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Reportagem Especial

O fenômeno chamado Juliette Freire em que empresas podem (e devem) se espelhar

Considerada injustiçada por parte do público que a vê como favorita a levar o prêmio de R$ 1,5 milhão, a paraibana tem na autenticidade, no carisma e no trabalho de marketing seus principais aliados – dentro e fora da casa. Advogada e maquiadora, Juliette arrasta milhões de seguidores nas redes sociais

O fenômeno chamado Juliette Freire em que empresas podem (e devem) se espelhar

Considerada injustiçada por parte do público que a vê como favorita a levar o prêmio de R$ 1,5 milhão, a paraibana tem na autenticidade, no carisma e no trabalho de marketing seus principais aliados – dentro e fora da casa. Advogada e maquiadora, Juliette arrasta milhões de seguidores nas redes sociais
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Foi-se o tempo em que assistir Big Brother Brasil seria considerado uma “perda de tempo”. A edição deste ano do reality show da TV Globo, ao contrário, tem se mostrado um verdadeiro laboratório para as coisas reais que acontecem no mundo longe das câmeras e do confinamento.

Afora as discussões sociais levantadas, como cancelamento, racismo, machismo e xenofobia, o programa tem proporcionado aprendizados para o mundo dos negócios. E exemplo dado e a ser seguido por empresas e pessoas que se aventuram nas redes sociais é o fenômeno chamado “Juliette Freire”.

Paraibana de 31 anos, a participante foi a que mais cresceu aqui fora enquanto participava do programa, alcançando marcas que impressionam. Aproximando-se a grande final, aqui fora ela conseguiu contratos importantes e uma legião de mais de 21 milhões de seguidores – isso só no Instagram.

Advogada e maquiadora, Juliette arrasta milhões de seguidores nas redes sociais(Foto: Divulgação )
Foto: Divulgação Advogada e maquiadora, Juliette arrasta milhões de seguidores nas redes sociais

Queridinha do grande público para levar o prêmio de R$ 1,5 milhão, Juliette tem a seu favor fatores como carisma e excelente trabalho de marketing digital que podem ajudar a explicar parte de seu sucesso obtido. O POVO conversou com especialistas que tentaram decifrar esse fenômeno, no qual empresas podem (e até devem) se espelhar e inspirar.

 


 

 Autenticidade dentro e fora da casa 

 

Quando Juliette ainda tinha “apenas” 18,9 milhões de seguidores no Instagram, a reportagem conversou com Carol Mello, estrategista de comunicação digital.

Carol Mello, estrategista de comunicação digital e mentora de negócios(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Carol Mello, estrategista de comunicação digital e mentora de negócios

Foi na tarde da terça-feira, 6 de abril, mesmo dia em que os números foram arredondados para 19 milhões e um dia depois que Juliette fechou contrato com uma agência de comunicação da cantora Anitta. Atualmente já são quase 22 milhões.

Esse crescimento rápido e constante talvez sequer tenha sido imaginado pela própria Juliette antes dela entrar no BBB 21, em 25 de janeiro, porém, é certo que foi minimamente planejado.

Advogada e maquiadora, a paraibana tem uma característica muito buscada no mercado das redes sociais e de marketing digital: a autenticidade. De acordo com Carol Mello, que também é mentora de negócios, a forma como Juliette se mostra dentro do jogo, lhe ajuda a crescer fora dele.

“Ela é tudo isso que a gente apresenta como um conteúdo ideal. Desde o início ela nunca abriu mão de sua essência. Ela se posiciona de uma forma que muitas pessoas se identificam, apresentando suas questões de maneira leve e com clareza, não tentando se sobressair dentro das confusões”, afirma.

Pelas exigências de mercado atualmente, Carol explica que é possível uma marca se ancorar em suas “verdades e essências” para conquistar clientes – ou até mais do que isso.

 

"A Juliette não ganhou somente seguidores, mas também muitos fãs. E as marcas precisam lutar para isso acontecer. É igual um time de futebol, que pode jogar mal, perder, mas seus torcedores sempre vão defendê-lo, vestir a camisa, vão para as redes sociais defender seu time" Carol Mello, estrategista de comunicação digital

 

Carol ainda completa, mencionando a importância das empresas se enxergarem como parte de algo maior e que, por mais especializada que seja, precisa procurar parcerias. “Hoje não dá para viver sozinho para você crescer dentro do mercado”, aponta.

 


 “Juliette passou a carregar a esperança da superação” 


Ligia Sales é jornalista formada pela UFC, com mestrado em Semiótica pela PUC-SP e pesquisadora de neuromarketing(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Ligia Sales é jornalista formada pela UFC, com mestrado em Semiótica pela PUC-SP e pesquisadora de neuromarketing

O favoritismo e o sucesso de Juliette Freire talvez possa ser explicado também com aquilo que há no interior das pessoas: a perspectiva de reconhecimento e de recompensa futura.

Sofrendo com as relações dentro da casa, Juliette é vista por parte do público como injustiçada, mas que ainda assim consegue se sobressair em meio às dificuldades.

Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com mestrado em Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ligia Sales destacou em um artigo alguns pontos que podem explicar “o fenômeno social por trás de Juliette”.


 

 Uma dose de otimismo 

Por Lígia Sales*

Juliette Freire é o nome da nordestina que já tem um dos maiores engajamentos já visto nas redes sociais e contratos publicitários que devem superar o prêmio de 1,5 milhão de reais do programa que está participando.

Se você não se rendeu à programação televisiva que está ocupando o tempo e a mente de milhares de brasileiros em mais um ano atípico de pandemia, posso lhe explicar o fenômeno social por trás de Juliette.

Desde que o homem pré-histórico passou a contar suas experiências de caça ao redor das fogueiras e usar este momento de socialização para construir memórias orais, podemos observar uma necessidade de reconhecimento e legitimidade social como uma das nossas necessidades primordiais.

 


Nosso corpo e mente foram criados para viver em grupo, para sobreviver através das relações sociais e com grande necessidade de reconhecimento. A questão é que esta validação, muitas vezes, depende da realização de grandiosos feito, reforçando a ideia de aquele grupo é capaz de sobreviver aos infortúnios da vida.

Ao longo de gerações, fomos levados a crer que toda a nossa jornada de vida implica, também, na descoberta de aspectos heroicos em nossas atitudes. Aspectos estes que serão capazes de nos transformar enquanto indivíduos e de mudar a realidade de quem está ao nosso redor.

Os enredos das peças gregas e os roteiros de Hollywood deixam claro o que sempre foi uma necessidade de sobrevivência emocional nossa: a de sermos salvos.

 


Nosso cérebro sempre teve a clara percepção desse objetivo e por isso mesmo sempre buscou nas relações culturais, políticas e midiáticas a redenção que a presença de um super-herói ou super-heroína pode nos trazer.

E o que tudo isto tem a ver com o reality Big Brother Brasil em 2021? Absolutamente tudo.

O filósofo e sociólogo Edgar Morin explica bem essa questão quando se refere ao Olimpianos. O termo vem dos habitam o Olimpo ( Monte Olimpo), que é a mais alta montanha da Grécia e na mitologia grega refere-se à morada dos Deuses do Olímpio.

Morin explica que os Olimpianos são os indivíduos promovidos a heróis, vedetes, um misto de humano e sobre-humano. Conforme os termos do filósofo, os “olimpianos são sobre-humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam".

 


Sendo assim, Juliette e tantos outros que surgem em meio a uma sociedade sedenta por legitimidade e validação social, com as mentes isoladas dentro da sua própria aglomeração social, têm um duplo papel. São ao mesmo tempo mitológicas e humanas.

Essa dupla identidade surge como resultado do que precisávamos. Veja o caso de Juliette e o contexto de um país desolado com o golpe de 3 mil pessoas morrendo por dia. A sensação de caos que a falta de comandos políticos claros deixou, gerou a falta de credibilidade de uma nação que busca "alguéns" a quem recorrer.

Sendo assim, alguém que tenha carisma, além de ser uma representação fiel de tudo aquilo que nos gostaríamos de ser/ter se materializa na imagem de uma participante de um programa de TV.

De repente, tudo fica muito claro. Juliette passou a carregar a esperança da superação das dificuldades sem fim vividas pela pandemia. É o alento e riso triste que consola nas horas em que a realidade da falta de dinheiro, vacina e saúde falam alto.

 


Os números de engajamento de Juliette mostram o poder do carisma e credibilidade que a jovem nordestina, subestimada e valente é capaz de ter. E nosso cérebro sente prazer em premiar quem achamos que se parece conosco e que, de certa forma, nos identificamos.

Juliette nem imagina o futuro promissor que a aguarda quando sair da "casa mais vigiada do Brasil". Esta é a grande reviravolta e final feliz que estamos ansiosos por ver se realizar. Depois de tanto sofrimento, uma merecida e grande recompensa.

Gosto de pensar que talvez a nossa vida também seja como a da narrativa de Juliette. E que, assim como ela, também nem podemos imaginar o futuro promissor que nos aguarda quando "tudo isso passar".

No fundo, somos grandes otimistas. 

* Lígia Sales é jornalista formada pela UFC, consultora de marketing sócia da Ankron Digital, professora mestre em Semiótica (PUC-SP) e pesquisadora de neuromarketing.

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