Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.
Na mesma mala que esteve em terras germânicas, agora vão à capital da Emília-Romanha as camisas, as calças, o cinto, os sapatos, os casacos, o jaleco e o estetoscópio
Foto: Pexels/Timur Weber
Imagem ilustrativa de apoio
Quando Marcela decidiu estudar na Alemanha, pensei "por que tão longe?", mas, em seguida, concluí que era isso mesmo, criamos os filhos para o mundo. Seria um período fora de casa, morando em uma cidade pacata na Baixa Saxônia, e logo ela estaria de volta.
Na verdade, foram os dias mais compridos que vivi. Horas intermináveis, noites esticadas, esgarçadas até uma nesga de luminosidade no horizonte me avisar para ir dormir ou erguer a cabeça do travesseiro, encarar o dia de uma vez, sem ter me refeito do anterior.
O tempo começou a estacionar no momento de inserir a nécessaire na bagagem com os agasalhos, as leggings e demais peças do vestuário retiradas da gaveta para as pilhas dobradas em cima da cama. A fim de que tudo coubesse, a criatividade de uma publicitária em formação resolveu o problema, de modo bem prático, com grandes e coloridos sacos fechados a vácuo.
Na despedida, senti-me como as tais embalagens, o ar igualmente me pareceu roubado. Depois disso, demorei a respirar livre de toda a pressão. Só o retorno de minha filha devolveu aos meus pulmões o ritmo habitual, tranquilo.
No aeroporto, rendi-me ao clichê, tive o coração reposto no peito. Dentro do abraço, éramos ela e eu mesma que me reintegrava. Resgatei o sono das noites inteiras. Porém, o sossego não durou muito.
A maior ilusão da maternidade é acreditar que geramos seres para crescerem e se acrescerem a nós. Até que se tornem jovens adultos, não imaginamos que ocorre justamente o contrário. À medida que eles ganham independência, se separam mais um pouco do ninho onde nasceram e, a cada afastamento, levam consigo um pedaço de um corpo materno nunca mais inteiro.
Passado apenas um ano, Matheus repete a experiência da irmã, instalando o Atlântico no meio do caminho entre o nosso endereço em Fortaleza e o que ele vai residir durante o semestre de conclusão do seu curso de Medicina na Universidade de Bolonha. Novamente me preparo para os dias sem fim e as vindouras velhas conhecidas madrugadas insones.
Na mesma mala que esteve em terras germânicas, agora vão à capital da Emília-Romanha as camisas, as calças, o cinto, os sapatos, os casacos, o jaleco e o estetoscópio.
Resta lhe desejar uma boa viagem, as melhores descobertas e amizades, aprendizados significativos, um maravilhoso término de ciclo, seguido do início de outro ainda mais abençoado. Resta pedir a Deus pela sua proteção, que Ele ilumine os seus passos e as suas escolhas, e esperar com paciência — não é o meu forte — por nosso reencontro no mês de abril.
A visita será concomitante à Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha. Juntam-se duas alegrias, simultâneas, com as datas marcadas no calendário de 2026. Mamãe vai conosco — comemoro. Olhar o rosto dela trará a mim a lembrança de que eu também já fui um coração fora do corpo.
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