Bióloga e mestre pela Universidade Federal do Tocantins, Raquel da Silva Acácio possui mais de 15 anos de experiência em gestão ambiental, coordenação de equipes multidisciplinares e condução de programas de monitoramento de fauna, flora e ecossistemas aquáticos na Amazônia e no Cerrado. Na Fazenda do Futuro e no Hotel EcoAraguaia, atua na interface entre ciência, regeneração e gestão territorial, promovendo modelos inovadores de convivência entre natureza, comunidades e economia local — onde liderança e cuidado caminham lado a lado, como expressão viva de amor pela Terra.
Foto: Pexels/mali maeder
Imagem ilustrativa de apoio
A economia profunda nasce de um reconhecimento simples e radical: toda economia é, antes de tudo, uma expressão da relação entre o humano e a Terra. Na parte I desta série, revisitamos as raízes desse entendimento — a Ecologia Profunda, o Soil–Soul–Society e a visão da Terra como um sistema vivo — para afirmar que não existe prosperidade possível quando a economia se organiza contra os ciclos da vida.
Na parte II, avançamos para o humano necessário para sustentar essa transição: o Ser Gaiano, aquele que reconhece a si mesmo como parte do metabolismo do planeta e age a partir dessa consciência.
É a partir desse ponto que este artigo se ancora. Se existe um Ser Gaiano capaz de sustentar uma nova economia, como ele atua no mundo concreto? Onde essa consciência se materializa? A resposta começa no chão. Não em qualquer chão, mas na terra viva, cuidada, observada, regenerada ao longo do tempo.
A agricultura e a pecuária regenerativas surgem aqui não como um setor produtivo entre outros, mas como fundamento material, ecológico e ético da Economia Profunda. Produzir alimento é produzir paisagem, saúde, cultura e futuro. Quando essa produção ignora os ciclos da vida, a economia colapsa silenciosamente; quando os respeita, ela se renova.
Durante décadas, a agricultura moderna fragmentou aquilo que na natureza sempre foi integrado. Separou lavoura de floresta, pecuária de solo, produção de comunidade.
A Economia Profunda propõe o movimento inverso: integrar para regenerar. É a partir desse princípio que, na Fazenda do Futuro, a agricultura e a pecuária são conduzidas por sistemas integrados de produção, desenhados para cooperar com os ritmos naturais e, ao mesmo tempo, gerar produtividade real.
Um desses sistemas é o Sistema Agroflorestal (SAF) implantado em uma área de um hectare, que já acumula entre quatro e cinco anos de integração contínua. Trata-se de um mosaico vivo de linhas de floresta e linhas de roça, onde convivem cerca de dez espécies agrícolas e florestais.
A cultura-chave é o açafrão, estruturando economicamente o sistema, enquanto frutas, castanhas, raízes e espécies florestais de longo ciclo ampliam a resiliência ecológica e produtiva.
Não há componente animal nesse modelo. Ele foi desenhado para demonstrar como diversidade, sucessão ecológica, produção de alimento, madeira futura e sequestro contínuo de carbono podem coexistir no mesmo espaço. O resultado é um sistema agrícola carbono positivo, que produz hoje enquanto regenera o amanhã.
Em escala maior, a Fazenda do Futuro também prototipa um sistema de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF), inspirado na metodologia desenvolvida pela Embrapa. Esse sistema ocupa uma área de aproximadamente 30 hectares e integra floresta, pastagem e gado de corte em um desenho silvipastoril orientado para a produção de carne carbono positivo.
O componente florestal é composto por teca, uma madeira de alto valor econômico e forte capacidade de fixação de carbono. A floresta cria sombreamento, melhora o microclima e se torna parte estrutural do sistema produtivo.
O gado é manejado em pastagem rotacionada intensiva em cuidado: os animais mudam de área várias vezes ao dia, acompanhados por um pastor, permanecem sempre em ambiente sombreado, alimentam-se exclusivamente de pasto natural e apresentam alto nível de bem-estar. Nesse arranjo, floresta, solo, pastagem e animal trabalham juntos.
Na Fazenda do Futuro, a agricultura e a pecuária regenerativas constituem uma das sete dimensões do modelo de evolução e governança do território. Elas se conectam diretamente com o Turismo Regenerativo, que convida visitantes a conhecer e vivenciar esses sistemas vivos, e com a Escola Floresta, onde o território produtivo se transforma em espaço de aprendizagem.
O leitor é convidado a seguir acompanhando os próximos artigos da série — especialmente os dedicados à educação viva — e, se sentir o chamado, a conhecer de perto, no Cantão, Portal da Amazônia, a Fazenda do Futuro como território vivo de experimentação, aprendizado e regeneração.
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