Médica hematologista, escritora, cordelista e professora de medicina. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, destaca-se por unir cultura popular e ciência, levando o cordel às universidades, às práticas integrativas em saúde e à divulgação científica. Milita por uma ciência mais humana e torna o cordel uma ferramenta de insurgência afetiva e epistemológica
Foto: FÁBIO LIMA
Imagem ilustrativa de apoio de um corredor na Beira Mar de Fortaleza
No corpo mora um caminho, que hábito algum dá conta; a dor revela um caminho, quando a escuta se apronta; Integrar é ver inteiro, O que a vida nos aponta.
No debate atual sobre saúde, dois termos ganharam circulação rápida: Medicina Integrativa e Medicina do Estilo de Vida (MEV). A proximidade dos nomes produz confusão, mas as propostas não são equivalentes. E, quando tratadas como se fossem, empobrecem a compreensão do que é adoecer e do que significa cuidar.
A MEV, organizada a partir dos anos 2000, sistematiza o impacto dos comportamentos — alimentação, movimento, sono, estresse, vínculos e substâncias — sobre o risco de doenças crônicas.
É clara, operacional, baseada em evidências robustas e necessária para enfrentar a epidemia metabólica que nos atravessa. Tem seu mérito e seu território.
A Medicina Integrativa percorre outro caminho. Consolidada por centros como o NCCIH/NIH — National Center for Complementary and Integrative Health / National Institutes of Health (Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa / Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos), a Universidade do Arizona e a UCSF — University of California, San Francisco (Universidade da Califórnia em São Francisco), ela nasce da necessidade de articular a biomedicina com as PICS — Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, já respaldadas por evidências: acupuntura, meditação, medicina chinesa, Ayurveda, yoga terapêutica, práticas mente-corpo.
É um campo que considera o adoecimento como fenômeno que envolve corpo, mente, emoção, espiritualidade, cultura, ambiente e biografia. Não reduz, amplia.
Com o avanço desse movimento, tudo o que não cabia no modelo biomédico tradicional passou a ser, equivocadamente, jogado no colo da Integrativa.
É preciso dizer sem rodeios: não falo das práticas terapêuticas validadas, reconhecidas por instituições sérias no mundo inteiro. Falo de outro fenômeno — universal na medicina — em que surgem promessas milagrosas, técnicas sem base científica, soluções rápidas, “protocolos” fantasiosos. Isso não é Medicina Integrativa.
Isso é charlatanismo, presente em todas as especialidades: nas cirurgias sem indicação adequada, nos tratamentos vendidos como milagrosos, nas prescrições feitas sem rigor. A Integrativa não abriga esse território; ela o delimita e o recusa com clareza.
A MEV, por sua vez, emerge também como resposta ao desconforto diante do complexo. É natural buscar atalhos. Mas complexidade não se atravessa com simplificações excessivas.
Nem todo sofrimento nasce da falta de rotina; muitos nascem da ruptura de sentido, da sobrecarga emocional, da solidão crônica, da vida que se dobra sem testemunha. O corpo obedece aos hábitos, mas também às histórias.
A Integrativa não é uma lista de técnicas, nem uma coleção de modismos. É uma forma de pensar o cuidado. Um olhar que reconhece o impacto dos hábitos, mas também os limites do hábito diante da profundidade da experiência humana.
Não se trata de opor territórios. A MEV é necessária. A Integrativa é mais ampla. Misturá-las ofusca a potência de cada uma. Diferenciá-las fortalece ambas — e fortalece o paciente, que é quem realmente importa. Integrar para cuidar é isso: ver a vida inteira antes de tocar a parte que dói.
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