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Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

A pobreza menstrual no país que não chora as mortes por Covid

Parece realmente difícil fazer chegar a força de um tema como pobreza menstrual ao coração de um dirigente político que até hoje foi incapaz de um só gesto de compaixão com os que sofrem com o drama da pandemia
Tipo Opinião
Bolsonaro vetou distribuição de absorventes para mulheres pobres (Foto: EVARISTO SA / AFP)
Foto: EVARISTO SA / AFP Bolsonaro vetou distribuição de absorventes para mulheres pobres

A decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de vetar dispositivo de uma lei aprovada no Congresso que previa distribuição gratuita de absorventes para mulheres pobres, abriu um debate, como quase tudo que envolve o personagem político, que mistura insensibilidade, esperteza, oportunismo e realidade. O ponto que mais pega, porém, é mesmo a nova demonstração que sai de dentro do governo brasileiro de incapacidade para entender o sofrimento do lado mais pobre da população, falando-se de quem enfrenta a falta do básico mais básico.

Parece realmente difícil fazer chegar a força de um tema como pobreza menstrual ao coração de um dirigente político que até hoje foi incapaz de um só gesto de compaixão com os que sofrem com o drama da pandemia, em geral optando por minimizar o quadro, falar em "mimimi", dizer que "todos morremos", lembrar que há um "ciclo da vida", comparar a uma "gripezinha" e por ai segue. Até a ministra que poderia manifestar algum incômodo, pela condição de gênero, ao menos, optou por sair em defesa do chefe e fazê-lo da maneira mais esquisita. Segundo alegou Damares Alves, "a prioridade é a vacina", tentando estabelecer uma falsa dúvida visto que uma coisa nada tem a ver com a outra.

Damares, com sua tese esdrúxula, talvez tenha exposto de maneira mais flagrante a falta de argumentos do governo para explicar o caminho pelo qual optou. Há ainda, em outra demonstração de que simplesmente não se tem como justificar de maneira plausível a decisão, o ponto destacado por Bolsonaro em algum momento segundo o qual o projeto aprovado pelo Congresso era de uma deputada do PT (Marilia Arraes, de Pernambuco). Coisa rasteira, de quem não entende o que é política, na sua essência, e que busca estabelecer uma obrigação inexistente de o governante buscar saber se aquilo que chega à sua mesa para sanção, depois de discutido e aprovado pelo parlamento, originalmente foi proposto por aliado ou opositor.

Está tudo errado e nada conseguirá fazer o presidente e seus aliados justificarem a decisão. Nem mesmo o fato de, por exemplo, ter-se descoberto agora que o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, também optara pelo veto diante de proposta semelhante aprovada no ano de 2015 pela Câmara de Vereadores. Como primeira constatação, quase matemática, porque dois erros não levam a um acerto; segundamente (em homenagem ao inspirador Odorico Paraguassu), porque esse passo isolado de Haddad contraria a lógica geral de sua gestão à época, sensível a aspectos sociais e à temática da pobreza, enquanto o gesto de Bolsonaro parece em absoluta coerência com tudo que cerca seu governo, como ideologia, como política e como prática.

A boa resposta da política isola Bolsonaro, de novo

De qualquer forma, está sendo interessante, mais uma vez, localizar governantes estaduais e municipais marcando suas diferenças diante da situação. Como já aconteceu durante a pandemia, inclusive com a necessidade do Judiciário interferir para evitar que o Governo Federal tentasse impor sua visão negacionista sobre os demais entes. Bom, sabe-se agora, por exemplo, que em Sobral a prefeitura já instituiu uma política de atenção à higiene íntima e pobreza menstrual, que a Câmara do Iguatu aprovou semana passada iniciativa semelhante da gestão local, que o Ceará tem uma lei estadual de atenção com as estudantes pobres da rede pública em suas necessidades diante da menstruação e que o prefeito de Fortaleza, José Sarto, também pretende encaminhar à análise dos vereadores uma iniciativa de sentido igual. Sem falar nos sinais eloquentes que o Congresso já emitiu de que o veto será derrubado. Dá um certo alívio perceber que, de novo, o Palácio do Planalto ficará isolado na sua opção pela insensibilidade.

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