Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.
Foto: Pexels/Denisha Sandoval
Imagem ilustrativa de apoio
Cresci ouvindo que bichos dão muito trabalho, adoecem e, ainda que vivam muito, sua longevidade não supera um par de décadas. Assumir um animal de estimação, portanto, além de uma responsabilidade, é iniciar a contagem regressiva para o sofrimento inevitável da hora da partida — muitas vezes precoce.
“Quando tiver a sua casa, você cria quantos quiser”, sempre me disseram. Mesmo diante da fria e lógica racionalidade dos adultos, o amor que, desde a infância, dediquei aos espécimes de um reino a mim vetado por muito tempo nunca arrefeceu.
Sou, como escreveu o poeta Manoel de Barros, “água que corre entre pedras — liberdade caça jeito”. E o jeito foi esperar, constituir família, cuidar dos filhos até se tornarem grandes. Finalmente, a Mila resultou do consenso, após anos de negociação. No colo, um rascunho em que mal se revelava o projeto de cão, no ser frágil, dependente. Caímos de amores.
Cinco meses depois, descobrimos o seu estranho modo de conhecer o mundo, devorando-o. Para os estragos nos móveis roídos, estávamos até preparados.
Tivemos inclusive a precaução de estudar as plantas para saber quais eram tóxicas e mudá-las de lugar, transferindo-as para as prateleiras mais altas. Havia, porém, uma característica ainda não manifestada. Dos pequenos objetos aos inacreditáveis, nada lhe escapa.
Um descuido, uma distração, uma distância mal calculada, e lá vai o controle remoto, lá vem um tênis abocanhado, uma meia tirada do cesto de roupas. O hábito não guarda qualquer relação com a fome. Sua robustez e os atuais 17kg atestam isso.
Assim, no intervalo de poucas semanas, a cadela engoliu uma luva cirúrgica, roubada do pacote sobre a escrivaninha do quarto do meu filho, estudante de Medicina, e mais.
Os exames detectaram algo somente confirmado após a evacuação de uma pedra, do tipo seixo ornamental de jardim, de tamanho considerável, provavelmente ingerida durante um passeio corriqueiro. Seguiram-se consulta, coleta de sangue, eletrocardiograma, radiografia, ultrassom, endoscopia.
Enquanto comemorávamos o alívio de uma retirada, nos deparávamos com novas situações: uma casca de melão, meia-lua inteira posta para dentro com impressionante velocidade, e a cereja do bolo, um par de fones de ouvido bluetooth identificado no estômago.
Contratar um especialista comportamental se tornou urgente. A experiência com o último adestrador ajudara a resolver outras questões, triviais. O desafio agora era ensinar a largar, a contrariar o instinto, a seguir o comando de soltar, querendo fazer justamente o oposto. Mila virou figurinha conhecida no hospital veterinário, recebida a cada episódio com um risinho de “outra vez?”.
Eu poderia dizer que ela devorou a nossa paz, mastigou o nosso sossego. Entretanto, nenhum de nós imagina a vida sem a sua presença em nossa rotina. E, mesmo conscientes de que esse dia chegará, todos os que o antecedem fazem valer cada minuto. O mundo antes da chegada da Mila foi a primeira coisa que ela devorou.
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