Reportagem Seriada

Leituras de Clarice

Literatura que transborda. Os textos de Clarice Lispector reverberam em múltiplas leituras. Nesta reportagem, a poeta e pesquisadora Patrícia Lino fala sobre o impacto de Clarice sobre seu trabalho. A bailarina Andrea Bardawil conta em artigo como transformou a escritora em inspiração para a dança e um grupo de leitores escolhe trechos de Clarice para homenageá-la.
Episódio 2

Leituras de Clarice

Literatura que transborda. Os textos de Clarice Lispector reverberam em múltiplas leituras. Nesta reportagem, a poeta e pesquisadora Patrícia Lino fala sobre o impacto de Clarice sobre seu trabalho. A bailarina Andrea Bardawil conta em artigo como transformou a escritora em inspiração para a dança e um grupo de leitores escolhe trechos de Clarice para homenageá-la. Episódio 2
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"Clarice ensina-nos que a aula de literatura é um lugar onde nos arriscamos permanentemente". Patrícia Lino é poeta e professora de literatura luso-brasileira na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA). Doutorou-se com uma tese sobre poesia brasileira interdisciplinar em 2018 pela University of California, Santa Barbara. Publicou, expôs e apresentou poemas, ensaios e ilustrações em Portugal, no Brasil, em Espanha, nos Estados Unidos, no México e na Colômbia. E aprendeu, com Clarice Lispector, a ler como quem deslê. Ao O POVO, a pesquisadora abordou a magnitude de Clarice também no exterior.

Patrícia Lino é poeta e professora de literatura luso-brasileira na UCLA. Doutorou-se com uma tese sobre poesia brasileira interdisciplinar em 2018 pela University of California, Santa Barbara. P
Foto: Divulgação
Patrícia Lino é poeta e professora de literatura luso-brasileira na UCLA. Doutorou-se com uma tese sobre poesia brasileira interdisciplinar em 2018 pela University of California, Santa Barbara. P

O POVO: Patrícia, como se iniciou sua relação com a escritora Clarice Lispector? Você lembra como a conheceu, qual o primeiro livro lido?

Patrícia Lino: Li Clarice Lispector pela primeira vez aos 18 anos. A Maçã no Escuro. Era, em 2008, um dos seus únicos livros editados em Portugal. O encontro foi de tal modo extraordinário para mim que, poucos dias depois, terminei de ler todos os seus contos e dei um jeito de encontrar outros dos seus romances. Os mais impactantes, até hoje, continuam sendo A Paixão Segundo G.H. e Água Viva. As primeiras leituras, que me levariam a ler toda a sua obra logo depois, conduziram-me até ao primeiro dos trabalhos em comunidade que organizei. O Projeto Clarice, que tinha como objetivo central divulgar a obra de Clarice Lispector, aconteceu ativamente entre 2008 e 2012, e, desdobrando-se em aulas, curtas-metragens, desenhos, performances, sessões de leituras e palestras, integrou participantes de mais de 30 cidades portuguesas, brasileiras e uruguaias.

Estas atividades, que aconteceram em várias Universidades, escolas, associações culturais, livrarias e ruas portuguesas, brasileiras e uruguaias, conjugavam várias formas de expressão, técnicas e materiais com o propósito único de dar a ler os seus textos a públicos de todas as idades, formações e contextos sociais. Conheci e interagi com muitas centenas de pessoas durante o processo. O meu primeiro encontro com ela foi explosivo.

 

A linguagem clariceana, em particular a dos seus textos mais extensos, desmantela, sem aviso prévio, a estrutura tradicional do romance — desde dentro, subvertendo as regras e o seu funcionamento. Apanha-nos de surpresa, porque expõe, de modo absolutamente desarmante, as nossas vulnerabilidades.

 

OP: Os sintagmas de Clarice são muito fortes e também muito delicados. Enquanto leitora, o que mais te mobiliza na linguagem da autora? Quais livros mais te afetam?

Patrícia: A linguagem clariceana, em particular a dos seus textos mais extensos, desmantela, sem aviso prévio, a estrutura tradicional do romance — desde dentro, subvertendo as regras e o seu funcionamento. Apanha-nos de surpresa, porque expõe, de modo absolutamente desarmante, as nossas vulnerabilidades. Clarice fala a língua do pensamento, também a partir dos animais, das crianças e dos objetos, e escapa a qualquer discurso institucional — inclusive, à própria literatura. Lê-la é automaticamente desler. Um precipício de indagação e, ainda assim, suportável.


OP: O interesse pela obra da escritora brasileira cresce no exterior — além das traduções da obra, Clarice está presente também nas salas de aula. Como você aborda Clarice em seu trabalho, Patrícia? Como a autora contribui na construção da teoria literária?

Patrícia: Clarice tem vindo a ser cada vez mais lida em nível internacional desde dos anos 2000. Costumo, quase sempre, incluir os seus textos em praticamente todas as aulas de literatura que ensino. Mas não sei se é possível ensinar os seus textos.

 

Isto significa que Clarice também põe em causa o cânone, sobre o qual se baseou, obviamente, a mesma estrutura tradicional da aula de literatura. Ao dilacerar o cânone masculino, genial e classista, Clarice faz com que questionemos praticamente tudo o que lemos até ali

 

O universo clariceano põe não só em causa o modo como se escreve sobre um texto literário, mas também o modo como se ensina um texto literário no espaço da sala de aula; e a própria aula tradicional de literatura. Uma autora como Clarice vira do avesso a estrutura descritiva, unilateral e impositiva da tradição. Ensina-nos que a aula de literatura é, mais do que um espaço onde escutamos passivas(os) a lição professoral, um lugar onde, de modo voluntário, nos arriscamos permanentemente. Toda a boa aula de literatura deveria abrir com uma nota similar àquela que abre A Paixão.

Isto significa que Clarice também põe em causa o cânone, sobre o qual se baseou, obviamente, a mesma estrutura tradicional da aula de literatura. Ao dilacerar o cânone masculino, genial e classista, Clarice faz com que questionemos praticamente tudo o que lemos até ali e consideremos outras formas, princípios, abordagens e um modo mais generoso de estar e existir no mundo. Tudo é questionável, até (e sobretudo) o poder.

 

"Sou palavra e também seu eco"

 

No centenário de nascimento de Clarice Lispector, leitores da sua obra partilham leituras de trechos de seus livros favoritos. Tatuam o ar com palavras de quem tanto inventou modos de dizer e revelar paisagens interiores. Participam Sara Síntique, Natália Pinheiro, João Paulo Lima, Raisa Christina, Fabiano Piúba, Natércia Rocha, Goreth Albuquerque, Paula Yemanjá, Andrea Bardawil, Edgar Silva, Maíra Ortins e Talles Azigon.

 

 


 A dança de Clarice

       Por Andrea Bardawil (*)   

Andréa Bardawill, coreógrafa(Foto: Fco Fontenele)
Foto: Fco Fontenele Andréa Bardawill, coreógrafa

"Aprender de si, como se aprende uma dança. Lançando-se no espaço, o corpo esculpindo o ar. Aprender com o outro, como se aprende uma dança: lançando-se no espaço. Os corpos esculpindo o ar, o mar. Aprendendo os espaços como quem aprende uma dança. Aprendendo uma dança como quando se aprende a amar". (Trabalho livremente inspirado na obra Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector).

Assim apresentei o espetáculo A Dança de Clarice, em 2000, na mostra realizada pelo Colégio de Dança do Ceará, como aluna-coreógrafa, e depois na Bienal Internacional de Dança do Ceará. Em 2001, incluímos o espetáculo na mostra de 10 anos da Companhia da Arte Andanças.

Na cena: uma mulher, um homem e seus duplos. (Janahina Cavalcante, Isabel Botelho, Milton Paulo e Acleilton Vicente; posteriormente, Márcio Slam e Possidônio Montenegro). Compondo com o silêncio, "Little Girl Blue" em duas vozes, Nina Simone e Chet Baker; texturas distintas de movimento marcavam a composição coreográfica. A respiração entrecortada, os gestos fragmentados e ansiosos de Lori, alternando-se com a continuidade lenta e contemplativa de Ulisses. Que equilíbrio é possível, a partir do encontro? Como encontrar uma possibilidade de sustentação mútua, em movimento? Foi assim que escolhi mergulhar na história de amor de Lori e Ulisses, traduzindo-a em dança.

 

Costumo dizer que não lemos Clarice, somos possuídos por ela. Nossa respiração perde qualquer autonomia; de repente, respiramos por ela, do jeito que determina o texto-carne. A racionalidade é incapaz de sustentar uma leitura larga.

 

Na história de Lori e Ulisses, o miúdo de cada rotina, os pequenos gestos, as epifanias cotidianas. Um mundo imagético de intensidades e delicadezas: a maçonaria do silêncio, o cavalo lustroso, o mar, a folha que cai, o tigre ferido...figuras que se alternam num processo autopoiético de reinvenção, de si e do mundo. Cada susto é prenúncio de um espaço interno alargado. Ainda que com alguma dor, porque "a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isso pela primeira vez". Mas experimentando também a alegria de um estado de graça. Afinal, "que ela não esquecesse que a subida mais escarpada e à mercê dos ventos, era sempre sorrir de alegria".

 

Foi com Clarice que me constituí mulher. Li tudo. Chorei, morri, matei, nasci. Com ela aprendi muito sobre movimento e respiração, sobre texturas, sobre pausas, sobre silêncios, e minha dança se faz com tudo isso. Aprendi sobre o que não se pode dizer, o imanifestado.

 

Costumo dizer que não lemos Clarice, somos possuídos por ela. Nossa respiração perde qualquer autonomia; de repente, respiramos por ela, do jeito que determina o texto-carne. A racionalidade é incapaz de sustentar uma leitura larga. Ou a leitura é sensorial, fenomenológica, quase psicográfica, ou não é. De corpo inteiro, pressentimos o assombro. Arquejamos e seguimos. O ritmo não é linear, mas tem um ritmo, tem um ritmo...isso é dança.

Foi com Clarice que me constituí mulher. Li tudo. Chorei, morri, matei, nasci. Com ela aprendi muito sobre movimento e respiração, sobre texturas, sobre pausas, sobre silêncios, e minha dança se faz com tudo isso. Aprendi sobre o que não se pode dizer, o imanifestado. Sobre fantasmagorias. Aprendi que "a vida é sobrenatural". Aprendi que "viver ultrapassa qualquer entendimento". Aprendi que "pensar é um ato, sentir é um fato". E aprendi que "em matéria de viver, nunca se pode chegar antes".

Andréa Bardawil é coreógrafa, diretora da Cia. da Arte Andanças e arteterapeuta

 

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