Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

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Bolsonaro na ONU e a floresta onde fogo não se propaga

Presidente Jair Bolsonaro em discurso na ONU
Presidente Jair Bolsonaro em discurso na ONU

No discurso do presidente Jair Bolsonaro nas Nações Unidas, nesta terça-feira, 22 de setembro, uma das partes mais equivocadas diz respeito à Floresta Amazônica. Não é muito diferente do que ele fala por aqui, mas quando ganha alcance mundial num foro da ONU a situação se torna mais constrangedora. Bolsonaro disse que as queimadas são causadas por índios e caboclos, em áreas já desmatadas. Ir até a ONU fazer acusação de que quem destrói a floresta são os povos originários é uma violência, um desrespeito, uma afronta.

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Bolsonaro também disse que o Brasil respeita "a melhor legislação ambiental do planeta". Tão boa que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quer desregulamentar "de baciada" e "passar a boiada".

Mas, o que quero chamar atenção é para outra coisa que ele disse, e vem dizendo. "Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior". Um disparate. A Amazônia, grosso modo, é composta de dois grandes ecossistemas. Há as áreas inundáveis, sim. Os locais as chamam de várzeas e igapós. E há, também, as florestas de terra firme. A área inundável é estimada em aproximadamente 27% da Amazônia. Cerca de 70% é de terra firme. Floresta úmida, mas não é inundada, tampouco invulnerável a incêndio.

Quer dizer que a terra firme é vulnerável a incêndios e a área inundada se comporta como diz Bolsonaro? Nela o fogo não se propaga? Não é o que indica estudo internacional, liderado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e publicado em 2017 na revista científica PNAS. Com base em dados de satélites e pesquisa de campo, os pesquisadores mostraram que as áreas inundáveis de várzea são mais vulneráveis a incêndios nas épocas de pouca chuva. Imaginava-se que as zonas mais distantes do centro da Amazônia eram mais suscetíveis, mas os pesquisadores descobriram outra coisa. Quando chove pouco, as zonas que normalmente alagam ficam mais expostas e demoram mais a se recuperar das queimadas. Os estudiosos avaliaram a regeneração após o impacto do fogo na estrutura da floresta e na fertilidade do solo.

Ou seja: nem toda a floresta é inundada. E mesmo a parte alagada é vulnerável a incêndios.

Bolsonaro abriu o discurso afirmando: "O mundo necessita da verdade para superar seus desafios".

 Área de floresta inundada na região do rio Juma, no Amazonas
Foto: ÉRICO FIRMO
 Área de floresta inundada na região do rio Juma, no Amazonas

O Brasil brinca de menosprezar tragédia

Na cruzada do governo Bolsonaro para manter a aparência de normalidade, o Flamengo foi instrumento para pressionar pela volta precipitada do futebol. Alardeou a eficácia de protocolo com padrão europeu. Ocorre que uma coisa é adotar o protocolo numa realidade de pandemia controlada. Outra coisa é retornar ao futebol em junho, como ocorreu no Brasil. As negociações envolveram uma revolução dos direitos de transmissão. O Flamengo já tinha tido até morte de funcionário histórico do clube, Jorginho, massagista desde o tempo de Zico. Teve morte de ex-atleta e de ex-presidente de Conselho Deliberativo. Ontem, o time foi a campo desfalcado de sete jogadores, vítimas de um surto de Covid-19 que não respeitou o exemplar protocolo. A partida quase não foi realizada. O time quase foi expulso do Equador.

Enquanto isso ocorria, o Ministério da Saúde dava aval para a volta do público aos estádios em outubro, com 30% da capacidade. Isso mesmo. Ontem houve a mais patente demonstração no Brasil dos buracos no protocolo de retorno do futebol. Uma das mais impactantes no mundo. E o governo brasileiro, que estimulou e foi sócio das articulações do Flamengo para o futebol voltar o quanto antes, finge que tudo está bem. Que o protocolo está uma beleza. Que um surto não atinge o atual campeão nacional, parceiro do governo pela volta do futebol, que se tornou alvo do próprio movimento.

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