Augusto W. M. Teixeira Júnior é cientista político, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Departamento de Relações Internacionais da mesma instituição
Augusto W. M. Teixeira Júnior é cientista político, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Departamento de Relações Internacionais da mesma instituição
Poucas vezes o clássico dito de que "a arte imita a vida" foi tão real como a belíssima peça teatral "1932: o que aconteceu?". Nela, o tema dos flagelados da grande seca de 1932 é retratado com brutal realismo, suavizado apenas por uma dose lírica e poética que torna a representação de um histórico sofrimento suportável a quem assiste ao espetáculo.
No evento narrado, milhares de nordestinos sertanejos, no caso em particular cearenses, rumaram para as suas capitais em busca de salvação contra a seca que devastou o campo e tornou a vida do sertanejo ainda mais difícil de suportar, mesmo sendo ele um forte. Entretanto, o que mais marcou este colunista, para além da aridez do tema, foi a contradição sobre a sua atualidade e esquecimento.
O problema da seca é um desafio climático, inexorável diante das determinações da geografia, clima e tempo. Entretanto, o sofrimento e a miséria que com ela vêm são, acima de tudo, fruto de decisões - entre as quais omissões - da política. Já nos anos de 1950 e 1960, autores como Celso Furtado denunciavam aquilo que veio a ser chamado de "a indústria da seca" e o seu uso político para o controle social e alocação de recursos socialmente escassos, como a água. Isso, quando nessas mesmas décadas Israel demonstrou a possibilidade de comunidades cooperativas viverem e prosperarem no que antes era um deserto.
O que a grande seca de 1932 e a tragédia de cearenses e nordestinos em geral nos mostram é que, no Brasil, o básico é luxo. Ainda em 2026, grandes capitais da região registram faltas de água em bairros periféricos, acesso desigual para o plantio e concentração fundiária. O Estado, que sob a égide do Exército no exercício da "mão amiga", realiza a Operação Pipa, não tangencia uma solução para o drama humano que se mostra, até hoje, estrutural da nossa política e sociedade.
Pensar na grande seca de 1932 em um ano eleitoral em 2026 nos faz ter a certeza de que devemos aprender a lição poeticamente ensinada no filme "O Agente Secreto": o Brasil deve lutar para ter memória. Um país sem passado é um país sem futuro, condenado a repetir os mesmos erros e a se engendrar em um ciclo desnecessário de sofrimento.
A existência de campos de concentração no Ceará, o martírio dos flagelados da seca, a favelização resultante, tudo isso são dramas históricos que ecoam na construção do nosso presente. Por essa razão, perguntamos: quando daremos sentido e propósito ao sofrimento de nossos compatriotas mudando o futuro em que o básico, como a água, não seja uma moeda de troca política, mas um direito garantido para além das páginas da constituição que urge para ser viva?
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