Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Já foi repórter de Política, editor-adjunto da área, editor-executivo de Cotidiano, editor-executivo do O POVO Online e coordenador de conteúdo digital. Atualmente é editor-chefe de Política e colunista
Foto: Mauro Pimentel/AFP
POLICIAIS na favela Vila Cruzeiro, no complexo da Penha favela, no Rio de Janeiro, durante operação contra a facção Comando Vermelho, em outubro de 2025
O modelo de segurança pública e a forma de enfrentamento ao crime para obter resultados concretos são temas políticos dos mais importantes do Brasil hoje. Diria que é uma questão central para o debate eleitoral deste ano, mas escrevi em algumas ocasiões que não vislumbro, hoje, o ambiente da campanha como espaço de reflexão qualificada sobre qualquer assunto. Na melhor das hipóteses, o conteúdo das campanhas é raso, para evitar contestação ou posterior cobrança. Isso quando não resvala para o apelativo, o desqualificado, o agressivo. Ou mesmo a baixaria. Mas, num mundo ideal, a busca por soluções reais na segurança, que mude para melhor a vida da população, deveria ser o tema preponderante.
Outra coisa que também já mencionei — Nelson Rodrigues afirmava que as coisas ditas apenas uma vez permanecem inéditas — é que as velhas receitas para a segurança pública não funcionam nesse ambiente de facções. É preciso criar algo que não existe. Ninguém pode cantar de galo.
A ideia de esquerda de apostar na educação e políticas preventivas é insuficiente. Necessária, mas passa muito longe de se bastar. A truculência, o grito, rendem seguidores, eleitores e audiência, mas não é solução. Tampouco a brutalidade e a violência, conforme abordei ontem. Apostar em inteligência e tecnologia é fundamental, mas não pode ser apenas retórica superficial.
Sucesso e fracasso das operações
A esse respeito, a agência de notícias alemã Deutsche Welle (DW) produziu reportagem, republicada pelo O POVO, sobre operações que prenderam grandes chefes criminosos sem provocar nenhuma morte. Foi assim a prisão de Elias Maluco, em 2002, resultado de investigação silenciosa e na qual nenhum tiro foi disparado.
Em 2000, Marcinho VP, chefe do Comando Vermelho no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, também foi preso sem que houvesse confronto. Em 2011, Nem da Rocinha foi achado escondido no porta-malas de um carro, enquanto tentava fugir de bloqueio policial que impôs cerco durante meses. A detenção de Rogério Avelino de Souza, o Rogério 157, mobilizou aproximadamente 2,9 mil pessoas, entre policiais e membros das Forças Armadas, e não houve confronto. Já na “megaoperação” do fim de outubro no Rio de Janeiro, de 100 mandados, 20 foram cumpridos. Além disso, entre os 122 mortos, 15 eram pessoas que eram alvos de mandados.
Muita gente vibrou com a operação mais letal da história do Brasil, mas quão bem-sucedida ela de fato foi? Qual delas provocou maior dano ao crime?
Opções
Na mesma reportagem citada acima, Ignácio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do Laboratório de Análise da Violência da instituição (LAV-UERJ), afirma: “A possibilidade de prender determinados criminosos sem tiroteio sempre existiu e continua existindo, isso não se perdeu, basta querer. Se houver inteligência, há a possibilidade de localizar as pessoas no momento em que elas não podem se defender”.
Robson Rodrigues, que foi chefe do Estado-Maior da Polícia Militar e coordenador das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), e ainda doutor em ciências sociais e pesquisador do LAV-UERJ, resume: “Não surpreendemos na bala. Surpreendemos na inteligência”.
Ele aponta o óbvio: operações como a realizada no Rio de Janeiro priorizam o espetáculo e não o resultado.
Têm efeito midiático, e político, mas não resolvem a segurança.
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