Reportagem Seriada

Literatura contemporânea no mapa do Ceará

Nesta reportagem especial, o Vida&Arte mapeia obras literárias cearenses publicadas a partir dos anos 2000 e propõe reflexão acerca da construção de identidade
Episódio 1

Literatura contemporânea no mapa do Ceará

Nesta reportagem especial, o Vida&Arte mapeia obras literárias cearenses publicadas a partir dos anos 2000 e propõe reflexão acerca da construção de identidade Episódio 1
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 O escritor moçambicano Mia Couto fala que o pensamento, como toda entidade viva, nasce para se vestir de fronteiras. Entretanto, ele foi feito para superar esses limites e flertar com os sonhos conforme expande as experiências. Em meio ao distanciamento social imposto pela pandemia, o Vida&Arte propõe o cruzamento das demarcações físicas por meio de histórias literárias contemporâneas ambientadas no Ceará. Um possível caminho para repensar a relação humana com os lugares e o reconhecimento de identidade.

"A gente não consegue viver nenhum tipo de experiência estética se a gente não está inserido num espaço. A literatura, como qualquer arte, é espacial, ela está espalhada por onde a gente vive", explica o poeta Talles Azigon. O também produtor cultural aprofunda há anos a relação com Fortaleza, cidade onde nasceu e continua vivendo, através da literatura.

Os seus primeiros textos foram publicados em blogs, mas o formato se mostrou limitante. "Em algum momento eu pensei que se eu não circular dentro da cidade que eu estou, não vai adiantar nada eu ficar na internet. Foi aí que eu decidi ir atrás, fazer percursos", conta. A partir desses trajetos, Talles teve a oportunidade de aumentar seu repertório profissional. Ele participou do Coletivo Templo da Poesia; de mediações de contação de histórias e de vários saraus na Capital. "A cidade é como se fosse minha faculdade, meu curso de graduação contínuo. Eu tô sempre aprendendo com ela", destaca.

Talles iniciou sua carreira em blogs e hoje faz parte da editoria Substânsia. (Foto: FÁBIO LIMA/O POVO)
Foto: FÁBIO LIMA/O POVO Talles iniciou sua carreira em blogs e hoje faz parte da editoria Substânsia.

Criado “dentro de um bar” com referências de outras metrópoles, o poeta sentia a necessidade de retratar o que era visto e vivido. "Eu fiquei pensando porque as músicas não falavam sobre o Ceará? Eu decidi como uma atitude pensada de sempre escrever elementos de onde estou inserido", relembra. Oferecer uma perspectiva ampla das realidades na cidade é o foco da narrativa dos cinco livros do escritor, em especial o projeto “Saral”. "Eu vejo Fortaleza inteira na minha frente. Através da poesia, eu consigo dar uma outra perspectiva e não reproduzo o óbvio, a cidade é muito interessante, basta saber olhar", afirma.

Além das obras lançadas, o produtor cultural movimenta a cena literária local através de dois projetos: a biblioteca comunitária Livro Livre Curió, localizada no bairro Curió, e a editora de livros Substânsia, que surgiu a partir da vontade de aprimorar a qualidade gráfica dos livros cearenses “Ficávamos muito tristes com a qualidade gráfica dos livros do Ceará com uma produção literária tão boa. A gente resolveu fazer uma editora para oferecer livros de bons escritores do Estado em bons formatos”, explica.

Talles tem vasto repertório em contação de histórias e saraus em Fortaleza. (Foto: FÁBIO LIMA/O POVO)
Foto: FÁBIO LIMA/O POVO Talles tem vasto repertório em contação de histórias e saraus em Fortaleza.

A proposta de aproximar a leitura da escrita é uma alternativa para expandir a cena cultural de Fortaleza, cidade que dispõe de muita literatura. "Agora a gente tem possibilidades de fazer com que essa literatura possa ser circulada, pela internet, pelas coletâneas, saraus, eventos literários, clubes. Se a gente mantém programações de leitura, a gente faz com que mais pessoas escrevam, o que é interessante porque escrever é um reconhecimento de si mesmo", destaca.


 

A afetividade e os lugares

Criar senso de comunidade também é decisivo na construção da subjetividade. De acordo com Zulmira Bomfim, professora de Psicologia na Universidade Federal do Ceará (UFC), o ambiente, lugar e espaço é considerado uma extensão da identidade do indivíduo em vertentes psicológicas como a psicologia ambiental e a psicologia social. "O ambiente é uma dimensão importante para a construção da identidade, no sentido que o que eu sou é também os lugares que eu tenha passado, experienciado e vivido", explica. Isso pode ser relacionado ao microespaço, como a moradia, ou se expandir ao macro, em relação aos bairros, cidades e até mesmo à natureza. "Os lugares impregnam nossa existência, não dá para a gente falar de pessoas se a gente não falar de lugares", complementa.

"Tudo que eu faço num lugar vai mostrar sentimentos que me levam a processos coletivos, de posição coletiva." Zulmira Bonfim, professora de Psicologia da UFC

Um dos aspectos consideráveis para essa sensação de pertencimento é o afeto, nesse sentido visto como todo sentimento e emoção. "Não é só o amor, é também medo, indignação, insegurança, destruição. A gente chama de afetividade todo sentimento e emoção que pode nos potencializar baseado no conceito do filósofo Espinoza", continua. Os locais, que também são passíveis de afetividade, podem ser emancipadores e potencializar a ação humana ou, simplesmente, despotencializar comportamentos.

"Todos nós deveríamos ter o direito à moradia digna, alimentação digna, saúde, educação, uma cidade que eu possa me apropriar, que tenha uma equidade. Tudo que eu faço num lugar vai mostrar sentimentos que me levam a processos coletivos, de posição coletiva", explica. Essas condições determinam uma estima do ambiente que, consequentemente, influencia a participação comunitária e a sensação de identificação.

A estima de um local pode ser mensurada por representações simbólicas, como os mapas afetivos, trabalhados por Zulmira em cidades como Barcelona, Nova York e Fortaleza. Através dos relatos de cidadãos, os profissionais vão traçando um panorama da comunidade existente. "A gente avalia como as pessoas se sentem nos lugares, a gente faz a perspectiva da estima e a partir dessa estima a gente consegue avaliar as políticas públicas, que possibilidades a gente tem de envolvimento das pessoas nos lugares, se elas podem degustar os seus próprios direitos", esclarece.

A literatura, aponta Zulmira, é uma linguagem onde o escritor cria imagens. Os conceitos, formatos, aspectos da imaginação acessam outra visão dos lugares nos leitores a partir das características descritas. "As imagens acessam um pensamento social, a gente vai trabalhar com as dimensões, mitos, opiniões, representações", desenvolve. Uma cidade, por exemplo, "implica diversas formas de imaginação".

Consumir produtos, sejam eles livros, músicas, quadros ou qualquer outro meio de expressão artística, pode aumentar a estima social. "As pessoas quando valorizam um artista, é como se estivesse valorizando você, sua casa, seu Estado", complementa. A professora explica que, a partir da psicologia, a arte atinge um número maior de pessoas quando consegue "dialogar as questões mais locais em uma dimensão universal", o que tende a criar significados simbólicos.

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