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Precisamos urgentemente enfrentar o debate acerca das mídias sociais
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É doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisa agendas internacionais voltadas para as mulheres de países periféricos, representatividade feminina na política e história das mulheres. É autora do livro de contos

Kalina Gondim comportamento

Precisamos urgentemente enfrentar o debate acerca das mídias sociais

A sociedade está diante de muitas encruzilhadas: o velho está se dissolvendo, e o novo ainda não se revela alicerçado plenamente
Tipo Análise
Série "Adolescência", da Netflix (Foto: Divulgação/Netflix)
Foto: Divulgação/Netflix Série "Adolescência", da Netflix

O mês de março, tradicionalmente conhecido por ser dedicado à luta pelos direitos das mulheres, finalizou deixando um rastro de violência de todos os tipos perpetrada contra as mulheres. Estudiosas, como a italiana Sílvia Federici e a argentina Verônica Gago, defendem que o aumento exponencial da violência e do feminicídio são expressões de uma verdadeira guerra contra as mulheres. Um dado a ser observado
nesse panorama é o crescimento de discursos de ódio contra as mulheres nas redes sociais.

A série “Adolescência”, disponível no catálogo da Netflix, retrata o fenômeno e como ele induz adolescentes do sexo masculino à reprodução de conteúdos misóginos. A adolescência é uma fase de muitas crises existenciais e conflitos intergeracionais, ser adolescente, portanto, nunca foi fácil, mas, nos dias atuais,
vivenciar a fase se tornou mais complexo e desafiador.

A sociedade está diante de muitas encruzilhadas: o velho está se dissolvendo, e o novo ainda não se revela
alicerçado plenamente. As crises no mundo do trabalho e nos papéis de gênero causam tensionamentos. É difícil ser jovem em um cenário de desemprego e precarização do trabalho a nível mundial.

Nessa realidade, o presente desolador afeta os ânimos para se pensar o futuro. Paralelamente aos desafios profissionais, os adolescentes experienciam dificuldades em seus relacionamentos íntimos. As transformações das mulheres, movidas por independência, trouxeram como efeito colateral as crises de masculinidade.

Os cenários de mudanças aceleradas são um terreno fértil para desconstruções subjetivas e aumento do abismo entre o eu real e o eu idealizado pelo outro. Essas questões tão profundas afetam, sobretudo, os adolescentes que ainda não possuem ferramentas psicológicas para lidar com rejeições e frustrações no campo sentimental.

O descompasso entre os gêneros e as dores amorosas são os catalisadores da chamada “machosfera”, conceito que evidencia a existência de uma verdadeira rede virtual que dissemina ideias preconceituosas e misóginas. A “machosfera” e suas comunidades como, a redpill e os incels, alimentam-se da insegurança e do ressentimento de homens que elegeram as mulheres como inimigo comum. A lógica do inimigo se fundamenta em recursos discursivos sofisticados que têm por intuito colonizar as mentes dos jovens que transitam pela “machosfera”.

O avanço da tecnologia e da inteligência artificial propiciaram às chamadas deepfakes. Segundo a TV Senado, 96% daquelas são feitas com imagem de mulheres, sendo muitas utilizadas para assédio e companhas de difamação. Não podemos creditar o aumento da violência contra as mulheres e do feminicídio, unicamente às comunidades virtuais que disseminam o ódio às mulheres.

Contudo, a série “Adolescência” traz um alerta para os pais, profissionais da educação, da saúde e para a sociedade em geral. Nós precisamos saber o que nossos jovens buscam na internet. É urgente também o debate sobre os limites éticos da liberdade de expressão, bem como de se pensar meios e instrumentos para controlar determinados tipos de conteúdos que circulam no meio virtual.

O diálogo intrafamiliar, nas escolas, e de forma mais ampla, o debate público devem procurar entender esses fenômenos para melhor prevenir nossos jovens. Somente com informações poderemos fazer frente a esses ataques, o letramento tecnológico não pode se circunscrever apenas ao domínio técnico e instrumental; é necessário que se aprenda a problematizar e refletir sobre os conteúdos virtuais que entramos em contato, e não apenas consumi-los de forma passiva e acrítica.

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