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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Jacarandás cobrem a paisagem de Lisboa

Só mais alguns dias e fim. As flores dos jacarandás-mimosos estarão já todas no chão, atapetando algumas das calçadas de Lisboa. De muitas cidades portuguesas também. Com floração que começa na primavera europeia, o espetáculo roxo faz lembrar outros, igualmente coloridos. Deste e do outro lado do Atlântico.
Tipo Crônica
 Foto de Ariadne Araújo. Enfiada de jacarandás que bordam a avenida da Torre de Belém, em Lisboa (Foto: Foto: Ariadne Araújo)
Foto: Foto: Ariadne Araújo Foto de Ariadne Araújo. Enfiada de jacarandás que bordam a avenida da Torre de Belém, em Lisboa

Para a felicidade geral dos que amam o roxo. E, mesmo se o tom exato da cor é discutível, tem uns que veem o lilás e outros o azul, esta é a época das flores dos jacarandás-mimosos, em Portugal. Debaixo delas, não há quem passe indiferente. Acostumados ao espetáculo há muito – as primeiras árvores chegaram do Brasil, ainda no século 19 -, os portugueses enchem o peito de orgulho, já que muitas cidades andam uma pintura, por estes dias. Em Lisboa, os turistas, surpresos com a novidade raríssima por aí afora, dão saltos mirabolantes para alcançarem galhos e ramos floridos, bons para selfs. Ou investem em ensaios fotográficos. Como eu.

Em abundância nas ruas lisboetas, as roxas beldades lembram-me outras, igualmente coloridas, no Brasil: os nossos ipês. Quem viu um, não esquece jamais. No Ceará, conheci a planta com o nome de pau d’arco – soube, a madeira era boa para a confecção de arcos e flechas. E a paleta de cores dá para todos os gostos. A depender da espécie, a copa veste-se de roxo, ou de um amarelo solar, ou de um rosa intenso e, mais raro, de branquinho. Em Fortaleza, embora os amarelos sejam os mais comuns, os amantes do roxo, como eu, têm sorte. Em uma das trilhas do Parque Estadual do Cocó, topa-se, a uma só vez, com a dupla infalível: um ipê roxo e um jacarandá.

Se já vinha de criança este espanto pelas copas dos ipês, imaginem a surpresa quando fui morar justo em uma rua arborizada de cerejeiras japonesas, em Bruxelas, na Bélgica. Na primavera, à porta de casa, os olhos enchiam-se com o espetáculo das flores rosas, em cachos. Podia-se ficar ali horas, a pretexto de nada, em admiração. Pena, a beleza dura pouco. Duas semanas apenas e, depois, as calçadas transformavam-se em um tapete rosado. Peguei, então, o gosto e o caminho da floração de outras árvores frutíferas. Atrás do cheiro doce das macieiras e pereiros, perdi-me nas colinas de Haspengouw, região de Limburg, na Flandria. Um panorama, a perder de vista, em matizes que vão do branco ao rosa pálido.

No caso dos jacarandás, é preciso lembrar que a majestade da árvore não está só no espetáculo da floração. É madeira-de-lei. Por isso, paga preço alto pelo apetite de madeireiros. Anda, inclusive, ameaçada de extinção. Como, aliás, os ipês, cujos troncos, pelo que ouvi dizer, servem ao fabrico de telhados. Mas, para além de fins mais comerciais, na época em que passaram de um lado a outro do Atlântico, os mimosos tinham também valor como planta exótica. Por isso, ao lado de outras espécies, igualmente colecionadas pelos portugueses, ao longo de décadas de viagens marítimas pelo mundo, estas árvores foram lançar raízes no viveiro mais antigo de Portugal, o Jardim Botânico da Ajuda. De lá, com o tempo, ganharam as ruas.

Mas, a explosão de cores da época, ao que parece, faz torcer o nariz a uns quantos. Estupefata, fui saber a razão de tal desgosto botânico. E o motivo é que não há unanimidades, mesmo para jacarandás. Pois bem, a reclamação por aqui é que as pétalas mancham os capôs dos carros, estacionados nas vias. Também que, junto com elas, cai um tipo de seiva. Da combinação dos dois resulta uma pasta escura que, segundo contam, cola nas solas dos sapatos e cheira mal. De quebra, tinge as famosas calçadas portuguesas. Malditas flores. Já os jacarandás nem ligam para estas querelas de bem-me-queres e malmequeres. Todos os anos, voltam à carga, roxinhos de formosura.

 

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