As redes sociais influenciam no mercado da arte e nos museus? Para o curador Antonio Curti, a resposta é sim, "especialmente na forma como o público descobre, consome e compartilha cultura". Ele destaca que o desafio está no balanço entre visibilidade e densidade de conteúdo, "para que a experiência não se esgote na imagem, mas permaneça no corpo e na memória do visitante".
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O conceito de "instagramável", já introduzido no vocabulário, faz alusão à ideia de que um lugar ou objeto vale um clique para ser compartilhado nas redes sociais. Conforme Taís Monteiro, o termo tem circulado crescentemente entre artistas e curadores, causando uma aproximação perigosa entre fruição e entretenimento.
Para a artista e pesquisadora, a palavra "pressupõe que o valor de uma obra ou de uma exposição possa estar associado à sua capacidade de gerar circulação nas redes sociais, como se esse apelo de visibilidade devesse integrar, desde a origem, o próprio processo de criação", funcionando também como um critério de validação das obras.
Na sua avaliação, em um contexto marcado pela economia da atenção, o mercado da arte tende a intensificar a lógica da superfície e saturar os espaços com "experiências que brilham, envolvem e impressionam, mas que raramente se sustentam para além da circulação imediata do olhar".
Taís Monteiro alerta para o protagonismo e sobreposição da técnica na experiência expositiva. Mostras associadas a filmes e séries de sucesso, que vieram a Fortaleza, são exemplos que, para ela, simbolizam a priorização de estratégias de branding. A exposição se torna sobre o reconhecimento de uma marca ou monumentalidade da imagem, secundarizando o caráter criativo e sensível da obra.
Silas de Paula associa as redes digitais, "que privilegiam imagens impactantes, ambientes fotogênicos e experiências facilmente compartilháveis", com a adesão do público à linguagem. No seu ponto de vista, o problema está na possibilidade de "induzir a uma padronização estética, na qual a criação se submete às expectativas de impacto, espetacularidade e 'instagramabilidade'", correndo o risco de repetir fórmulas técnicas em detrimento da pesquisa poética e conceitual e de comprometer a liberdade criativa.
Democratização da arte
"Em Fortaleza, o imersivo também responde a um desejo de acesso ampliado à cultura, sobretudo quando utiliza referências populares ou universos já conhecidos, criando familiaridade imediata com o público", aponta Silas de Paula. Se por um lado imersão pode confundir-se mercadologicamente com espetacularização, por outro, tem o poder de conquistar.
Conforme o diretor, no MIS, a imersão é uma estratégia pedagógica e cultural. Ele a identifica que o termo por si só "reduz a sensação de distância ou de especialização excessiva que muitas pessoas associam aos museus e às artes visuais". "Para públicos pouco habituados a frequentar exposições, a promessa de uma experiência sensorial e envolvente atua como convite inicial", afirma.
Como ferramenta de formação de público, ele avalia a imersão como uma porta de entrada e ressalta que, se desenvolvida criticamente, pode provocar reconhecimento, memória e reflexão. "Exposições como 'Ontem choveu no Futuro', 'Cores que cantam, dragões que se devoram: O universo de Chico da Silva' e 'Aves do Ceará' mostram que o imersivo pode ir além do espetáculo importado, articulando tecnologia, pesquisa e cultura local", pontua.
"O Ceará é uma excelente praça para esse tipo de atração. A população é receptiva, curiosa e aberta a novas experiências culturais. O próprio MIS já abriu caminhos importantes ao tornar exposições imersivas mais acessíveis ao público", depõe o diretor da Luzzco, que já trouxe a mostra "Oceano Vivo" a Fortaleza.
A artista e pesquisadora Taís Monteiro conta que a criação de obras imersivas "revela uma dimensão laboriosa da prática artística". "Trata-se de um tipo de obra que exige do artista conhecimentos específicos de mapeamento, edição, calibragem de imagem e compreensão da proporção e das condições espaciais, de modo a viabilizar a inserção da obra em ambientes dotados de elevada complexidade técnica", define.
Na produção, o diretor da empresa paraibana de arte imersiva Luzzco, Jader França, destaca a demanda por projetores de alta resolução, sistemas de áudio, equipes de desenvolvimento 3D, motion design, roteiristas e produção técnica. Ainda assim, seu maior desafio é o equilíbrio: "O uso da tecnologia precisa amplificar a arte, e não competir com ela. Isso exige pesquisa, curadoria cuidadosa e um estudo profundo de linguagem".
A obra imersiva "convida o artista a pensar menos em produzir imagens e mais em produzir condições de percepção, abrindo novas possibilidades para narrativas sensíveis, políticas e experimentais", diz o curador Silas de Paula, salientando o papel de atrair públicos historicamente afastados dos museus para o MIS, onde a infraestrutura propicia a espacialização de som e imagem.
Em seus anos de experiência no mercado, Jader identifica uma evolução do formato: "No início, o foco estava muito concentrado na tecnologia. Hoje, o centro da experiência está na narrativa, no conteúdo e na vivência do público".