Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.
Como diz uma amiga minha, o ódio e o preconceito são o feijão-com-arroz servido aos brasileiros, em Portugal. Aos migrantes, de um modo geral, sim. Entretanto, como os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal, temos sido mais alvos destas agressões verbais, psicológicas e físicas
Nem todos os portugueses, é preciso insistir, cozinham este caldeirão de rancores. No entanto, as atuais eleições para presidente — decisão no segundo turno, próximo oito de fevereiro — mostram como o ódio tem ganho espaço nos discursos e propagandas da extrema direita, o partido do Chega, que disputa com força a função presidencial, rendendo votos e ganhando espaço no país.
Portugal balança, perigosamente. Recebeu alertas da União Europeia — não pelo risco de eleger um dia um presidente, ou primeiro-ministro, vomitador de venenos contra migrantes. Mas porque os casos de agressões, injúrias, violações, e até mortes, contra residentes estrangeiros se multiplicam.
Grupos, como o neonazi 1143, trabalham na surdina para arrecadar dinheiro e financiar o que eles chamam de “combate urbano” ou “guerra racial”.
No canal Telegram, o 1143 mantinha uma loja. Um pacote de autocolantes, com a inscrição “Portugal para os portugueses”, lema repetido pelo Chega, vende-se por cinco euros. O anel da irmandade, 45 euros. Uma camiseta, exibindo a frase “Os lobos não usam coleira”, 23 euros. Além, bonés, casacos, pins e armas. Nas contas bancárias, recebiam donativos — e acreditem, tinham muitos doadores.
Militantes do Chega, policiais, militares, um ex-juiz. Um dos detidos é conhecido nas redes sociais como “Rosnador”. Sonham com um mundo branco e nacional — de raiz, como batem no peito os fascistas nas ruas, ao mandarem os migrantes embora. O 1143 foi desmantelado. Mas há outros, que comem e bebem desse ódio.
A polícia fala em núcleos regionais de Norte a Sul de Portugal, e filiais entre migrantes portugueses que vivem na França e na Suíça. Recrutam membros e apoiantes como milícias, inclusive menores de idade, para atos xenófobos, perseguição e coação a minorias étnicas. E o resultado disso está todos os dias nos jornais. Ou pelo menos uma parte, com certeza.
João Carvalho, cientista político e investigador do Instituto Universitário de Lisboa (Iscte) analisa movimentos de extrema direita na Europa e explica que o que acontece em Portugal tem ligação direta ao sucesso do discurso do Chega, no atiçar clivagens pré-existentes na sociedade portuguesa. A partir de 2019, o partido de extrema-direita cresceu, inspirado pela presença de Bolsonaro, no Brasil.
A capitalização do sentimento de que a corrupção está disseminada, agudizando a desconfiança no sistema político, encontrou terreno fértil, em Portugal e no Brasil. Mas, em Portugal, há o acréscimo do discurso de que as minorias étnicas não fazem parte do projeto nacional, de que são um obstáculo ao desenvolvimento do país — o que é totalmente falso.
Esperando que Portugal resista. No Brasil, já vimos no que isso dá. Resistir, é o que faremos. Bem haja.
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