Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.
Por isso, ao revelar em entrevista que o prêmio é da irmã, pela ideia, concepção e planejamento do show que correu o País, o gesto fraternal foi, antes de tudo, gentil. Considero essa a cereja do bolo, perfeita para um projeto que envolveu bem mais do que uma seleção de canções, definição do repertório a ser apresentado.
O respeito, a cumplicidade e a admiração mútuos deram o tom irrepetível, impossível de copiar. Desde “Doces Bárbaros”, de 1976, espetáculo que reuniu Gil, Gal, Bethânia e Caetano, e da turnê de 1978, Maria Bethânia e Caetano Veloso — Ao Vivo, o público aguardava por esse encontro no palco.
Uma espera de quase quatro décadas, exceção feita às apresentações dos Doces Bárbaros, por ocasião das comemorações em São Paulo, no Parque Ibirapuera, e no Rio de Janeiro, na Praia de Copacabana, em 2002.
Belém, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Rio, São Paulo, Salvador, Recife e Fortaleza receberam com alegria, alegria a dupla de gigantes da nossa MPB para a celebração de duas vidas, duas carreiras e uma única forma de dedicação à música: por inteiro.
Mãos dadas, cabelos brancos, sorrisos gêmeos, a harmonia de Cosme e Damião, a paz de filhos de Gandhi, encantaram as plateias por onde passaram. Como eu sei se não estive lá? Verdade que em uma crônica anterior, ao registrar o quanto sou fã da Diva, escrevi em confissão de motivos sobre o meu quase comparecimento ao evento, ingressos comprados, o dia chegando e eu desistindo de ir.
Porém, isso não me impediu de acompanhá-los a distância — como, aliás, fiz a vida inteira — e de comemorar a notícia da conquista recente.
Assistir a ambos, juntos, felizes, foi além de testemunhar a grandeza de um ao lado do outro, o compositor e sua intérprete, o cantor e a sua musa.
O Brasil fez parte, nessa oportunidade, de uma comunhão, um país participando de algo íntimo não por meio de mera exposição de celebridades, mas como alguém a quem é concedido o privilégio de, a cada sequência de acordes, abrir envelopes guardados e neles ler, em papel velho, desdobrado, a letra saudosa, caligrafia que preserva o imutável no tempo, tempo, tempo, tempo. Nas linhas está escrito um comovente pedido: “Maria Bethânia, please send me a letter”.
Esse Grammy não se reduz a um gramofone dourado, bonito troféu brilhante. Ele é o símbolo das coisas incalculáveis, intangíveis, como a tua presença, a deles, a dela, a de Gal, na bela homenagem.
É uma prova material de que houve um acontecimento raro nos nossos dias, de que, num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, dois seres iluminados estiveram, sim, resplandecentes, pousados no coração do Hemisfério Sul, na América, num claro instante.
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