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O santo e o rio
Reportagem Seriada

O santo e o rio

O santo e o rio

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Retornamos à expectativa, aonde a água ainda não apontou. O leito imaginário, desenhado, embora não encharcado. O lado de cá de nossa estiagem permanente. Tardamento, inquietação, esperar para crer. Na outra ponta, ainda deste mesmo Nordeste de chuva que não chora tanto, a presença confirmada. O rio desce. Verídico, crível, acontecendo, de molhar mãos e pés e sorrisos, e roças e previsões. Mais para lá do semiárido, Paraíba e Pernambuco, o São Francisco é irreversível, contínuo, manso e correnteza. Como em breve se imagina e que será urgente no Ceará.

O POVO voltou ao projeto da transposição, nos seus dois caminhos: o Eixo Norte, onde o rio é a espera, a demora, as obras só agora sendo retomadas após uma paralisação de um ano dos serviços; e o Eixo Leste, que escoa, abastece, rega canais e a realidade, além de perenizar o rio Paraíba - antes só vivente nos invernos sertanejos.

O repórter especial Cláudio Ribeiro, o repórter fotográfico Mateus Dantas e o motorista Leandro Costa viajaram 3 mil quilômetros, durante duas semanas de julho passado. Sempre com o céu nublado, apenas respingos. Já não era o tempo mais de chover da região. Mas é o céu que ameniza as perdas no estio e que sombreia e esfria água.

O São Francisco transposto, neste momento ao custo de R$ 11 bilhões, precisa de ajustes. O Governo Federal, frágil politicamente, admite que preferiu acelerar o caminho do rio para depois dar os acabamentos. Fez assim no Eixo Leste, para levar o quanto antes o socorro para Campina Grande, faz o mesmo no Eixo Norte, para salvar Fortaleza da agonia hídrica. Reservas mínimas, há um segundo semestre inteiro de sol quente e evaporação.

Canal da Transposição do Rio São Francisco que passa por Monteiro, município da Paraíba, foi inaugurado e a água já abastece a cidade. Mesmo inaugurada, a obra precisa de últimos detalhes.(Foto: Mateus Dantas / O POVO)
Foto: Mateus Dantas / O POVO Canal da Transposição do Rio São Francisco que passa por Monteiro, município da Paraíba, foi inaugurado e a água já abastece a cidade. Mesmo inaugurada, a obra precisa de últimos detalhes.


O rio, santo e milagreiro, já não é tão forte. Debilitado, salva e pede ajuda ao mesmo tempo. Seca em seu leito natural. A transposição é uma ideia antiga, dos tempos do Império. Tornou-se possível. Quase dez anos de execução - o dobro do tempo previsto. Ficou mais cara quase o triplo do primeiro combinado. São Francisco pena em nome do milagre de atender ao que nem era seu sertão de obrigação.

Webdoc: A reinvenção da carranca

Por: Émerson Maranhão

O webdoc que integra este projeto especial pega a estrada e nela segue encantado com a paisagem. Ou as paisagens, para ser preciso. Tanto a geográfica, rodovia após rodovia, quanto a humana. Em ambas, sobressaem-se as modificações que as águas do Velho Chico anunciam, impõem, frustram ou alimentam. Tanto uma quanto a outra enchem nossa tela para nela escorrer suas narrativas. Rotas alteradas pelo novo trajeto, ainda em processo. Assim com a carranca, ícone máximo do rio São Francisco, rompe com a miudez do barro que lhe dá forma e se reinventa numa outra natureza.

* O especial As Águas de Francisco foi publicado no O POVO de 11 de setembro de 2017

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