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Gilmar de Carvalho e o mundo encantado da cultura
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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

Gilmar de Carvalho e o mundo encantado da cultura

Gilmar de Carvalho, morto na sexta-feira passada por complicações da Covid-19, deixa o rastro de um pesquisador incansável na área da cultura. Foi professor da UFC, escritor de ficção, publicitário e ensaísta.
Tipo Análise
Gilmar de Carvalho se tornou uma referência como guardião da cultura
 (Foto: Deisa Garcêz/Especial para O Povo)
Foto: Deisa Garcêz/Especial para O Povo Gilmar de Carvalho se tornou uma referência como guardião da cultura

O professor chegou à sala. Sentou-se. Arrumou metodicamente a pasta sobre a mesa após a retirada de uns papeis que também foram organizados como se fossem uma única página. Vestia uma calça jeans, uma camisa branca, um cinto, calçava um sapato social. Falava baixinho. Iria substituir a professora Adísia Sá na disciplina Deontologia da Comunicação. Foi assim que conheci o professor Gilmar de Carvalho. Esse quadro ficou-me gravado na memória. 

Sempre achei Gilmar de Carvalho um homem contido em constante rebuliço de ideias. A toda hora esbarrava com o professor Gilmar e as trilhas que ele abria para iluminar os estudos sobre a cultura do Ceará. No percurso Assaré-Fortaleza, o Patativa do Assaré foi impresso em livros e recitais; de Juazeiro, Gilmar deu nome a cordelistas, gravadores e xilogravuristas; de Várzea Alegre, trouxe Babinsky em livro e contribuiu para dar relevância ao polonês que vivia no interior do Ceará e já era conhecido no resto do País.

Em Fortaleza, fez ressurgir o Ramos Cotoco, rei das modinhas da sua época, um exímio cronista do cotidiano da cidade, para além de ser o pintor do Theatro José de Alencar; fez um trabalho essencial de resgate dos rabequeiros cearenses. Escreveu também sobre a história da música em Fortaleza numa publicação lançada em 2019, no Porto de Iracema.

Gilmar de Carvalho era nosso Mário de Andrade. Tinha uma mente privilegiada e sensível para perceber lacunas na nossa produção cultural que dormia até ele tocar com o talento de fazê-las submergir. Seus ensaios eram escritos com um toque de leveza que parecia apenas arranhar a superfície das coisas, mas nos levavam ao emaranhado dos estudos culturais, sem que os textos perdessem o sabor da descoberta do mundo encantado que Gilmar trazia à tona.

"Irônico, com meio sorriso, dizia que o cearense sofria da “síndrome do rejeitado”, graças ao imbróglio histórico que remonta ao tempo das capitanias."

Não era um homem de gênio fácil. Aliás, acredito que o professor tenha rompido com a ideia de felicidade antes de todos os filósofos. Alimentava uma teoria nada lisonjeira sobre o cearense acolhedor, bem humorado, boa praça que ainda se reunia em cadeiras na calçada. Para ele, éramos um bando de invejosos que tinha horror quando um conterrâneo progredia e as cadeiras nas calçadas não significavam nada além complôs contra a vida alheia. Irônico, com meio sorriso, dizia que o cearense sofria da “síndrome do rejeitado”, graças ao imbróglio histórico que remonta ao tempo das capitanias.

Gilmar de Carvalho, professor de cultura popular, pesquisador e escritor, posa ao lado da réplica do Bode Iôiô, no Museu do Ceará.
Foto: SARA MAIA
Gilmar de Carvalho, professor de cultura popular, pesquisador e escritor, posa ao lado da réplica do Bode Iôiô, no Museu do Ceará.

Reclamava que não era lido como escritor de ficção, embora tenha concordado com a reedição do ótimo Parabélum. Parecia sempre carecer de mais reconhecimento e, transmitia um certo sofrer por isso. Lembrei-me de Bataille, no livro “Manet” (Martins Fontes, 2020), afirmar que o artista parecia “sempre atormentado”, embora estivesse renovando a pintura e a empurrando para ser um marco da contemporaneidade. Lembrei-me também de uma frase dita pelo contista russo Anton Tchekhov ao constatar o quão lhe pareciam esquisitas algumas pessoas, até concluir: “O estado normal do homem é a esquisitice”.

 

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