Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista
O que a Venezuela indica sobre o "clima" entre Lula e Trump
O modo imperial plus acionado no atual governo Trump, com olhos voltados para a América Latina, não deixará de estar bastante atento à eleição deste ano no Brasil
Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
LULA conversa com Trump em 26 de outubro de 2025, em Kuala Lumpur. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, observa
A forma como os Estados Unidosatacaram a Venezuela e carregaram Nicolás Maduro foi uma agressão de várias ordens. Não se trata de discutir o papel do presidente agora em cativeiro, que assumiu em um regime autoritário e o piorou gradualmente por meio da dissolução da democracia, da crise econômica e dos indicativos de fraude eleitoral. Um país não tem direito de invadir o outro e levar o governante preso, mesmo um ditador. Os Estados Unidos se arvoram em polícia do mundo, por autoproclamação. Donald Trump deu a ordem porque tem nas mãos a força para tal e por não haver quem possa impedi-lo.
O chefe da Casa Branca envia vários recados e sinais. Ameaçou a própria presidente interina, Delcy Rodríguez, e também Cuba, Colômbia, México e Groenlândia. Mas a mensagem é transmitida ao mundo todo. Ele ostenta poder, em particular pelo caráter cinematográfico da operação. Mostra que o limite da ação é a própria vontade. A ordem e o direito internacional foram desmoralizados. A insegurança está disseminada entre os países. Na América Latina principalmente.
O Brasil é peça particular nesse contexto. A incursão militar ocorre em momento no qual Washington tem governos simpáticos a ele em Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e Peru, e terá no Chile. A conjuntura ajuda a viabilizar a intervenção. Porém, o ator de maior peso é o Brasil. Richard Nixon já dizia que para onde o País se inclinasse, se inclinaria o resto da América Latina. A despeito do exagero, uma relação hostil com Brasília seria um fator que tornaria a iniciativa mais delicada. No fim das contas, o governo Lula (PT) condenou a operação, mas de forma moderada, sem citar os nomes nem de Trump nem de Maduro.
Muito se discutiu, aqui inclusive, sobre o que levou à inflexão da Casa Branca na relação com Lula. Uma hora impõe sanções e faz publicações hostis. De repente, um encontro de 40 segundos, “pinta o clima”, os dois viram amigos e a coisa se encaminha bem. Parece-me claro que a questão — leia-se petróleo — venezuelana, neste momento, importa mais para os Estados Unidos que o Brasil. Um dos componentes para a reaproximação pode ter sido a preparação do terreno para a investida do fim de semana passado.
Interesses
O modo imperial plus acionado no atual governo Trump, com olhos voltados para a América Latina, não deixará de estar bastante atento à eleição deste ano no Brasil. Washington tem mecanismos diversos de influenciar ou mesmo interferir em processos eleitorais. Do apoio público à consultoria, como ocorreu com Bolsonaro em 2018. Até o uso das plataformas digitais não apenas para difundir mensagens aos eleitores como para mapear perfis detalhados e entregar o conteúdo mais convincente a cada público. Chegando inclusive à espionagem. São instrumentos dos quais Moscou e outras potências também se valem e, com as big techs, tornam-se cada vez mais eficazes para direcionar resultados eleitorais conforme os interesses externos.
Sem disfarces
No Brasil, o bolsonarismo encena discurso sobre liberdade e democracia. Trump superou essa fase de fingimento. Em tom desavergonhadamente imperialista, é constrangedor como não se falou palavra sobre democracia. O discurso é de poder, de imposição, de intimidação. Quando perguntado sobre nova eleição, Marco Rubio deu uma risadinha. O alvo da Casa Branca é o petróleo, na economia. Mas, de forma mais ampla, o predomínio sobre outras nações.
Não cabem disfarces. Tudo está explícito e não combina com a retórica da direita brasileira e cearense.
Venezuelanos
Aguardemos para ver, dentro de cinco ou dez anos, quão melhor a vida dos venezuelanos estará. E quão mais democrático será o país.
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