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Como me tornei gatólico
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Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis

Como me tornei gatólico

Os gatos, para mim, eram criaturas altivas ao extremo, temperamentais como santos em retiro, e tão silenciosas que pareciam meditar
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O que é ser um gatólico (Foto: Pexels / Krysten Merriman)
Foto: Pexels / Krysten Merriman O que é ser um gatólico

Confesso: nasci pagão. E analfabeto. Aliás, como todo mundo — mas sempre me reconheci um cãognóstico — desses que acreditam no que conhecem. E eu só sabia que o melhor amigo do homem tem focinho úmido e rabo que abana.

Os gatos, para mim, eram criaturas altivas ao extremo, temperamentais como santos em retiro, e tão silenciosas que pareciam meditar. Eu, que cresci sob o catecismo canino do “vem cá” e “deita aqui”, achava que amar gatos era uma heresia doméstica. Mas todo herege, cedo ou tarde, encontra sua epifania. A minha se chamou Lee.

Um gatinho cabeçudo, de olhos expressivos e bigodes que pareciam desenhados à mão. Ele não pediu permissão para entrar na minha vida. Chegou como herança de um namoro acabado do meu filho — e já se sentiu em casa sem qualquer cerimônia.

No primeiro dia, ignorou meus assobios. No segundo, dormiu em cima da minha cabeça. No terceiro, miou para o nada às três da manhã, como quem reza.

E eu, sem perceber, já estava ajoelhado diante de sua caixa de areia, limpando com devoção obsequiosa.
Foi o batismo.

Daí em diante, os sacramentos felinos se deram em sequência. A crisma, no dia em que ele permitiu o primeiro cafuné. A comunhão, quando dormimos juntos pela primeira vez — ele ronronando no meu peito como um pequeno motor divino. A confissão, quando descobri que eu era, sim, uma pessoa que fala com gatos no diminutivo, com voz de novela das seis.

E assim, tornei-me Gatólico. Mas como toda boa fé, a minha foi testada. E Deus — ou Bastet, talvez — enviou outra criatura para me provar. Bella.

Pé dura, achada na garagem do prédio. Um fiapo de gata, com olhos esbugalhados e um miado fanho. Tentei resistir. Já tinha Lee, meu primeiro amor. Não havia espaço para outra devoção. Mas Bella... Bella tinha aquele charme das santas rebeldes.

Escalava redes de proteção como quem sobe aos céus. Caçava moscas com uma fúria quase mística. Fazia da caixa de papelão um altar — e do meu colo, seu trono. Foi inevitável: a segunda conversão.

Lee, já um senhor robusto e ciumento, olhava com desdém aquela noviça barulhenta. Mas aos poucos, até ele se rendeu. A casa se tornou templo. Eu, o devoto. Eles, os deuses — pequenos, peludos e sagrados.

Hoje, vivo em estado de graça felina e sigo, submisso, a liturgia gatídica, no mosteiro que se tornou minha casa. Digo “minha” por força de expressão. Depois deles, não passo de um noviço, aprendendo os primeiros rituais.

O dia começa com o miado das matinas, por volta das 4h14, quando Lee decide que a fome é mais urgente que meu sono. Sigo para a cozinha em silêncio, como um monge, abrindo o sachê com a solenidade de quem parte o pão. A primeira oferenda é servida.

Depois vem a meditação contemplativa — eu e eles, imóveis, olhando o nada com profundidade franciscana. Ao meio-dia, a bênção do sol — aquele espreguiçar estendido, barriga para cima, olhos semicerrados, quase um êxtase místico. No entardecer, a vigília da sacada, conduzida por Bella, a profetisa das alturas.

E quando um deles desaparece por horas e o desespero bate, sei que é o momento do confessionário. Me agacho. Chamo com voz de romeiro. Faço promessas. E, se for digno, recebo de volta a graça da presença. Tudo isso seria inútil, porém, sem os votos de obediência — feitos por mim, claro.

Despertar ao primeiro miado. Entregar meu colo sem restrições. Limpar a caixa como quem purifica um altar. E amar, sem condições — mesmo quando a pata for rápida e o olhar, frio. Porque no fundo, ser Gatólico é entender que fé não se impõe — se conquista.

Que a presença mais silenciosa pode ser a mais sagrada. Que o amor, às vezes, precisa de espaço. E que todo lar com um gato é, por definição, um templo. Só deles.

Mas também é saber que, quando somos dignos, eles nos escolhem e confirmam. Nos presenteiam com um ronronar na madrugada. Um afago com a cabeça. Um olhar comprido de confiança. Uma proteção energética. Uma regulação de humor.

E aí, sem que se note, é o fiel quem é abençoado. Ser Gatólico, no fundo, é isso: servir com devoção — e ser amado com mistério. Amiém.

Foto do Danilo Fontenelle

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