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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

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"Druk - Mais Uma Rodada" vai da euforia ao desequilíbrio em trama etílica

Indicado a duas categorias do Oscar e favorito na de Melhor Filme Internacional, "Druk - Mais Uma Rodada" estreia hoje nas plataformas digitais
Tipo Opinião
Mads Mikkelsen é Martin, professor em crise que, com os amigos, tenta encontrar uma saída a partir de uma teoria relacionada à ingestão de álcool (Foto: Henrik Ohsten / divulgação)
Foto: Henrik Ohsten / divulgação Mads Mikkelsen é Martin, professor em crise que, com os amigos, tenta encontrar uma saída a partir de uma teoria relacionada à ingestão de álcool

O professor Martin (Mads Mikkelsen) está em crise. No trabalho, é questionado por alunos e responsáveis. Em casa, vê-se distanciado da esposa e dos dois filhos. Intimamente, se sente desinteressante. Entre os amigos Tommy (Thomas Bo Larsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Peter (Lars Ranthe) - todos profissionais da mesma escola -, porém, consegue encontrar base e força. É pela reunião dos quatro que uma virada acontece: na busca por experimentar na prática a teoria de um psicanalista norueguês que defende que o ser humano nasce com uma falta de 0,05% de álcool no sangue, eles decidem passar a beber constantemente. A partir desta curiosa premissa, se desenrola a comédia dramática dinamarquesa "Druk - Mais Uma Rodada", de Thomas Vintenberg, indicada ao Oscar de Melhor Filme Internacional e Melhor Direção.

A teoria posta à prova pelo grupo é real, proposta pelo professor norueguês Finn Skårderud. O tal desnível de álcool no sangue, ele defende, causa impactos que somente sua compensação poderia sanar. Daí, manter a porcentagem de 0,05% - a partir da constante ingestão de bebidas - poderia fazer com que os indivíduos fiquem mais relaxados, determinados, abertos e corajosos. Ou seja, tudo que Martin deseja.

A premissa que motiva a história do longa tem um quê de humor, é quase satírica, exagerada. O quarteto estabelece série de regras e define, por exemplo, que só é permitido beber... em horário comercial. Passam, então, a secretamente ingerir álcool durante o trabalho, disfarçando o fato com garrafinhas de água ou nas idas ao banheiro.

Outra regra diz respeito ao limite de 0,05%, fazendo com que eles acompanhem o nível de álcool a partir de espécies de etilômetros - ou bafômetros, como são mais conhecidos - particulares. Nas reuniões entre os quatro, dividem impressões, produzem um artigo científico coletivo que descreve as experiências e, naturalmente, bebem.

De início, a ingestão do álcool proporciona para os amigos, de fato, maior desenvoltura, graça, sociabilidade. No entanto, o sucesso da empreitada potencializa a euforia já estimulada pelo álcool e os amigos precisam lidar com consequências cada vez mais desafiadoras.

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"Druk - Mais Uma Rodada" passa a partir daí, então, a se desenvolver pelo viés mais dramático, destrinchando assuntos sérios e pessoais dos personagens. A decisão tem sentido lógico pelas consequências reais do consumo exagerado de álcool, mas também soa estranha a partir do cenário que o filme construíra anteriormente.

A impressão que fica é a que o longa não se cumpre nem enquanto a comédia que parece buscar ser de início, nem enquanto o drama que apresenta a partir de determinada altura. A mescla entre gêneros é mais do que natural no cinema mundial, mas em "Druk" a forma com que ambos são operados na narrativa causa certa estranheza, estabelecendo até certa contradição de discurso em alguma medida.

É inegável, porém, o sucesso que o filme vem fazendo junto ao público, à crítica e à própria indústria. Na Dinamarca, é dono de uma das principais bilheterias do país. Foram, também, dezenas de indicações ou vitórias em mais de 30 prêmios entregues pela crítica.

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Já pela parte da própria indústria, o longa dinamarquês foi o grande vencedor do European Film Awards, voltado à produção do continente europeu. De lá, saiu com os troféus de Melhor Filme, Direção, Roteiro e Ator.

Em premiações consideradas prévias do Oscar, também obteve sucesso: foi indicado na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro e, no BAFTA - prêmio do Reino Unido -, emplacou indicações em quatro importantes categorias: Ator, Filme em Língua Estrangeira, Roteiro e Direção.

Apesar do sucesso adquirido nestas premiações anteriores, "Druk" estava considerado forte de fato apenas na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar - que deve realmente vencer sem grandes dificuldades na cerimônia do próximo dia 25 de abril. No entanto, as expectativas iniciais foram superadas com a indicação de Thomas Vintenberg em Melhor Direção, uma das maiores surpresas da lista.

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Começando como uma espécie de pastiche a partir da proposta de uma situação exagerada e até surreal, "Druk" encaminha-se para uma abordagem edificante. No meio deste trajeto, tenta equilibrar-se entre as abordagens dos gêneros cinematográficos, mas oferece, como resultado final, um produto desbalanceado. Não faltam, porém, lágrimas derramadas e lições aprendidas, estimulando o apelo emocional que o filme tem junto ao público. Apesar dos "poréns", a capacidade de ser relacionável do longa, enfim, justifica o sucesso conquistado pela obra até aqui.

Druk - Mais Uma Rodada

- Já disponível para compra no NOW, iTunes/Apple TV, Google Play e YouTube Filmes
- A partir de 8 de abril, ficará disponível para compra e aluguel no Vivo Play e Sky Play

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