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Por que eu sei disso?
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Por que eu sei disso?

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Escrevi num bloco de notas adesivas amarelas, há dez anos, a frase "lembrar de não esquecer" em letras garrafais, com uma caneta porosa cor-de-rosa choque, e deixei colada por muito tempo à altura dos meus olhos. Era para ser apenas algo decorativo, e talvez eu tenha, sem perceber, internalizado a ideia por trás da frase. Me apego a essa imagem como se fosse um evento mágico, para florear algo que não tem nem razão. É óbvio que não foi isso. Definitivamente, não posso responsabilizar um post-it colado num móvel.

Costumo lembrar de informações, endereços, datas e rostos específicos. São dados que talvez não precisassem ocupar tanto espaço no meu cérebro. Comentei com minha prima que um amigo do Ensino Médio faria aniversário no dia 16 de janeiro, no mesmo dia do aniversário de uma amiga nossa de infância, que eu não vejo há pelo menos uns 13 anos. Por que eu sei disso? Às vezes é sobre reconhecer alguém num restaurante e lembrar que aquela mesma pessoa já tinha me atendido em outros dois lugares, em anos diferentes. Ou perceber que uma amiga faz aniversário na mesma data que um ex-prefeito de Fortaleza. Ou mesmo ter decorado que faço aniversário na data do casamento de um dos editores-chefes deste jornal. De novo: por que eu memorizei isso? Não sei.

Guardo informações aleatórias que surgem do nada em uma conversa casual, e a pessoa fica com aquela cara de quem está pensando: "Como ela sabe?". Foi ela mesma quem falou, e não contava que eu fosse lembrar de algo tão específico. Esqueço segredos, mas memorizo a cor da blusa que a pessoa estava usando enquanto conversávamos.

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Parada no sinal vermelho de uma avenida movimentada da capital cearense, vi um outdoor com o rosto de alguém que me parecia familiar. Passei o resto do trajeto inteiro pensando de onde eu a conhecia. Era simplesmente uma médica que me atendeu no primeiro semestre do ano passado.

Uma amiga disse que minha memória "é monstra". Outro dia, ela comentou que a mãe não morava mais em determinado endereço. Falei "eu sei" e enviei o nome da nova rua. Não lembrava o número (também assim já seria demais, fui lá uma vez há mais de um ano), mas lembrava de um ponto de referência. Antes mesmo dela me avisar, eu já tinha calculado o itinerário para encontrá-la por lá.

Já reconheci pessoas que pegavam o mesmo ônibus que eu em contextos diferentes. Ou que estavam na farmácia ou no supermercado em um dia aleatório, meses atrás. Encontrei alguém que estudou comigo na primeira série e nunca mais vi, e lembrei. Mais nova, eu ia até a pessoa e comentava, ofegante de empolgação, que eu a reconhecia. Por vezes, era um pouco constrangedor. Entendi que, em certos momentos, isso pode ser até assustador. Ia falar na intenção de demonstrar alegria por ter reconhecido, mas acabava espantando. Juro que não era minha intenção.

Hoje em dia tenho conseguido me controlar. Avistei um amigo de um amigo na academia, que encontrei uma vez no aniversário desse amigo em comum, e simplesmente não falei! Nada, silêncio. Olhei nos olhos dele, percebi que ele não me reconheceu, e segui minha vida. Sem perguntar: "Você é fulano, não é, amigo do cicrano?". Isso é um grande avanço.

Semana passada vi uma arte do Pedro Vinicio (@pedrovinicio80 no Instagram) que dizia: "Eu tenho um problema de memória/ Eu lembro demais". Talvez seja o meu caso. Em alguns dias, confesso que eu queria mesmo era não lembrar, desocupar minha mente, gerar mais espaço no "meu HD". Engraçado é que eu lembro disso tudo, mas, se me perguntam qual a minha idade, preciso ligar para o meu marido para saber em que ano eu nasci.

 

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