Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.
No jardim da infância, a gente se esbalda de brincar e colorir papéis. Pelo menos, foi assim no meu tempo. Sorte a minha, já que as crianças pequenas de hoje têm nos ombros grandes responsabilidades: depois da creche, estudar para o vestibular
Foto: FERNANDA BARROS
A importância de brincadeiras na infância
Nas manhãs escuras e chuvosas do inverno da Bélgica, eles vão sonolentos e instáveis, nos seus pequenos passos, envoltos em impermeáveis botas plásticas. De pouco servem as capas amarelo-fluorescentes contra o frio destas primeiras horas — por baixo, vão gordas camadas de roupas e echarpes. Sofro eu mais em vê-los, no cumprimento diário do dever, que eles: já sonhando com as brincadeiras, os papéis pedindo cores, os jogos e as cantorias em conjunto nas creches e jardins de infância.
Pensava: tão jovens e já presos nas engrenagens do processo civilizacional. Mas nunca, nunca mesmo, passaria pela minha cabeça que, em tais horas matinais, na Coreia do Sul, as crianças vão para as creches e jardins de infância levando mais que lancheiras e sonhos. A partir dos quatro anos de idade — oxalá que amanhã essa idade não seja antecipada em um ano — os pequenos e pequenas coreanas vão a jardins especializados em inglês, matemática, gramática, ciências e escrita de ensaios acadêmicos. Para completar, também horas por semana de pintura e artes marciais.
Aos seis anos de idade devem estar prontos. Para a entrada na escola elementar, é suposto estarem excelentes na escrita de um ensaio. Por exemplo, com esse tema: o que se passaria se a Terra não tivesse mais água? Passada esta primeira etapa, a corrida se acelera para os que têm mais de seis.
Depois da escola tradicional, vão para centros de educação privados, especializados em treinar alunos para as universidades. O mais cedo possível, passarem no exame de admissão nacional, o Suneung, espécie de Enem coreano, que testa conhecimentos em gramática, vocabulário, compreensão, escrita e, numa prova oral, inglês.
O frenesi de aulas solicitadas por mães e pais coreanos empurra os filhos quase bebês para serem os melhores: “o mais cedo, melhor”. Círculo vicioso que condiciona estes meninos e meninas de hoje para, no futuro, se filhos tiverem, fazerem por eles e elas o mesmo.
Sacrifício financeiro para os pais — estresse, pressão, exigência, competição, para filhos, tão jovens. Esta situação tem contribuído para a crise demográfica coreana, num pensamento geral de que filhos, melhor não os ter. Do contrário, engajam-se como pais ansiosos, a corda financeira no pescoço, no trabalho sem fim de empurrar a cria — mais cedo e mais rápido — para o labirinto da competição, na vida adulta.
Meu neto brasileiro tem oito anos de idade. Escreve pequenas redações de cinco linhas e aprende as primeiras palavras da língua inglesa, junto com os números romanos e as categorias científicas dos animais. Quando sai da escola, vai louco atrás da bola, treinar não a matemática dos chutes. Meu neto belga tem dois anos de idade. Na creche, aprende a difícil missão de sociabilizar-se, partilhar o carrinho com colegas e a comer com garfo sem derrubar a comida — essa nem eu consigo.
Acompanho, portanto, o desenvolvimento de dois meninos. E vejo no cotidiano a importância das horas para jogos e interações. Como avó amorosa, quero que eles vivam no presente ou na imaginação, nunca no futuro. Penso, então, nesta leva de crianças coreanas que na corrida de futuro próximo — o quanto antes, melhor —, estarão em universidades de excelência, ocuparão postos de direção ou se formarão em profissões “desejáveis” pelos pais: medicina no alto da lista. Adultos autônomos e, possível, bem-sucedidos — mas sem infância, doentes, isolados, depressivos.
A notícia deste problema social na Coreia do Sul espantou o mundo e me fez pensar no meu papel de avó: cuidar para que estes dois meninos sejam crianças o mais tempo possível — quanto mais, melhor. Um dia, eu sei, as responsabilidades adultas vão chegar. Mas não vamos antecipar, correr logo para o abismo. Aprender a usar o garfo e fazer gols são bons desafios. Cada tempo no seu tempo.
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