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Por que o Brasil ama Wagner Moura?
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Por que o Brasil ama Wagner Moura?

Sob os holofotes do mundo pelo papel em "O Agente Secreto", Wagner Moura atinge o povo brasileiro num lugar de conforto e inquietação - e é por isso mesmo que é amado
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Brazilian actor Wagner Moura attends the 98th Oscars Nominees Luncheon at the Beverly Hilton hotel in Beverly Hills, California on February 10, 2026. (Photo by Frederic J. Brown / AFP) (Foto: FREDERIC J. BROWN/AFP)
Foto: FREDERIC J. BROWN/AFP Brazilian actor Wagner Moura attends the 98th Oscars Nominees Luncheon at the Beverly Hilton hotel in Beverly Hills, California on February 10, 2026. (Photo by Frederic J. Brown / AFP)

"Pra todo mundo no Brasil assistindo isso agora", dedicou comovido no 83º Globo de Ouro, erguendo o troféu como se fosse uma taça da Copa do Mundo - de certa forma, era mesmo. Aos 49 anos, ali num palco tão cobiçado por Hollywood, Wagner Moura sabia muito bem que quem estava do lado de cá, assistindo nas telas de telefones, computadores e televisões, conhecia ele de tantos outros Carnavais.

Embora esteja já há mais de 10 anos trilhando uma carreira internacional - vivendo de Pablo Escobar a espião cubano e o lobo do Gato de Botas - parece até coisa do destino que seu momento de maior celebração lá fora esteja acontecendo agora com um filme nordestino, falado em português, sobre a memória do seu próprio país.

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Em "O Agente Secreto", como um professor universitário em fuga durante a ditadura militar, Wagner empresta o peso da sua conexão com o público brasileiro ao mesmo tempo que é generoso para deixar o grande elenco brilhar: Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Robério Diógenes e Hermila Guedes desfilam ao redor enquanto ele observa, inquieto - contenção cirúrgica que lhe rendeu uma histórica indicação ao Oscar de Melhor Ator. Mas de onde vem mesmo essa conexão? Por que o brasileiro bate o olho na tela e já entende que é ele mesmo que está ali? Ao tentar decifrar isso, inclusive perguntando às pessoas quais suas memórias mais fortes do ator, a conclusão foi mais caótica: é uma paixão sem unidade.

Quem é Wagner Moura?

Se no começo dos anos 2000, ele era uma presença mais efêmera na TV, participando de programas como "A Grande Família", "Carga Pesada" e "Sexo Frágil", na segunda metade a conversa ganha camadas até hoje indecifráveis. Em 2007, o meteoro "Tropa de Elite" atingia o Brasil para nunca mais ser esquecido, fazendo o Capitão Nascimento preencher o imaginário coletivo de forma tão contundente ao ponto de criar uma cisão sem cicatriz. Wagner sempre refutou a figura de "herói" atribuída ao policial, apesar da apropriação por parte de setores da direita armamentista e punitivista no País - o que nunca adiantou muito porque depois que os filmes existem, o público faz o que quiser com eles.

Embora esse público hoje possa ter repulsa à posição progressista do ator, dificilmente alguém seria capaz de negar seu talento. Quando lembro que o filme venceu o prêmio principal do Festival de Berlim 10 anos depois que "Central do Brasil" havia se tornado o primeiro brasileiro a ganhar, penso se não é um delírio. Volto sempre na página do festival para confirmar - afinal, uma ação policial tão violenta vencendo de Paul Thomas Anderson parece "Coringa" vencendo Veneza em 2019 com júri da Lucrécia Martel.

E não foi a única relação de amor e ódio que os brasileiros tiveram com Wagner Moura naquele ano. Alguém esqueceu o Olavo da novela "Paraíso Tropical", um trambiqueiro rico que, de repente, se vê apaixonado por uma garota do calçadão? Mesmo tão explícita e vulgar, sua declaração de amor é daquelas frases que vira e mexe está sempre de volta pela internet, inclusive agora que ele está em campanha nos EUA: "Você é a cachorra mais burra daqui desse calçadão, porque só você não viu ainda que eu amo você também, sua cachorra, sua piranha, sua bandida".

Em 2007, outro clássico moderno ganhava a luz do dia: "Saneamento Básico", de Jorge Furtado, comédia fascinante em que Wagner faz parte de uma comunidade que precisa fazer um filme para salvar a cidade - parece até uma sátira sobre o funcionamento dos editais públicos de cinema no Brasil. É um longa simples, mas que nunca saiu de moda - em 2025, chegou a ser relançado nos cinemas na mesma semana que "O Agente Secreto" abalou no Festival de Cannes, onde Wagner se tornou o primeiro brasileiro a vencer o prêmio de Melhor Ator.

Se tudo isso já não fosse o suficiente para um mesmo ano, também foi lá que conhecemos o Boca de Wagner em "Ó Paí, Ó", de Monique Gardenberg, com uma participação inesquecível ao lado de Lázaro Ramos nas ladeiras do Pelourinho, na Bahia, seu estado natal.

Quando perguntei às pessoas sobre a memória mais antiga que tinham de Wagner Moura, as respostas mais repetidas rodeavam esse mágico ano que consolidou um ator tão versátil sem que isso, na época, parecesse grande coisa. O brasileiro construiu uma relação de familiaridade tão natural com o baiano, e vinda de direções tão diferentes, que talvez nunca tenhamos, de fato, parado para nos dar conta do seu tamanho e do tanto que ele se parece com a gente.

Nos anos seguintes, a estrada continuou traçando rotas imprevisíveis que outros atores populares não se atreveriam. Na minha cabeça, a primeira coisa que me vem é ele cantando "Tempo Perdido" na cena emblemática da comédia "O Homem do Futuro" (2011), em que ele interpreta um cientista brilhante forçado a reviver traumas da juventude. Eu olhava na tela, via aquele nerd bobíssimo, e não encontrava uma centelha sequer daquele policial bruto de 2007.

Em 2014, ele veio parar no Ceará sob as mãos de Karim Aïnouz em "Praia do Futuro", um drama totalmente distante de tudo o que ele já tinha feito, congelante e melancólico. Só porque ele transava com outro homem, alguns cinemas colocaram avisos na bilheteria para que o espectador conservador fosse por sua conta e risco. Há 12 anos isso era mesmo uma questão, acredite, e Wagner estava lá.

No dia 15 de março de 2026, data que está prevista a cerimônia da 98ª edição do Oscar, é claro que o Brasil quer vê-lo naquele palco para celebrar "O Agente Secreto" e a revanche de um país mal resolvido com seu passado ditatorial, para ver o cinema brasileiro ser alçado ao posto mais alto da cinefilia americana, mas a razão mais crua, até mesmo no campo mais irracional daqueles que nem pensam nisso, é que o Brasil ama Wagner Maniçoba de Moura.

 

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