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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é editor-chefe de Cotidiano do O POVO. Já foi editor adjunto de Política, editor-executivo de Cotidiano no O POVO, editor executivo do O POVO Online e coordenador de plataformas digitais

Érico Firmo política

Ridículos tiranos

Lula contemporiza com ditaduras na América Latina. Bolsonaro defende a ditadura que ocorreu no Brasil mesmo
Tipo Opinião
Bolsonaro e Xi Jinping: ditadura comunista é maior parceira comercial do Brasil (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Bolsonaro e Xi Jinping: ditadura comunista é maior parceira comercial do Brasil

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi titubeante ao se referir ao regime autoritário da Nicarágua. Não é nenhuma novidade a relação de afinidade que o PT mantém com ditaduras ou regimes autoritários de esquerda, vide Cuba e Venezuela. Lula, na entrevista, defendeu a alternância de poder, independentemente do regime. Citou da Nicarágua à Alemanha. Mesmo no parlamentarismo, não gosto de governante que se perpetua no poder. Mas, há longa distância entre ser chefe de Estado no presidencialismo e o papel de primeiro-ministro no parlamentarismo. Lula faz certa ressalva, mas prefere não criticar diretamente a Nicarágua, sob argumento do respeito à soberania às questões internas. Uma coisa é não interferir com a autodeterminação dos povos, outra é se furtar a comentar o absurdo de um governante que mandou prender sete candidatos opositores antes da eleição. Não deveria ser uma questão difícil para alguém que denuncia mundo afora ter sido preso por razões políticas para não ser candidato.

O assunto ditadura também esteve na pauta de Jair Bolsonaro. O regime instaurado em 1964 no Brasil não cai no Enem desde que ele virou presidente, mas o capitão da reserva não se furta de seguidamente defender não a ditadura em outros países, mas a que prendeu, torturou e matou aqui mesmo. Ele criticou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por desmonetizar páginas aliadas dele em redes sociais, acusadas de propagar informações fraudulentas. Segundo Bolsonaro, desmonetizar páginas de Youtube é censura. Mas, ele não defende a ditadura militar? Segundo ele, tirar as verbas dos youtubers conservadores é pior que a censura da época em que os generais se alternavam numa ditadura da instituição.

Segundo Bolsonaro, a censura ocorrida na ditadura era apenas de mensagens enviadas a subversivos. "É porque eles davam recados, naquela época, para os seus comparsas aqui no Brasil através daquele tipo de matéria. Então por isso que houve a censura naquele momento." Ou o presidente é um compulsivo mentiroso ou um completo desinformado, coisas que não se excluem.

A censura atingiu desde a música Tanto Mar, de Chico Buarque — e tantas outras do autor — a Tiro ao Álvaro, de Adoniran Barbosa e Osvaldo Moles. Esta última por "falta de gosto". A música que começa com "De tanto levar frechada do teu olhar" não tem conotação política alguma. A censura também atingiu a novela Roque Santeiro.

No caso de Lula, há uma tradição da esquerda brasileira — em grande parte influenciada pelo stalinismo, ou pelo maoísmo, ou pelo castrismo — que defende a ditadura como necessidade, em certas circunstâncias. A democracia não raro é vista como instituição “burguesa”, um princípio instrumental a ser acionado em certas situações, não um valor em si. Quanto a Bolsonaro, trata-se de militar que admira a ditadura, que talvez tenha chegado tarde demais para dela usufruir. Mas, nasceu de seus escombros.

Há distinção necessária: Lula defende ditaduras por aí afora, o que é um absurdo e merece condenação. Mas, ele governou democraticamente. Bolsonaro é desde sempre simpatizante da ditadura que houve no Brasil mesmo. O que ele combate é a esquerda — a ditatorial e a democrática também. Como presidente, atenta contra instituições de forma recorrente.

No dia em que a democracia brasileira foi refundada, Ulysses Guimarães fez o discurso que serve como diretriz: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.” Simples assim.

Tolerância com ditadura nenhuma

Condenar regimes autoritários de direita e esquerda muitas vezes obedece aos parâmetros da rejeição a um campo ideológico ou outro. A democracia entra como muleta. A condenação a ditaduras não pode parar na Nicarágua, em Cuba ou na Venezuela e preservar a Arábia Saudita, teocrática, cristofóbica e que esquartejou jornalista ainda vivo. Aliás, no campo das ditaduras de esquerda, também não dá para os empresários democratas contemporizarem com o regime chinês, violento contra os direitos humanos, com histórico de violações trabalhistas e predatório do ponto de vista ambiental. O fato de ser o maior parceiro comercial do Brasil faz muitos capitalistas flexibilizarem seus critérios. Mas, pau que dá em Nicarágua tem de dar em China também.

Ouça o podcast Jogo Político: 

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