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Entre pets e filhos: o que os jovens estão realmente escolhendo?
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Rachel Gomes é jornalista, mãe da Serena e da Martina e produz podcasts de maternidade há cinco anos. Em 2022, deu início ao MamyCast, primeiro podcast de maternidade do Ceará, onde aborda pautas informativas sobre maternidade, gestação e infância

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Entre pets e filhos: o que os jovens estão realmente escolhendo?

Escrevo este texto porque esse movimento gerou em mim uma inquietação e reflexões que achei prudente dividir com vocês
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Imagem ilustrativa de apoio (Foto: Pexels/Christian Domingues)
Foto: Pexels/Christian Domingues Imagem ilustrativa de apoio

Olhando ao redor de praças da cidade, parques e áreas de passeio, tenho observado algo que vem chamando a minha atenção de maneira particular: menos casais empurrando carrinhos de bebê e mais casais levando seu pet para passear.

Mais posts apaixonados de cachorros e gatos e um certo peso na voz quando o assunto é ter filhos. É muito bom deixar claro que o objetivo desse texto não é julgar escolhas (que autoridade eu teria para isso?), muito menos para defender que exista um caminho “certo” de viver. Escrevo porque esse movimento gerou em mim uma inquietação e reflexões que achei prudente dividir com vocês.

O que essa mudança diz sobre nós, sobre o nosso tempo e sobre o significado de cuidar? A verdade é que a tendência não é apenas percepção. Ao mesmo tempo em que cresce o número de lares com animais de estimação, as taxas de fecundidade caem no mundo inteiro.

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já estamos abaixo do nível de reposição populacional. Não é pouco. Isso significa que estamos diante de uma transformação social profunda — silenciosa, cotidiana, sem decreto oficial, mas acontecendo dentro das casas e dos afetos.

Mas interpretar tudo isso como “egoísmo da nova geração” pode ser uma armadilha perigosa. Ao conversar com jovens adultos, encontro menos egoísmo e mais medo.

Medo de não dar conta . Medo de repetir histórias familiares difíceis. Medo de criar crianças num mundo caro, instável, exausto, polarizado. Medo de abrir mão de si quando a rede de apoio é frágil ou inexistente. É fácil chamar isso de “frescura”. É muito mais honesto reconhecer como sintoma do tempo.

E onde entram os bichos nessa história?

Os animais oferecem algo que dialoga diretamente com esse contexto: companhia, previsibilidade emocional, rotina mais controlável, menos cobrança social e uma forma concreta de exercer cuidado. Com um pet, há afeto, responsabilidade, presença e até dor, quando eles adoecem ou partem.

Mas há também um grau menor de renúncia de identidade, menos vigilância social sobre como você deve “ser tutor ideal” e menos décadas de responsabilidade contínua. Não é que seja fácil, mas é diferente.
Esse movimento já começa a ser observado também pela ciência.

Um estudo publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health investigou exatamente a relação entre apego a animais de estimação, sensação de segurança econômica e intenção de ter filhos.

Os pesquisadores encontraram algo interessante: quanto maior o apego emocional aos pets, combinado a uma percepção de instabilidade financeira, menor era a intenção declarada de ter filhos no futuro. O estudo não diz que os pets “substituem” filhos de forma simples ou automática.

Ele sugere algo mais sutil: em um cenário em que as pessoas se sentem economicamente inseguras, o vínculo com os animais pode se tornar uma forma significativa de exercer cuidado e afeto, enquanto a parentalidade humana é adiada ou repensada.

Ou seja, não é apenas “prefiro cachorro a criança”. É “amo meu cachorro” + “não sei se o mundo e eu temos estrutura para um filho”. É afeto somado a contexto.

Olhar para isso sem preconceito é essencial. Ter filhos precisa ser escolha — e continuará sendo. Não ter filhos também precisa ser legitimado como escolha adulta e responsável.

Amar intensamente um animal não diminui ninguém. Ao contrário: revela uma capacidade de vincular-se, de cuidar e de se deixar transformar. Mas há, sim, perguntas que como sociedade precisamos fazer.

O que acontece quando cuidar de crianças se torna tão caro, tão solitário e tão cansativo que muita gente simplesmente desiste? Estamos construindo uma sociedade que apoia a parentalidade — ou uma sociedade que a pune?

Será que estamos criando um mundo onde os animais serão mais bem cuidados do que os próprios seres humanos? Ou será que estamos apenas reorganizando o que entendemos por família, vínculo, cuidado?

Talvez a questão não seja escolher entre pets ou filhos, como se estivéssemos em lados opostos. Talvez o convite seja outro: como construímos um mundo em que cuidar de qualquer vida — humana ou animal — seja possível, sustentável e desejável? Onde ter filhos não signifique heroísmo solitário, e amar um pet não seja visto como fuga ou compensação?

Eu não tenho respostas fechadas. Tenho perguntas — e afeto por todas as escolhas que nascem de responsabilidade e verdade. O que me preocupa não é o aumento do amor pelos animais. É quando o mundo se torna tão duro que o medo de ter filhos parece maior do que o desejo. E é aí que a conversa realmente começa.

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