Reportagem Especial

Conheça as torcidas antifascistas de Ceará, Fortaleza e Ferroviário

Vozão Antifascista, Resistência Tricolor e Ultras Resistência Coral apostam na luta contra regimes autoritários e apoio aos clubes do coração. As três chegam a se unir em atos públicos

Conheça as torcidas antifascistas de Ceará, Fortaleza e Ferroviário

Vozão Antifascista, Resistência Tricolor e Ultras Resistência Coral apostam na luta contra regimes autoritários e apoio aos clubes do coração. As três chegam a se unir em atos públicos
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Em cenário onde torcidas de futebol europeias se apresentam declaradamente fascistas, como Ultras Sur, do Real Madrid-ESP, e Irriducilibi, da Lazio-IRA, surgiu a necessidade de torcidas que lutam contra o autoritarismo nascerem ou se fortalecerem. No Estado, os três mais tradicionais clubes possuem representantes no movimento antifascista (antifa): Resistência Tricolor, Ultras Resistência Coral e Vozão Antifascista.

Nos estádios, as pautas são por arquibancada inclusiva para mulheres, negros, LGBTS e camadas mais pobres da sociedade. Fora deles, participam de atos públicos contra medidas que julgam prejudicar grupos minoritários.

A mais antiga é de 2005, a Ultras Resistência Coral, de torcedores do Ferroviário. Segundo a organização, é a primeira torcida organizada antifascista do Ceará e do Brasil — uma inspiração para as demais.

Ultras Resistência Coral
Ultras Resistência Coral

Além do combate ao racismo, machismo e LGBTfobia, um dos objetivos do movimento é valorizar a origem proletária do Ferroviário, que teve a classe operária como parte primordial da fundação do Clube .”Estamos sempre que possível divulgando, reivindicando e disseminando junto à torcida essa identidade proletária”, declara Leonardo Carneiro, 37, professor e membro do grupo.

A história da Ultras Resistência Coral se cruza com a da Resistência Tricolor, movimento de torcedores do Fortaleza. O grupo surgiu no primeiro semestre de 2017, via redes sociais, mas foi só em maio do ano seguinte chegou às arquibancadas. Percebendo um avanço do autoritarismo e discurso de ódio no Brasil, o grupo viu a necessidade de sair do virtual e ir aos estádios. “Como a arquibancada não é uma bolha, percebemos também esse avanço naquele ambiente em que muitos de nós foi criado”, declara Heitor Bantim, 23, professor e estudante de História, membro ativo do movimento.

O grupo não se denomina “Torcida Organizada” (TO), mas declara que ser membro de uma não impede que o torcedor faça parte do movimento — que luta contra a criminalização das TOs e possui, inclusive, projeto em conjunto com a Torcida Uniformizada do Fortaleza maior organizada do Fortaleza. O "TUF no ENEM" promove aulas gratuitas para torcedores que querem realizar a prova o Exame Nacional do Ensino Médio. "As TOs possuem uma capilaridade incrível em lugares periféricos que o Estado jamais prestou assistência devida, e lutamos a favor delas”, afirma.

Resistência Tricolor
Resistência Tricolor

Por outro lado, os movimentos são recorrentemente criticados por "misturar futebol com política". Os torcedores antifa, porém, não veem assim. "É muito contraditório, tendo em vista que futebol é política em essência. E o discurso de ‘não misturar’ já é incrivelmente político”, declara Heitor.

A hostilização do jogador Malcom, contratado pelo russo Zenit São Petersburgo, além de a pressão para que uma torcida LGBT do Internacional mudasse de nome após ameaças de outros torcedores do Colorado são exemplos de ações racistas e LGBTfóbicas que o grupo repudia. “A Resistência Tricolor é, obviamente, um movimento também político, mas nunca partidário”, pontua.

O futebol nunca esteve dissociado da política, tampouco da história do Brasil. Vindo de uma realidade de elite, ele chegou a ser usado como propaganda política, tanto na Era Vargas (1930-1945) como na Ditadura Militar (1964-1985). “O futebol era utilizado como forma de promover as gestões, de passar a mensagem de que estava tudo bem, e para contribuir de alguma forma para o afastamento do torcedor do debate político, tão necessário no período”, pontua Ingryd Melyna, 26, assistente social, mestranda em Sociologia e membro da Vozão Antifascista, de torcedores do Ceará.

Criado ao final de 2017, a Vozão Antifascista passou efetivamente a realizar atividades — tanto dentro como fora dos estádios — em 2018. Assim como a Ultras Resistência Coral, o grupo se considera torcida organizada, embora entenda que ainda não possui todas as características de uma — é mais recente e tem menos membros que as torcidas tradicionais.

Vozão Antifascista
Vozão Antifascista

Ingryd destaca a segregação racial e o afastamento das mulheres do estádio como bandeiras. O incentivo aos torcedores para divulgar o futebol feminino e comparecer aos estádios é mais um dos trabalhos feito pelo Vozão Antifascista. “Nesses últimos anos a gente tá vendo um avanço no investimento, no próprio interesse do torcedor. E aí o próprio Ceará hoje tem um time específico, composto por mulheres que já disputam torneios nacionais”, declara. O Alvinegro disputou neste ano a Série A2 do Brasileiro feminino, com elenco formado por atletas profissionais — feitou inédito no futebol cearense.

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