Reportagem Seriada

Nordeste no destaque da volta do turismo

Neste primeiro episódio do especial Retomada do Turismo, O POVO mostra que a volta das viagens de lazer faz a aposta nos destinos brasileiros, com destaque para o Nordeste, tornar-se realidade, contribuindo para a retomada da economia local e nacional
Episódio 1

Nordeste no destaque da volta do turismo

Neste primeiro episódio do especial Retomada do Turismo, O POVO mostra que a volta das viagens de lazer faz a aposta nos destinos brasileiros, com destaque para o Nordeste, tornar-se realidade, contribuindo para a retomada da economia local e nacional Episódio 1
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Após o susto da segunda onda de Covid-19 entre fevereiro e março de 2021, as pessoas estão mais confiantes – seja pelo avanço da vacinação, da menor pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) ou a junção de tudo – e motivam a retomada da economia desde maio, quando as restrições voltaram à escala de seis meses atrás, tornando real uma previsão: a reabertura do turismo impulsionado pelos destinos nacionais e com o Nordeste em destaque.

A aposta de secretarias, ministérios e empresas é observada agora, depois de julho representar a volta de parte das pessoas às viagens.

Já em abril, a atividade turística no País saltava 73,6% sobre igual mês de 2020, reduzindo as perdas do setor para 20%, segundo indica o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em maio, quando companhias aéreas já anunciavam novos voos e aplicativos de hospedagem sinalizavam maior índice de ocupação nas férias, a atividade turística do País avançou 97% ante maio de 2020 – quando a abertura já tinha início –, puxada principalmente pelo desempenho dos estados nordestinos: no Ceará, esse percentual foi de 108,9%, enquanto Pernambuco (145,5%) e Bahia (180,9%) cresceram ainda mais.

Há quase um ano e meio sob rígidos protocolos sanitários e ameaça de lockdown sobre hotéis, pousadas e comércio, os brasileiros voltaram aos passeios e reativaram a aviação – um setor que, mundialmente, foi o primeiro a sentir o impacto da pandemia e está sendo o último a se reerguer.

Com isso, companhias aéreas e aeroportos já reconhecem o aumento da movimentação e apontam a tendência de destinos domésticos como realidade, afinal, o fluxo entre cidades brasileiras cresceu no último mês.

Um exemplo é que pegar um voo já não fazia parte da rotina da publicitária Mayra Menescal desde antes da pandemia, quando ainda estava grávida da Alice, de 2 anos.

Mas, depois de uma viagem familiar adiada por três vezes entre 2020 e 2021 por conta das condições de contaminação, ela, o marido, Daniel Basto, e a pequena embarcaram com pais, irmãos, avós e tios para São Luiz na penúltima semana de julho. O destino final? Lençóis Maranhenses.

 

 

Protocolos ainda deixam a desejar

Mayra e a família em muitas das lagoas dos Lençóis Maranhenses(Foto: Mayra Menescal/ Arquivo Pessoal)
Foto: Mayra Menescal/ Arquivo Pessoal Mayra e a família em muitas das lagoas dos Lençóis Maranhenses

De cara, a publicitária Mayra Menescal levou um susto já no aeroporto: “era incrível como as pessoas não respeitavam as normas de distanciamento e de uso de máscara, porque o indicado é a N95 e o pessoal usava somente de tecido ou apenas cirúrgica”.

De posse de álcool gel e as devidas máscaras, ela e a família seguiram nos 40 minutos de voo até a capital do Maranhão. De lá, após uma parada na casa do irmão, mais 4 horas de van e um pouco mais de 1 hora de barco.

A preparação de tudo aconteceu dois meses antes. A pesquisa por hospedagem foi feita pelo irmão dela, que anualmente vai aos Lençóis. “A gente tinha um dificultador que era transporte para 14 adultos e uma criança”, conta.

Mas a baixa movimentação colaborou para garantir hospedagem para todos na mesma pousada, onde ela diz ter encontrado apenas mais duas famílias hospedadas enquanto esteve lá.

No entanto, a nova realidade projetada por especialistas para a rotina das pessoas no pós-pandemia ainda não foi adotada em destinos turísticos afastados como o visitado por Mayra. Entre as cidades de Barreirinhas, Atins e entorno, por onde ela e a família visitaram lagoas paradisíacas e praias quase desertas, máscara, álcool e distanciamento não eram regras seguidas rigorosamente.

O passeio em família deu uma segurança, porque todos da jardineira alugada por eles eram da mesma família e conviviam juntos, mas nem todos os espaços que dividiam com os demais turistas obedeciam às regras sanitárias.

"O risco de você ter Covid numa comunidade como essa, de difícil acesso, sem estrutura hospitalar... Então, como turista e brasileira, me preocupou um pouco isso o risco que estão correndo. " Mayra Menescal, publicitária

 

Preços, infraestrutura e acessos

Mayra Guedes e família voltaram a viajar me julho de 2021 para os Lencois maranhenses. Pauta retomada do turismo
Mayra Guedes e família voltaram a viajar me julho de 2021 para os Lencois maranhenses. Pauta retomada do turismo (Foto: Mayra Guedes/ Arquivo Pessoal)

Os mesmos fatores que preocupam Mayra no quesito contaminação também explicam os preços encontrados por ela na pousada, nos passeios e nos restaurantes.

A logística de ida e vinda de turistas é a mesma empregada em alimento e insumos que dotam os locais de estrutura para atender os clientes, além de tornar mais caros itens que os visitantes já têm costume de consumir por valores menores.

“Os voos pra São Luís são escassos e nem sempre são baratos. Então, aproveitamos uma promoção e pagamos R$ 350 por pessoa ida/volta, de Fortaleza. Viajar com muita gente ajudou no valor do pacote para Lençóis, pois fechamos uma van de 15 lugares para ir de São Luís a Atins. A lancha também era exclusiva e a pousada deu desconto para o grupo. Pagamos R$ 460 por pessoa incluindo traslado de van São Luís-Barreirinhas-São Luís e lancha Barreirinhas-Atins-Barreirinhas. Além dos passeios para as lagoas e parque dos Lençóis”, enumera.

Made with Flourish

No entanto, a estrutura encontrada por ela ficou aquém do esperado. “É caro para ser simples. Alimentação lá também não é tão barato. Média de R$ 80 a R$ 100 o prato para dois, geralmente, mas muito bem servido”, conta, recordando que era difícil encontrar frutas para alimentar a filha nos passeios também.

As passagens por destinos internacionais, da Europa aos Estados Unidos, além da experiência em Marketing fizeram ela refletir também sobre outro elemento que atormenta os destinos brasileiros: a qualificação profissional.

"Outra questão é capacitação da comunidade para tirar mais proveito do turismo, para que as pessoas pudessem viver melhor. Nossos guias eram locais, conhecem como palma da mão toda aquela região, mas podiam ser melhores" Mayra Menescal, publicitária

Trabalho para dotar de mais estrutura, seja de hospedagem, alimentação e lazer vem sendo trabalhado desde as instâncias menores até o Governo Federal, como assegura o Ministério do Turismo em entrevista exclusiva ao O POVO. Mas precisam ser acelerados para que impressões como a de Mayra não se tornem regra e afetem as perspectivas futuras do setor.

 

 

Sol e praia na preferência

Mayra, o esposo Daniel, e a filha Alice nos Lençóis Maranhenses
Mayra, o esposo Daniel, e a filha Alice nos Lençóis Maranhenses (Foto: Mayra Menescal/Arquivo Pessoal)

Sol e praia no Nordeste foram apontados como a preferência dos turistas nesse movimento de retomada pelo boletim da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) de junho.

“A sensação de segurança, decorrente do avanço da vacinação, e as promoções que tramitam no mercado podem ter sido fatores decisivos para as vendas de viagens”, diz o relatório, que acrescenta: “Sobre a data de realização das viagens nacionais comercializadas, a maior parte acontecerá ainda no segundo semestre de 2021, seguida por embarques programados para o primeiro semestre de 2022”.

De fato, a viagem adiada por três vezes pela família de Mayra deve acontecer na segunda metade do ano, segundo ela. Dessa vez, a opção será Gramado – os destinos do Sul foram os segundos colocados na preferência dos brasileiros, de acordo com a Braztoa.

“Foi um destino pensado por conta das crianças, porque eu tenho uma filha de 2 anos, e meu sobrinho de 1 ano e meio. e ser um destino nacional. Não pensamos no exterior agora porque o dólar está muito caro, tudo está muito caro e tem muitas possibilidades dentro do Brasil. Então, acho que a gente tem que explorar mais os destinos nacionais mesmo”, explica, dando ainda mais substância para as expectativas de guias e companhias aéreas.

 

 

Ministro Gilson Machado aposta no turismo nacional

 

O ministro do Turismo, Gilson Machado, acredita que o mercado interno será responsável pelo impulsionamento do setor turístico no Brasil a partir do segundo semestre. Segundo ele, o governo tem investido no setor público e privado, além da concessão de recursos para que o trade implemente medidas sanitárias. 


 

Gilson Machado Neto, ministro do Turismo do Brasil(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil Gilson Machado Neto, ministro do Turismo do Brasil

O POVO - Especialistas e o trade turístico apostam na retomada do setor a partir de viagens nacionais, destacando os destinos nordestinos. O Ministério do Turismo (MTur) compartilha desta análise?

Gilson Machado - Com certeza. Todos os estudos de tendência no pós-pandemia ressaltam que a retomada das atividades começará pelo turismo doméstico e aqui no Brasil não será diferente. Temos um mercado interno forte, que registrou cerca de 95 milhões de viagens em 2019. Mas ainda temos um importante potencial de crescimento, considerando que cerca de 11 milhões de brasileiros que antes viajavam para o Exterior têm agora a oportunidade de conhecer melhor o nosso País.

Costumo dizer que ser brasileiro é estar sempre perto de um destino incrível e o Nordeste é um bom exemplo disso. A região possui uma das mais belas costas litorâneas do mundo e uma natureza ímpar, o que tem atraído a visita de milhares de turistas aos diferentes destinos. E eu, como bom pernambucano, não poderia deixar de citar Porto de Galinhas, que tem liderado rankings de buscas dos turistas em busca de definir a próxima viagem. Temos também, no Ceará, Jericoacoara, que é um verdadeiro paraíso e que tem atraído a atenção de muitos viajantes. Então, eu acredito muito no potencial do nosso País e do Nordeste para essa retomada.

E para fidelizar o viajante brasileiro e ampliar a presença dos turistas estrangeiros, temos investido cada vez mais em infraestrutura. O nosso governo liberou mais de R$ 100 milhões para melhoria da infraestrutura turística com obras como o Centro de Convenções de São Gonçalo do Amarante com investimentos de R$ 1,9 milhão e a construção do teleférico em Juazeiro do Norte com investimentos de R$ 39 milhões. E esses são apenas alguns exemplos das mais de 3 mil obras do MTur em todo o Brasil.

 

"Nesse sentido, é fundamental que o mercado se reinvente para criação e aprimoramento de produtos que atendam ao perfil do turista doméstico e a comercialização de destinos regionais." Gilson Machado, ministro do Turismo

 

OP - Notamos articulações locais de reativação de rotas, como a das Emoções (Jeri, Parnaíba e Lençóis), por exemplo, mas também vimos movimentações internas nos próprios estados. Na avaliação do MTur, além dos destinos já badalados, seria a chance de promover microdestinos entre os habitantes dos próprios estados? Como desenvolver isso?

Gilson Machado - Uma das fortes tendências também para a retomada das atividades turísticas são os destinos de proximidade – até 300 km. Nesse sentido, é fundamental que o mercado se reinvente para criação e aprimoramento de produtos que atendam ao perfil do turista doméstico e a comercialização de destinos regionais. No início do ano, justamente para estimular a realização de ações de promoção do turismo interno no estado do Ceará, repassamos R$ 500 mil à Secretaria do Turismo no estado, inclusive, o que pode ser uma oportunidade para destacar destinos ainda pouco conhecidos. 

Além disso, como as pessoas estão mais conectadas com a internet, os destinos e as empresas também precisarão oferecer seus serviços pela rede mundial de computadores, e adotar ferramentas tecnológicas para que permitam interação prévia com os turistas, caso desejem se conectar com seus potenciais visitantes. E, claro, precisamos investir na segurança das nossas viagens.

Por isso, lançamos o Selo Turismo Responsável, ainda no ano passado, com protocolos sanitários para 15 atividades turísticas. Quase 29 mil estabelecimentos e guias de turismo – sendo 839 apenas no Estado do Ceará - já estão conosco nesta corrente e adotam práticas que oferecem mais segurança a turistas e a trabalhadores do setor.

Além disso, disponibilizamos um crédito de R$ 5 bilhões para apoiar os empreendimentos turísticos nesse momento de incertezas. Só para o setor cearense foram disponibilizados R$ 2,3 bilhões para auxiliar em capital de giro e realização de investimentos para a retomada das atividades turísticas.

OP - Sobre os trabalhos do MTur, sem as feiras e os modos tradicionais de promoção dos destinos, quais ações o ministério desempenhou para manter os destinos brasileiros na memória dos viajantes? Como fica a atração do Nordeste nesse trabalho? 

Gilson Machado - Temos investido fortemente na estruturação e preparação dos nossos destinos para possibilitar a retomada das atividades turísticas. Em infraestrutura turística, somente em 2020, atingimos a marca de histórica de R$ 1 bilhão investido e temos mais de três mil contratos de obras vigentes em todo o país. Também temos atuado na atração de investimentos privados. Recentemente lançamos o Portal de Investimentos, que reúne um portfólio digital de projetos, aproximando investidores, empreendedores e o poder público, que já conta com uma carteira de quase 60 projetos com investimentos previstos na ordem de R$ 23 bilhões. Juntos, têm capacidade de geração de mais de 116 mil empregos no país.

Lançamos ainda protocolos de biossegurança para o setor e temos atuado na qualificação dos serviços nas principais rotas turísticas do país para que estejamos preparados para atender cada vez melhor nossos turistas. Ofertamos também crédito para os empreendimentos turísticos e fomentamos a maior regularização do setor com novas inscrições no Cadastur, que é o cadastro nacional de prestadores de serviços turísticos. Também temos um projeto-piloto em andamento para estabelecer no Destinos Turísticos Inteligentes e, com isso, transformar nossas cidades em destinos inovadores e que ofereçam experiências únicas aos turistas. Tudo isso somado a ações de promoção do país por meio campanhas promocionais e participações em feiras nacionais e internacionais.

 

"Não temos dúvidas de que, à medida que o turista se sentir seguro, as viagens retornaram e teremos a nossa tão sonha retomada no setor de turismo, que foi um dos mais impactados pela pandemia." Gilson Machado

 

OP -  Qual avaliação faz da retomada atual? Que pontos positivos podem ser destacados e que dificuldades precisam ser superadas? (especialmente no Nordeste)

Gilson Machado - Com o avanço da vacinação, aliado à adoção de protocolos de biossegurança no setor fomentados pelo nosso Selo turismo Responsável, já temos começado a ver sinais de recuperação do setor no país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Atividades Turísticas subiu 18,2% em maio. Foi o segundo crescimento consecutivo do índice, tendo em vista que em abril houve um avanço de 4,3%, demonstrado o setor começa a se recuperar. Estamos com uma média diária de voos de 1.624, o equivalente a 67,7% da oferta de voos no início de março de 2020, antes dos impactos da pandemia.

Não temos dúvidas de que, à medida que o turista se sentir seguro, as viagens retornaram e teremos a nossa tão sonha retomada no setor de turismo, que foi um dos mais impactados pela pandemia. Isso resultará em geração de mais emprego e renda para a nossa população. E esperamos que essa retomada acelere ainda neste semestre e se consolide já na próxima temporada de verão. E nesse cenário, o Nordeste brasileiro será um dos primeiros a colher os frutos do retorno das nossas atividades turísticas.

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