Marília Barreira atua como psicóloga e psicopedagoga clínica de crianças, adolescentes, adultos e idosos, assim como consultora em Psicologia. Professora do Curso de Psicologia na Universidade de Fortaleza (Unifor). Experiência na área de Psicologia, com ênfase em Educação, Psicologia Clínica, Psicologia Social e Identidade de Gênero e Diversidade Sexual
Janeiro Branco não é neutro: quem pode cuidar da saúde mental no Brasil?
Quem pode pagar por terapia? Quem pode faltar ao trabalho para cuidar da saúde mental? Quem pode dizer "não estou bem" sem correr o risco de perder renda, vínculo ou respeito?
Foto: jcomp/Freepik
Janeiro Branco: uma campanha alinhada à sociedade brasileira
Janeiro Branco se consolidou como um convite necessário: falar sobre saúde mental, romper silêncios, estimular o cuidado. Em um país marcado por sofrimento psíquico crescente, a campanha tem valor. Mas talvez seja justamente por isso que ela precise ser interrogada. Afinal, de qual saúde mental estamos falando? E, sobretudo, para quem?
O discurso dominante do Janeiro Branco costuma partir de um sujeito universal: alguém que reconhece seus limites, busca ajuda, organiza sua rotina, faz terapia, pratica autocuidado.
Um sujeito que tem tempo, recursos, informação e, principalmente, segurança para cuidar de si. O problema é que esse sujeito não representa a maioria da população brasileira. Quando falamos de saúde mental sem falar de desigualdade, corremos o risco de transformar o cuidado em privilégio e, o sofrimento, em falha individual.
A saúde mental não é neutra. Ela é atravessada por raça, classe, gênero, sexualidade e território. Nem todo sofrimento é legitimado como sofrimento.
Alguns corpos podem adoecer e ser acolhidos; outros adoecem e são culpabilizados, medicalizados ou simplesmente ignorados. Mulheres sobrecarregadas são chamadas de ansiosas. Pessoas negras, historicamente associadas à força e à resistência, têm sua dor deslegitimada.
O acesso ao cuidado psicológico revela isso de forma escancarada. Quem pode pagar por terapia? Quem pode faltar ao trabalho para cuidar da saúde mental? Quem pode dizer “não estou bem” sem correr o risco de perder renda, vínculo ou respeito?
Em um País onde o sofrimento é produzido por condições estruturais (desemprego, violência, racismo, LGBTfobia, misoginia) insistir apenas na responsabilização individual é uma forma sofisticada de silenciamento.
Essa lógica se sustenta sobre uma ideia de “normalidade” que também não é neutra. O que chamamos de saúde mental foi historicamente construído a partir de um modelo de sujeito branco, europeu, burguês, heterossexual, produtivo e emocionalmente regulado.
Tudo o que escapa a esse padrão tende a ser visto como desvio, desajuste ou incapacidade. A psicologia, quando não se critica, pode funcionar como ferramenta de adaptação a um mundo desigual, em vez de questioná-lo.
Por isso, é preciso dizer: nem todo sofrimento cabe no Janeiro Branco tal como ele é apresentado. Quando a campanha enfatiza apenas autocuidado, equilíbrio emocional e escolhas individuais, ela corre o risco de moralizar o adoecimento.
Quem não consegue “se cuidar” passa a ser visto como desorganizado, fraco ou resistente ao tratamento. O cuidado, que deveria ser um direito, vira obrigação. E o adoecimento, culpa.
Isso não significa negar a importância da psicoterapia, da escuta ou do cuidado subjetivo. Significa, ao contrário, ampliá-los. Significa reconhecer que saúde mental não se sustenta sem políticas públicas, sem condições dignas de vida, sem enfrentamento das violências estruturais.
Não há respiração profunda que dê conta de salários insuficientes. Não há pensamento positivo que neutralize o racismo cotidiano. Não há autocuidado que sobreviva à fome, à exclusão e ao medo constante. Um Janeiro Branco comprometido com a realidade brasileira precisaria perguntar menos “como você está cuidando da sua mente?” e mais “em que condições você está vivendo?”.
Precisaria deslocar o foco do indivíduo isolado para o sofrimento socialmente produzido. Precisaria reconhecer que, para muitos, adoecer não é escolha, é consequência.
O debate sobre saúde mental é, necessariamente, um debate político. Falar de cuidado sem falar de distribuição de renda, acesso à saúde, educação, trabalho e direitos é esvaziar o próprio conceito de cuidado.
A defesa da saúde mental passa pela defesa de políticas públicas robustas, do SUS, da saúde coletiva, da proteção social e do reconhecimento das diferenças. Passa por afirmar que algumas vidas adoecem mais não porque são frágeis, mas porque são sistematicamente violentadas.
Talvez o maior gesto político deste Janeiro Branco não seja repetir slogans sobre equilíbrio emocional, mas questionar quem está sendo deixado de fora dessa conversa. Enquanto a saúde mental for tratada como responsabilidade individual em um país estruturalmente desigual, ela continuará sendo um privilégio para poucos e uma cobrança injusta para muitos.
Cuidar da saúde mental, no Brasil, não pode ser apenas uma decisão pessoal. Em um País estruturado pela desigualdade, pelo racismo, pelo sexismo e pela exclusão histórica, o sofrimento psíquico não é um acidente, é um efeito.
Transformar a saúde mental em escolha individual é desresponsabilizar o Estado, naturalizar a precariedade e exigir adaptação de quem já vive no limite. Um compromisso real com o cuidado exige políticas públicas, investimento no SUS, acesso universal à saúde, proteção social e enfrentamento das violências que adoecem cotidianamente milhões de pessoas.
Falar de saúde mental é falar de direitos. E enquanto esse debate não for assumido como coletivo e político, continuaremos oferecendo discursos de autocuidado para pessoas que precisam, antes de tudo, de condições dignas para existir.
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