Reportagem Especial

Mítico povo indígena das serras cearenses ressurge após cinco gerações vivendo oculto

Com fama de mais valente entre as tribos indígenas do Ceará, vivendo oculto após maldição lançada por um padre, o povo Karão, antiga tribo dos jaguaribaras, ressurge e busca reconhecimento

Mítico povo indígena das serras cearenses ressurge após cinco gerações vivendo oculto

Com fama de mais valente entre as tribos indígenas do Ceará, vivendo oculto após maldição lançada por um padre, o povo Karão, antiga tribo dos jaguaribaras, ressurge e busca reconhecimento
Tipo Notícia Por

O grande espírito da água doce. É assim que o povo Karão, uma vez conhecido por Jaguaribaras, identifica a origem da própria tribo. Uma força da natureza que dá potência e, diga-se, razão à existência de cerca de 20 famílias que vivem na Aldeia Feijão, localizada em Aratuba, na microrregião de Baturité. Mantida oculta em silêncio ao longo de cinco gerações, quase de forma mitológica, a tribo indígena agora ressurge em processo de emergência étnica. Reivindicando identidade e apoio.

Os antigos moradores das serras trazem as memórias de que o povo Jaguaribara/Karão travou alguns dos mais violentos confrontos com os colonizadores europeus. Por isso, durante séculos, foi submetido à perseguição que destruiu vidas e tomou terras. "Eram a tribo mais valente. Não se entregaram", rememora o mestre mateiro José Carneiro, de Pacoti.

LEIA TAMBÉM | "Eu fui criada sabendo que era índio, mas minha mãe dizia que a gente não podia contar que era indígena", conta Kacika Maeota

É em cima da serra, nas nascentes, onde brota o espírito da tribo. Há uma filosofia disseminada pelos povos mais antigos que diz: quem domina as nascentes domina todo um povo que mora do rio para baixo do monte. Havia conflitos para dominar as terras. Não no sentido de posse, e sim da "preservação da vida". Assim contam os índios.

"O homem branco não subia as serras porque os índios não deixavam", narra Zé Carneiro. O colonizador então partiu para a dizimação quase total.

Clique na imagem para abrir a galeria

Tempo para emergir

Para quem precisa resistir para existir, olhar para trás é fundamental. É recorrendo às origens que Gleidison Karão, descendente direto das lideranças Jaguaribara, começa a falar com a reportagem do O POVO: "Sou filho da Kacika Maeota, filha da Chiquinha Bala, que é filha da Neném Bala".

Cursando Bacharelado em Humanidades na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, a Unilab, Gleidison conta os saberes herdados dos antepassados.

É ele quem conta que a decisão de silenciamento de um povo por cinco gerações foi por orientação espiritual. Outros povos estão silenciados e cada um tem sua própria justificativa. No Ceará, ele cita que poucos Tapuios estão "levantados", povo que até 2014, de acordo com o Instituto Socioambiental (Isa), ocupava também Rio Grande do Norte e Goiás.

Gleidison Karão revela que um antigo líder chamado Karão Bala falou ao seu povo que era preciso se recolher e que só iriam se levantar na sexta geração.

O motivo é um episódio conhecido entre eles. Houve conflitos com o clero que tentou catequizar os indígenas. Um dos padres desentendeu-se com os próprios pares. Indisposto com a Igreja e os povos nativos, encontrou abrigo entre os Jaguaribara, que juraram protegê-lo. Mas, era mentira. "Amaldiçoados sejam os Jaguaribara até a quinta geração", gritou o clérigo ao ser entregue aos indígenas que cobravam sua vida.

"Nós somos a sexta geração. Por força dessa fala, nos levantamos com honra ao nome dele", conta Gleidison, em referência a Karão Bala. "Fomos orientados a emergir e desde então buscamos os movimentos indígenas, pedindo socorro e reivindicando alguns direitos violados", conta. "O índio se autoreconhece, sabe que é indígena. A memória coletiva é ativa. Várias comunidades que sabem quem são, se organizam como nós, mas ainda há algo que as impede de quebrar o silêncio." 

O retorno dos Karão

Os Karão se tornaram o 15º povo indígena registrado no Ceará pela Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince). Assim, passaram a integrar o movimento indígena organizado, articulando-se e entrando para os documentos oficiais do Estado. É da União a obrigação de proteger as Terra Indígenas (TI), conforme a Constituição Federal.

A aproximação dos Karão com o movimento indígena no Estado se intensificou a partir de dezembro de 2018, durante a Assembleia Geral dos Povos Indígenas do Ceará, em Tamboril, Sertão de Crateús. Foi ali que, pela primeira vez, os líderes se colocaram em busca de reconhecimento. A Assembleia é a instância máxima de decisão e articulação dos povos, que enviam seus representantes anualmente.

O passo seguinte é o processo de demarcação, a ser realizado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que estuda e identifica a TI a partir de grupo técnico especializado. Após apresentação do relatório, a Funai tem 15 dias para aprovar a demarcação e publicar nos Diários Oficiais da União e do Estado.

Conforme o Governo do Estado, o território cearense reúne 17% dos índios do Nordeste. Isso significa mais de 26 mil aldeados. No Brasil, são mais de 732 mil aldeados, conforme o Governo Federal.

Os territórios Karão

As principais aldeias do povo Karão ficam no Maciço de Baturité, em Palmácia e Aratuba, lugar de pelo menos duas delas. Não só lá, no entanto. Os outros kalembres, como são chamadas as aldeias, estão em lugares ainda obscuros para a sociedade. A decisão de não contar onde estão com tanta precisão é das próprias lideranças. É sabido, no entanto, que eles estão distribuídos em pelo menos cinco localidades.

Cabeça da Onça fica na divisa de Palmácia com Capistrano. Há quem diga que o melhor caminho para chegar lá é subindo a serra pela cidade de Aratuba ou via Baturité, visto que nem sempre é simples o trajeto para acessar as aldeias indígenas.

Quem vai para a aldeia Feijão pela BR-020, saindo de Fortaleza, precisa dobrar na CE-257, na entrada de Canindé, para chegar ao destino. Foi esse o trajeto que a equipe do O POVO fez para conhecer o lar de cerca de 20 famílias do povo Karão nos últimos meses de 2019.

Para se ter ideia, o Governo do Estado do Ceará ainda não conta com os Karão em mapeamento oficial. O município de Palmácia também não aparece. O diagnóstico do Movimento Indígena do Ceará, publicado no livro Situação dos Povos Indígenas do Ceará, aponta que ainda não há demanda identificada e qualificada pelos órgãos públicos: "Trata-se de um povo em fase recente de emergência étnica".

A peleja para sobreviver

Mara dos povos indígenas registrados no Ceará
Foto: ARTE O POVO
Mara dos povos indígenas registrados no Ceará

A luta territorial é a mais conhecida pauta dos povos indígenas. Não é espantoso que grupos sobreviventes de massacres prefiram o silêncio.

A terra onde fica a aldeia Feijão foi uma das últimas, como acreditam os residentes, a serem reivindicadas por colonizadores. Daí vieram os conflitos. A "pressão colonial" ganhava território, principalmente para a criação de gado. Enquanto isso, o povo se aglomerava na Serra de Baturité. "Eram conflitos para garantir a vida. Chegavam como se não houvesse nada, como se não houvesse crença", conta Gleidison Karão.

O artigo Conquista e Povoamento do Maciço de Baturité, escrito por Vinicius Barros Leal e publicado em 1972 na Revista do Instituto do Ceará, aponta que nos idos do século XVII havia "proibição de se adentrarem os colonizadores" em terras além do litoral. A orientação era devido a "ferocidade dos silvícola", os nativos indígenas.

A Serra de Baturité era cobiçada. Clima ameno, solo fértil, muitos frutos. Havia inclusive a expectativa para encontrar pedras preciosas ou minas de prata, como buscavam os holandeses. A publicação descreve a aproximação entre os povos como arriscada: "Índios rebelados, desconfiados da amizade do branco".

Pois se com violência chegavam os brancos, era com violência que os povos indígenas respondiam. "O povo Jaguaribara foi muito caçado. Eram considerados ameaça", continua o estudante de Humanidades na Unilab e membro da tribo. É contado que os índios acolhiam as pessoas que chegavam na região, mas eram eles quem acabavam mortos.

Uma das histórias narradas por gerações aconteceu na Cabeça da Onça. Nos idos do século XIX, a terra chegou a ser ocupada por militares que faziam festa e embriagavam os nativos. Eles amarravam os homens indígenas e os matavam. É nesse contexto que surge a resistência de mulheres indígenas chamada Bala, sobrenome indígena das ascendentes de Gleidison Karão.

Em dado momento da história, já cansados de morrer, uma inquietação fez com que grupos que viviam na serra fossem para Aquiraz, já na Região Metropolitana de Fortaleza. O território predominantemente branco era atacado pelos Jaguaribara.

Nascido em Baturité, o pajé Ruy Karão Jaguaribaras, 64, é enfático ao dizer que o assédio ainda não acabou até hoje. Faz questão de destacar que o povo ainda é perseguido por grandes fazendeiros da região.

"Essa terra é nossa. Foi nossa no passado e estamos felizes com a retomada. Ainda tem resistência deles (fazendeiros). A gente não pode sair daqui que entra animal, criação, tudo pra estragar a plantação", conta. "Aqui, único canto verde desse sertão, plantamos tudo". São cultivados nos gorojós, como são chamados os lugares de plantio, milho, arroz, feijão, batata e mandioca, entre outros alimentos.

Chão sagrado

A espiritualidade é a mais importante característica do povo Karão. Há uma cultura muito presente de pedir força a Tupã, a entidade maior da mitologia indígena, e aos encantados - ancestrais que retornam como parte da natureza após a morte. São a eles que os moradores da aldeia pedem proteção e sabedoria. Símbolo desse aspecto são os espaços para rituais, chamados de terreiros. É lá onde eles celebram a união, as diferenças e a conexão entre o espaço onde vivem, o povo, os animais a natureza e o que está no meio disso tudo, o lado espiritual.

O POVO acompanhou a celebração de um torém, que eles classificam como "a possibilidade de transmitir energia". Há nessa conexão uma linha direta com os encantados e com a força da cura. Da sede da aldeia Feijão até a Pedra do Encanto, o principal terreiro da comunidade, são pouco mais de 30 minutos de caminhada. Uma verdadeira trilha em meio a caatinga.

É nesse chão sagrado onde os grupos se reúnem e têm as visões que os orientam. O ritual precisa de, pelo menos, cinco pessoas para acontecer. O ideal, contudo, é que a adesão seja da maior parte do grupo. O pajé Ruy garante: "O que vale é a fé".

Filho de pai branco e mãe indígena, Ruy Karão explica que o despertar para o ritual vem das necessidades identificadas pelo grupo. Quando há sinal de fraqueza, a reunião é regra. "É importante a convivência, a cura espiritual, a cura material", lista. "Minha mãe era rezadeira. Eu continuei no mesmo ritmo". 

Kalembre

O kalembre Feijão fica em um dos mais antigos vilarejos de Aratuba ("abundância de pássaros", do tupi), cidade distante 120,3 km de Fortaleza e com apenas 2.920 domicílios, segundo o Censo 2010. Em março de 2019, a localidade tinha apenas 56 pontos de acesso à internet. É também terra de José Maria Pereira dos Santos, o Cacique Sotero, reconhecido mestre da cultura em 2019 pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult).

Essa notícia foi relevante pra você?

Conteúdo exclusivo para assinantes

Conteúdo exclusivo

Saiba mais

Estamos disponibilizando gratuitamente um conteúdo de acesso exclusivo de assinantes. Para mais colunas, vídeos e reportagens especias como essas acesse sua conta ou assine O POVO +.

Logo O POVO Mais