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Os sapatos de mamãe
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Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.

Os sapatos de mamãe

Já na porta da sapataria, percebi a primeira e significativa diferença: sorriu. Depois disso, percorremos sem interrupção o mesmo trecho em que era necessário parar para se sentar num banco duas ou três vezes
Tipo Crônica
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Imagem ilustrativa de apoio (Foto: Pexels/Mehmet Turgut Kirkgoz)
Foto: Pexels/Mehmet Turgut Kirkgoz Imagem ilustrativa de apoio

Mamãe chegou aos 93 com uma saúde que agradeço a Deus. E ostenta — ela ri quando uso o verbo — uma pele impressionante, viçosa, sem rugas, cabelos prateados, brilhantes, sempre bem cortados, olhos muito vivos, expressivos, e uma silhueta de chamar a atenção e causar inveja a mulheres dezenas de anos mais novas.

Cercada pelo amor de filhas, netos e genros, independente física e financeiramente, lúcida, não encontrava justificativa para o desânimo que nela se instalou e lhe roubou a vontade de passear.

Reuniu um repertório de queixas de que andava mal, logo se cansava, facilmente se desequilibrava. Chegou a cogitar a desistência total das saídas de fim de semana, quando jogamos conversa fora. Passei a observar os seus passos. Literalmente, eu o fiz.

Os sapatos elegantes, reservados às ocasiões formais, me pareceram pouco apropriados, alguns escapavam dos pés na caminhada e a obrigavam a despender energia para realizar um esforço maior do que o normal para manter o seu equilíbrio.

Aproveitei a primeira oportunidade e propus que não faríamos nada do que havíamos programado para aquele sábado antes de entrar em uma loja e de lá sair com os sapatos certos.

Pela primeira vez em muitas décadas, o critério aparência foi posto de lado pela prioridade centrada no conforto. Assim, a vendedora pôs aos pés de mamãe algumas caixas de onde retirou, uma a uma, as opções compatíveis com o que buscávamos.

E, finalmente, após experimentar todas as alternativas, uma a agradou especialmente. Não era chique. Nada do couro habitual. O tecido elástico, gentil, respirável, abraçou o pé por inteiro, e a base anatômica, com tecnologia anti-impacto, comuns aos tênis de treino, proporcionou a firmeza que selou a escolha.

Já na porta da sapataria, percebi a primeira e significativa diferença: sorriu. Depois disso, percorremos sem interrupção o mesmo trecho em que era necessário parar para se sentar num banco duas ou três vezes, pelo menos.

Andou todo o trajeto com desenvoltura, não reclamou de desequilíbrio ou de cansaço. Quis fazer compras, passar na farmácia, tomar sorvete sem pressa. A sua energia fora restaurada com uma simples mudança de estilo que lhe permitiu ver o mundo e nele pisar de outro modo.

Despreocupada do chão, não sentiu o tempo passar, viu mais graça nas coisas, mais delicadeza nas pessoas, mais brilho nas vitrines, mais sabores nas bolas de sorvete. Voltamos à vendedora para comprar um segundo par do mesmo modelo, mas de cor diferente. "Nunca mais decido nada em minha vida sem estar calçada com este par nos pés", ela me fez a confidência.

O motivo para desistir, a infelicidade insuperável, a tristeza que quase nos derruba pode ter estreita relação com a nossa insistência naquilo que nos machuca e desestabiliza. Às vezes, não é o mundo, não é ninguém, os outros ou nós mesmos. Às vezes, é só o sapato errado.

Foto do Marília Lovatel

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