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O limite do discurso sobre segurança
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista

Érico Firmo política

O limite do discurso sobre segurança

Não basta o discurso enfático. O que importa para a população é resultado
Tipo Opinião
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 GOVERNADOR Elmano entregou fuzis às forças de segurança (Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS GOVERNADOR Elmano entregou fuzis às forças de segurança

Segurança pública é o principal problema do Ceará há uma década e meia, pelo menos. Já é o flanco mais explorado nas críticas da oposição. Nas abordagens, há pouco motivo para esperança. A retórica varia do superficial ao completamente equivocado, por vezes com doses de sensacionalismo. Porém, motivos para cobranças existem. Mais que isso, elas são necessárias. Facções criminosas são questão de dimensão nacional, mas o Estado é um dos casos mais críticos. Inclusive com inserção na política. A base se queixa da exploração eleitoral, mas seria estranho se o governo não fosse advertido sobre a maior crise que atravessa.

O desafio para a esquerda

Nacionalmente, há dificuldade da esquerda em lidar com o tema da segurança. As facções criminosas criam uma dinâmica na qual as antigas receitas de investir em educação e política social não são suficientes. O governador cearense Elmano de Freitas (PT) é exemplo emblemático de mudança discursiva para tentar se reposicionar. É significativo porque ele é egresso dos setores petistas mais alinhados com a pauta de direitos humanos.

O conteúdo e o tom de Elmano

No penúltimo dia de 2025, Elmano voltou ao que já vinha dizendo: “Essa será a resposta permanente do Estado do Ceará e cada vez mais contundente de podermos garantir que pessoas que participam de facções, o lugar delas no Ceará é na prisão, e se enfrentar a Polícia, será efetivamente a perda da vida, como aconteceu ontem”, afirmou na terça-feira, 30.

O tom de Elmano passou a ser adotado a partir de 3 de junho de 2024, quando Roberto Sá tomou posse como secretário da Segurança Pública e Defesa Social. “Dizer muito claro ao Estado do Ceará que, nessa nova fase, bandido no Ceará será tratado como bandido que aterroriza nosso povo”.

Em 23 de março de 2025, o governador afirmou: “Entre um policial ser vítima e bandidos tombarem, que eles levem sempre a pior. Minha determinação será sempre agir dentro da lei, mas com a força que for necessária para combater firme o crime e dar mais paz para nossa população”.

Em 31 de outubro passado, após operação na qual policiais mataram sete pessoas em Canindé, o chefe do Poder Executivo estadual celebrou: “Nenhum policial morto. Nenhum inocente alvejado. A população protegida. Parabéns à nossa Polícia Militar do Ceará!”

Em 5 de novembro, ele repetiu o tom que vinha adotando: “Em confronto da Polícia Militar com o bandido, que morra o bandido e o policial militar possa ter sua vida preservada”.

Na verdade, a fala do governador é repleta de óbvia. Não é razoável esperar que o policial prefira morrer a atirar quando em confronto. Naturalmente é muito ruim se um agente público é morto em serviço, no embate com criminosos. E claro que criminoso deve ser tratado como tal, como mais seria?

O problema é a ênfase. A forma como se verbaliza tangencia, ou até mais que isso, o estímulo.

A postura é um aceno às forças policiais, cuja insatisfação já provocou crises e instabilidade em gestões anteriores. Além disso, no contexto de uma oposição que tem protagonismo bolsonarista, é uma forma de se dirigir ao eleitor que pode ser atraído pelos adversários.

Não se trata de novidade retórica. Em 2017, no primeiro governo Camilo Santana (PT), o delegado André Costa assumiu a segurança pública. O discurso dele ficou célebre: “A gente oferece duas coisas para o bandido: se ele quiser se entregar, a Justiça. Se ele quiser puxar uma arma, o cemitério”.

Soa forte e com autoridade, não é? O primeiro ano dele, 2017, é até hoje o mais violento da história do Ceará. O ano seguinte, 2018, é o segundo pior nos indicadores. Em 2019, houve a maior onda de ataques de facções criminosas ocorrida no Ceará, talvez sem precedentes no Brasil. Costa saiu em 2020, meses depois do mais longo motim já ocorrido na Polícia Militar.

Não basta o discurso enfático. O que importa para a população é resultado.

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