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Fim dos tempos: cabelo agora é problema na seleção
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Lucas Mota é repórter de Esportes de O POVO. Estudou jornalismo na Universidade 7 de Setembro e na Universidad de Málaga (UMA). Ganhou o Prêmio CDL de Comunicação na categoria Webjornalismo e o Prêmio Gandhi de Comunicação na categoria Jornalismo Impresso, e ficou em 2º lugar no Prêmio Nacional de Jornalismo Rui Bianchi

Lucas Mota esportes

Fim dos tempos: cabelo agora é problema na seleção

Yan Couto, lateral-direito da seleção brasileira, revelou que não se apresentou para a Copa América com cabelo na cor rosa a pedido da CBF
Tipo Crônica
Yan Couto se apresentou à seleção brasileira sem seu corte habitual com cabelo rosa a pedido da CBF (Foto: Tim Warner / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)
Foto: Tim Warner / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP Yan Couto se apresentou à seleção brasileira sem seu corte habitual com cabelo rosa a pedido da CBF

Fui pego de surpresa com a revelação feita pelo lateral-direito Yan Couto, que defenderá a seleção brasileira na Copa América 2024. Destaque do Girona no Campeonato Espanhol, o jogador desfilou seu futebol ao longo da temporada com um corte de cabelo estiloso na coloração rosa.

Pois bem. Ao se apresentar à seleção, Yan apareceu com o cabelo sem o tingimento, na cor natural. Segundo o lateral, foi um pedido da CBF. “Na seleção vou de cabelo preto, vou tirar o rosa. Pediram. Basicamente isso, pediram, falaram que o rosa é meio ‘vacilão'”, revelou em entrevista à jornalista Yara Fantoni.

Episódio inacreditável. Essa história me fez voltar ao início dos anos 2000, na minha adolescência, quando jogava bola na seleção do colégio.

Nunca pensei que ter cabelo grande poderia incomodar tanto no futebol. O professor Alcemar detestava. Sei lá por quê.

“É a porra desse cabelo que atrapalha”, bradava lá de fora da quadra.

Tinha meus 14 anos. E certo talento no futebol para pelo menos se manter no time da seleção e ficar entre os titulares.

Era mais alto do que os meninos da minha idade. Já largava com uma vantagem. Habilidade, ok. Sem grande velocidade. No geral, estava na média para estar no time e garantir minutos em todos os jogos.

De craque mesmo na equipe tinha o Orelha, que colocava a bola onde queria. Lançava no futsal como se fosse meia do futebol de campo.

O Dodô vestia a 6, mas jogava como um 10. Canhota abençoada. Virou profissional de campo, vestiu a amarelinha na base e está aí até hoje.

O mais talentoso, pelo menos pra mim, era o Betinho. Fazia malabares. Showman, pode apostar. Virou jogador profissional de campo, pôs o filho do Romário no banco na base do Vasco, fez dupla com Coutinho, mas a carreira não deslanchou. Coisas do futebol.

Eu era o pivô da equipe. O menos talentoso com a pelota. Mas estava no bolo. E vivemos vários jogos juntos sob o comando do professor Alcemar.

Eis que meu cabelo era um problema para Alcemar. O cara me perseguia. Todo jogo a cabeleireira virava bronca.

Passei a ter ansiedade a cada jogo. Já temia que qualquer erro motivasse o grito lá da área técnica sobre ter perdido o gol por causa do cabelo.

Não entendia. Por que diabos o professor cismou com meu cabelo? Só lembrava dos craques cabeludos. Sorín, Batistuta, Pirlo e companhia.

Nos torneios, nosso time sempre duelava com a equipe da escola Irmã da Glória. Por lá jogava o Rafael. Tinha uma cabeleireira que nem a minha. Não usava tiara que nem eu, que já era um recurso de imagem para ficar claro que não havia cabelos sobre meus olhos. Mas professor Alcemar não entendia.

Rafael jogava demais. Camisa 4, ala, boa técnica e decisivo. No Irmã da Glória cabelo não era problema.

O professor Alcemar nunca entendeu que não era o cabelo o meu problema.

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