Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Recebi, dias atrás, uma crítica azeda — daquelas bem temperadas com indignação piedosa — de um leitor que se dizia “escandalizado” com minha conversão ao gatolicismo.
Segundo ele, minha crônica anterior cometeu o grave pecado do esquecimento. Teria relegado os cães a uma nota de rodapé da devoção doméstica, exaltando os felinos como se fossem os únicos dignos de altar e sacrifício (de sachês). Você trocou a fidelidade de Pedro pelo silêncio de Tomé. Os cães sempre estiveram com você. Os gatos só aparecem quando querem. – disse.
Reconheço. A crítica tem sua graça teológica. Mas, como todo convertido recente, é preciso que eu responda com humildade — e um leve ronronar de ironia.
Digo, antes de tudo, que não renego minha origem. Fui criado à imagem e semelhança dos cães. Sei bem o que é ser seguido até o banheiro por um pastor devoto. Sei o calor de uma orelha caída, a alegria escandalosa do reencontro após cinco minutos de ausência, a fidelidade que beira o fanatismo amoroso.
O cão é o missionário da casa. Ele prega, exorta, lambe os pecadores com energia. Recebe os filhos pródigos com entrega e sinceridade. Mas, meu caro reformador, permita-me dizer que os gatos são outra ordem.
Eles não vieram ao mundo para converter. Vieram para contemplar. Se o cão é evangelizador, o gato é místico. Enquanto o primeiro late a verdade ao mundo, o segundo suspira enigmas para quem sabe esperar. O cão é pastoral. O gato é monástico.
Sim, os cães são fiéis — mas os gatos são livres. E por isso, talvez, sua presença seja mais inquietante, mais espiritual.
O cachorro ama com o coração todo — e mostra. O gato ama em silêncio — e testa. É um amor que exige fé.
Quando um gato vem até você, sem pedido, sem pressa, sem comando — e se deita ao seu lado como quem aceita o universo inteiro naquele momento de descanso — é como se dissesse: “'Não te sigo porque devo. Te sigo porque escolhi'”.
E ser escolhido por um ser que não precisa de você — ah, meu caro — isso não é vaidade. É amor silencioso e profundo.
A crítica, porém, termina com um ultimato: “Não há comparação. Um cachorro daria a vida por você. Um gato dormiria sobre seu cadáver”.
Talvez. Mas ao menos dormiria com elegância. E deixaria no velório a leveza de quem entende que a vida, como o sol da tarde, passa — mas sempre volta a bater na varanda. Seja nessa ou em outra das sete (ou mais) vidas.
Portanto, querido protestante da fé canina, recebo suas palavras com respeito e uma leve espreguiçada de compreensão.
A fé dos cães é a fé da fundação. É a que sustenta, que consola, que nos perdoa antes mesmo de pecarmos. É presença inteira, sem cálculos. É abraço que chega correndo, mesmo quando o mundo desaba. É o amor que nos ensinou o que era amar, muito antes que soubéssemos retribuir.
Não nego isso. A fé canina é a primeira aliança do afeto. Mas permita também que, neste mosteiro de redes de proteção e mantas quentes, eu siga ajoelhado no silêncio contemplativo do gatolicismo, esperando, mais uma vez, ser digno de ser escolhido.
E, quem sabe, um dia, gatos compartilhem com os cães um lugar à sombra no mesmo tapete sagrado.
Aumém. Ou Amiém. Ambos serão ouvidos.
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