Luana Sampaio é pesquisadora e diretora de criação audiovisual do O POVO. É doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com pós-graduação em Artes Criativas na Deakin University, na Austrália. Escreve sobre memória, testemunho, imagem, cinema e história
A parada de ônibus próxima ao shopping que ficava perto da faixa de pedestres, facilitando a vida de quem vai até lá de transporte público, mudou de lugar
Foto: Samuel Setubal
Imagem ilustrativa de apoio. Estações de ônibus da Avenida Bezerra de Menezes
Há vinte anos moro no mesmo bairro. É um tempo razoável pra mente absorver praticamente uma planta baixa do local e permitir que os moradores saibam exatamente onde encontrar tudo que querem. Também permite uma certa memória fotográfica que nos faz perceber objetos e outras coisas que às vezes só notamos quando não estão mais ali.
Há alguns anos, um shopping foi aberto próximo a minha rua, e a sensação era de que o dono do bairro tinha chegado.
Todas as ruas próximas mudaram de sentido (a minha inclusive) e houveram alterações na sinalização, tamanho dos quarteirões, desvios e tudo o mais que pudesse tornar o caminho até o shopping impossível de ser ignorado. Essa semana parece que um novo dono do bairro chegou.
A parada de ônibus próxima ao shopping que ficava perto da faixa de pedestres, facilitando a vida de quem vai até lá de transporte público, mudou de lugar. Agora no fim do quarteirão seguinte, ela está distante do muro que estampa o nome de uma construtora.
Alguns motoristas do transporte público se solidarizam e ainda abrem as portas próximo à faixa de pedestres, na parada agora invisível. No lugar dela, um recuo no estilo “entrada de prédio”.
Parece que se trata, mais uma vez, daqueles casos em que a paisagem urbana se modifica para deslocar a maioria em benefício de uma minoria.
Afinal, há de respeitar a valorização de um condomínio cujos futuros residentes precisarão apenas descer o elevador e caminhar em linha reta por alguns metros para chegar ao shopping. Quanto ao resto, caminhem mais, vocês já vêm de longe mesmo, não é?
É uma questão um tanto complicada. Não sei ao certo o quanto foi debatida, se foi ou com quem foi. Mas sejamos honestos que não seria a primeira vez em que a vivência urbana de uma rua, bairro ou cidade, é modificada pelo empreendimento privado de alto padrão da vez.
Quanto à memória, ela é obrigada a se adaptar, algo que faz pela sua própria natureza (embora nem sempre "obrigação" seja uma variável). Para quem vive a paisagem e é levado a aceitar sua mudança, talvez reste a pergunta de por qual motivo o dono do bairro parece, na verdade, não gostar muito dele.
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