro da mente humana". Nessa perspectiva, Felipe Sztutman considera a sala imersiva como um "espaço de experiência, e não apenas como uma grande tela", capaz de ampliar o repertório de como podemos nos relacionar com a arte hoje.
Fenômeno novo, ideia antiga
O fenômeno pode ser recente, mas a ideia de proporcionar ao visitante/espectador uma experiência mais ativa não nasceu ontem. "As experiências imersivas existem desde uma época chamada de pré-cinema, em que as lanternas mágicas, os panoramas e os espetáculos de fantasmagoria circulavam nos salões e eram experiências coletivas", diz Taís Monteiro.
A artista e pesquisadora também menciona experiências com câmara escura - dispositivo óptico que projeta uma imagem por meio de um pequeno orifício em uma caixa ou sala escura - na China do século V a.C e os registros de teatros de sombra entre os séculos X e XIII.
Silas de Paula cita os panoramas e dioramas no século XIX, que trazem, respectivamente, a representação tridimensional e a visualização ampla e contínua de uma paisagem. "Já buscavam envolver o espectador por meio da escala, da ilusão espacial e da continuidade visual, propondo uma fruição que ultrapassa a contemplação frontal", comenta.
"No século XX, essa lógica se intensifica com as vanguardas históricas, que colocam em crise a separação entre obra e espectador", complementa, referindo-se a movimentos como o dadaísmo e o construtivismo e as instalações. Segundo o diretor do MIS, essas manifestações nem sempre foram tão populares: "Muitas enfrentaram incompreensão, rejeição institucional ou dificuldades de preservação e circulação".
"No Brasil, essa abordagem ganha uma força particular com Hélio Oiticica e Lygia Clark, que colocaram o corpo, a participação e a experiência sensorial no centro da prática artística", afirma Felipe Sztutman, artista e co-fundador do Label AYA sobre os pintores e escultores brasileiros cujos trabalhos ganharam maior notoriedade entre as décadas de 1960 e 1970.
Para que expressões de raízes experimentais e alternativas se popularizassem no Brasil, com mostras recorrentes do Ceará a São Paulo, o desenvolvimento das tecnologias digitais - significativas nas produções imersivas - teve grande parte nisso. "Projetores, softwares, LEDs e sistemas de áudio permitiram que esse tipo de espaço deixasse de ser exceção e passasse a circular como um formato cultural reconhecível", explica Sztutman.