Sacerdote jesuita, mestre em Teologia, diretor do Mosteiro dos Jesuítas e fundador do movimento Amare
Sacerdote jesuita, mestre em Teologia, diretor do Mosteiro dos Jesuítas e fundador do movimento Amare
Para a Igreja Católica, o Carnaval possui uma origem profundamente ligada ao calendário litúrgico cristão. Historicamente, ele antecede a Quaresma, tempo forte de preparação espiritual para a Páscoa. A própria etimologia da palavra remete à expressão latina carne vale, tradicionalmente interpretada como “despedida da carne”, sinalizando a passagem entre um período marcado por excessos e outro orientado à sobriedade, à conversão e ao recolhimento interior.
Com o passar dos séculos, o Carnaval adquiriu múltiplas expressões culturais, afastando-se de sua raiz religiosa. Ainda assim, para a Igreja, ele permanece como um marco simbólico: um limiar entre o barulho exterior e o silêncio necessário para escutar a própria vida e a presença de Deus. Não se trata de negar a alegria ou a celebração, mas de recordar que toda festa, para ser verdadeiramente humana, precisa de um horizonte que lhe dê sentido e limite.
É nesse movimento de transição que se insere a Quarta-feira de Cinzas, porta de entrada da Quaresma. Ao receber as cinzas sobre a cabeça, o fiel é convidado a confrontar-se com uma verdade fundamental da existência: a fragilidade da vida e a urgência da conversão do coração. As palavras proclamadas nesse rito — “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho” — não são ameaças, mas convites à lucidez e à esperança.
As cinzas, obtidas dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior, simbolizam o encerramento de um ciclo e o início de outro. Elas recordam que tudo passa, mas que o amor de Deus permanece. A Quaresma que se inaugura não é um tempo de tristeza estéril, mas de realinhamento interior: jejum que educa o desejo, oração que aprofunda o sentido da vida e caridade que devolve centralidade ao outro.
À luz da espiritualidade inaciana, essa passagem — do Carnaval à Quarta-feira de Cinzas — revela um convite ao discernimento. Entre o ruído e o silêncio, entre o excesso e o essencial, a fé cristã nos devolve à pergunta mais decisiva: para onde estamos orientando a nossa vida?
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