Reportagem Seriada

A literatura como expressão de pertencimento

Escritores relembram movimentos literários cearenses e detalham como reescrevem suas histórias a partir da conexão com o Ceará
Episódio 2

A literatura como expressão de pertencimento

Escritores relembram movimentos literários cearenses e detalham como reescrevem suas histórias a partir da conexão com o Ceará Episódio 2
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A doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Fortaleza (UFC), Aíla Sampaio, estuda o campo das letras cearenses e há cinco anos começou a pesquisa para o livro "Literatura no Ceará", lançado em 2019. A iniciativa foi inicialmente idealizada para o projeto Pajeú, coordenado pelo poeta Gylmar Chaves em parceria com a Secretaria de Cultura da Prefeitura de Fortaleza, mas acabou sendo viabilizado pelo Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (INESP).

A obra busca traçar os principais movimentos literários desde o século XIII aos dias atuais em Fortaleza, como a formação de coletivos e agremiações. "Creio que as publicações em grupo se tornavam mais viáveis, não era fácil publicar. Essa literatura de mutirão fortaleceu as nossas letras e fez surgirem nomes definitivos na história da nossa literatura", ressalta. Para a pesquisa, ela utilizou jornais, revistas, livros, blogs e a conversa com críticos literários, professores e escritores. "Juntei as informações e organizei os capítulos de modo a catalogar todos os movimentos em torno da literatura em nosso estado: saraus, concursos literários, clubes de leitura, academias, revistas, jornais, associações, etc", explica.

Na contemporaneidade, a digitalização é um fator aliado na continuidade de movimentos literários. Apesar do recesso provocado pela pandemia, Aila afirma que o Ceará continua "efervescente em produções literárias" por meio dos grupos de leitura, das reuniões virtuais e dos saraus, por exemplo. O crescimento das redes sociais aumenta a visibilidade de novos escritores e fortalece a comunidade cearense. "Aumentou muito o número de booktubers e de blogueiros de literatura, isso é muito bom", analisa.

 

 

O mundo a partir de Varjota

 

"A produção literária no Ceará está acontecendo, há uma leva muito massa da literatura independente, a gente tem um conjunto de editoras surgindo com trabalhos editoriais fantásticos, a gente está conseguindo acompanhar o que o mercado está fazendo", sinaliza o escritor, ator e produtor cultural Mailson Viana, natural de Varjota, no Ceará. Foi neste município onde o artista pôde entrar em contato com a música, que o levou a conhecer a poesia, linguagem que o acompanhou até mesmo durante o início no teatro nos anos 2000. "Misturou tudo, o teatro com as referências literárias, outras musicais, e acabou por formar um combo só", relembra.

Após um período de idas e vindas até Fortaleza para concluir a faculdade, Mailson voltou em 2014 para Varjota e decidiu avaliar seus trabalhos e carreira. "Aconteceu de surgir algumas questões de vontade de pesquisa aprofundada, dentre elas essa vontade mais pessoal de encontrar respostas sobre minha genealogia", explica. O que começou como uma investigação familiar para ser discutida em roda de conversa entre amigos, acabou esbarrando em histórias sobre o folclore local, a sociedade e as narrativas da cidade. "Quase dois anos depois dessa pesquisa, aconteceu por um poema inteiro sair de uma vez", conta.

O poema único se tornou o livro "À Cidade" (2017), obra vencedora das categorias "Livro do Ano" e "Melhor Livro de Poesia" no Prêmio Jabuti de 2018. "Ele talvez seja meu primeiro grito sobre esse lugar sem eu dizer, apesar de falar da cidade, o termo só entra uma vez no livro e quando entra é para negar. Acredito que tenha ficado um pouco mais amplo, não apenas na cidade restrita ao seu território, mas buscando enxergar para além o mundo em si a partir daquilo", explana Mailson.

A relação de Mailson com Varjota, sua cidade natal, mudou após a publicação de "À Cidade". (Foto: AURELIO ALVES)
Foto: AURELIO ALVES A relação de Mailson com Varjota, sua cidade natal, mudou após a publicação de "À Cidade".

A partir dos relatos, documentos e registros resgatados durante a pesquisa sobre os habitantes e seus costumes, o escritor mudou o seu entendimento sobre o local. "A gente vive o Nordeste, o Ceará, como viés a partir do estéreo, do seco, quando na verdade eu sempre pensei nesse espaço que é fator de água, em Novembro o rio está correndo pela barragem. Modificou a minha relação de ver que o Nordeste vive, entendi também esse ponto fundamental de enxergar o mundo a partir daqui", comenta.

Após o sucesso do Jabuti, Mailson se viu em posições que pareciam distantes para autores do interior do Estado. O entendimento de que os prêmios, as entrevistas, os eventos e acontecimentos especiais só teriam importância em capitais dissipou, afinal, "o mundo é para todo mundo". É necessário, de acordo com o artista, "afirmar esse lugar enquanto interior de Brasil, do Ceará, isso aqui é vida real também", pontua.

Para que seja cada vez mais possível exportar ideias é necessário melhorar a lógica editorial de livros no Ceará, principalmente em lugares mais afastados dos grandes centros. “É muito difícil a distribuição, chegar nos jornais, tem a dificuldade de encontros, de eventos para além da Capital, e infelizmente algumas casas institucionais são muito fechadas em um espaço que não leva a lugar nenhum", ressalta Mailson. Apesar desses entraves, ele insiste no movimento literário local firme e contínuo em várias frentes.

O autor define sua perspectiva como otimista e mostra que a literatura cearense nunca esteve em um momento tão proveitoso. "A gente está em um momento muito plural em temática, e acho que isso é uma das grandes imagens da produção contemporânea geral. Não tem como a gente cravar um ponto como aconteceu no fim do século 19, que era seca, falando da terra, do Ceará enquanto espaço geográfico, não falar dos humanos, das pessoas que estão ali. Tem uma galera que produz algo voltado para o existencial, há um movimento de uma poesia mais política e outros voltados para a pesquisa histórica", enumera.

 

 

O olhar sob as pequenas mortes cotidianas

 

Foi na era digital, em meio a uma pandemia e por meio da venda independente, que a escritora Lorena Portela emplacou o livro "Primeiro Eu Tive Que Morrer", lançado em setembro de 2020. O enredo parte da história de uma publicitária que, enfadada com o mercado de trabalho em Fortaleza, decide passar uma temporada em Jericoacoara, vila localizada a 300 km da Capital. Durante o período no litoral ao lado de outras mulheres, ela percorre questões individuais e coletivas.

Lorena Portela estreou com o romance "Primeiro Eu Tive Que Morrer". (Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Lorena Portela estreou com o romance "Primeiro Eu Tive Que Morrer".

"É muito gostoso você ambientar uma história num lugar e ter conhecimento sobre aquilo. Eu sempre tive muita inveja de ler livro e não me enxergar na história, como parte da minha vida. Eu sempre li livros em São Paulo, Nova York, Londres, as pessoas descreviam os lugares, eu queria que isso se passasse na minha cidade, que as pessoas fossem descrevendo e eu fosse me identificando", conta Lorena. A escolha de desenvolver a história no município litorâneo veio de um lugar de afetividade, já que é o local preferido da autora, que "se emociona" toda vez que está por lá.

Lorena mora há mais de cinco anos fora do país e começou a escrever o livro na Inglaterra, onde vive atualmente. "Primeiro Eu Tive Que Morrer" nasceu a partir de contos sobre histórias de amor com fortes relações entre as cidades. Em um dos textos, Jericoacoara aparece na história como um personagem. A narrativa, apesar de se passar em um local amado pela escritora e ter a influência de familiares e amigos - além das próprias vivências - não é uma biografia.

As personagens vivenciam juntas, na “áurea mística” da vila cearense, as pequenas mortes cotidianas pelas quais são acometidas. "A realidade do livro é muito parecida com a de todas nós, mulheres, são histórias com as quais você reconhece facilmente. Eu já me reconheci em muitos momentos em que essas mortes simbólicas foram determinantes na minha vida", conta. E esta é uma das principais ideias do livro: "durante a vida passamos por algumas mortes e elas não são o fim, elas abrem espaços para outras versões de nós mesmas", conta.

Em meio aos acontecimentos, surge a "coragem de amar", o medo das incertezas e a dificuldade do próprio reconhecimento. As figuras femininas, tão importantes no processo individual da autora, se tornam suporte no contorno das imprecisões. "É uma história "sobre amor, sobre mulheres, sobre a comunidade feminina, sobre nós, humanos", define Lorena.

 

 

Amor traduzido em línguas

 

“Cherrizinho” (2014), livro escrito por Martine Kunz, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), é um livro de amor. Fala sobre o relacionamento da autora com o produtor e gestor cultural Cláudio Pereira, um dos principais contribuidores das artes cearenses. Ao mesmo tempo em que explora a história de duas pessoas, separadas e em conjunto, também dedica uma parte a desvendar o amor por Fortaleza, cidade natal de Cláudio que acolheu a escritora recém-chegada de Grand-Fort-Philippe, na França, no início dos anos 1970.

Já no capítulo de introdução, Martine escreve que “teria sido impossível amá-lo sem amar Fortaleza” porque o seu amor pela cidade e sua gente foi uma constante. "Fortaleza é a personagem de nossa história, pois ela era presença permanente nas ações dele. Ele conhecia, festejava e pensava a cidade. Amou, rodou, bebeu, cantou, madrugou e sempre serviu sua cidade", comenta. Ao lado do gestor cultural, relembra Martine, ela se sentia, quase que naturalmente, cidadã de Fortaleza.

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O lançamento de "Cherrizinho", não por acaso, foi no dia 13 de abril de 2014, Dia da Cidade. Ela define o parceiro como "um ativista cultural, um espírito empreendedor" com entusiasmo e generosidade de sobra. "Que esse nome bonito, Cláudio Pereira, passe a designar um lugar vivo, útil à comunidade, um canto de convivência e esperança", deseja. No livro, a narradora se confunde com a autora, traz momentos ficcionais, relatos biográficos e fatos históricos, como as perseguições sofridas por Cláudio durante a ditadura militar no Brasil. "O livro é movência, idas e vindas, no tempo e no espaço, na memória e na imaginação", comenta Martine.

"Sou francesa e brasileira. Não estou de um lado ou outro da demarcação, estou cavalgando a fronteira." Martine Kunz, francesa, naturalizada brasileira, professora da UFC

A autora, francesa, é naturalizada brasileira desde 1991 e conta que nem pensou em escrever a obra em francês. As palavras deveriam ser escritas em português do Brasil, país onde mora há mais de quarenta anos. "Essa língua me pertence também, tanto quanto o país. É nessa língua que falava de amor com Cláudio e o livro foi uma maneira de abraçá-lo novamente. Língua é afeto, vida!", esclarece. E em construção de identidade, ela pensa em termos de adição, não de subtração. "Sou francesa e brasileira. Não estou de um lado ou outro da demarcação, estou cavalgando a fronteira. Vários lugares me constituem: Grand-Fort-Philippe, Paris, Calumbi, Fortaleza. Sou camembert e rapadura", declara.

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